quinta-feira, 8 de agosto de 2013

CONTARDO CALLIGARIS - Palavras de amor

A declaração de amor não serve para seduzir o objeto de amor,
 mas para apaixonar-se cada vez mais

Os sentimentos funcionam como picadas de mosquito, que coçamos e recoçamos até que se tornem feridas infectadas e, às vezes, septicemias generalizadas (quem sabe fatais). Salvo um exercício difícil de autocontrole, qualquer picada pode adquirir uma relevância desmedida: a gente tende a se coçar muito além da conta porque descobre que se coçar não é um alívio, mas um prazer autônomo em si.

Por isso mesmo, em geral, não confio nos sentimentos --nem nos meus, nem nos dos outros. Não é que eu supunha que os humanos mintam quando amam, odeiam ou se desesperam no luto. Nada disso.

Apenas verifico que os sentimentos, em geral, são condições autoinduzidas: transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos, que, se não procuram sarnas para se coçar (como diz o ditado), no mínimo adoram coçar as sarnas que eles têm. Detalhe: coçando, aumenta o prurido, assim como aumentam a vontade e o prazer de se coçar.

Tomemos o exemplo do amor. Eu encontro, conheço ou vislumbro de longe alguém que preenche algumas condições básicas para que eu goste dela. Sussurrando entre quatro paredes ou gritando em praça pública, anotando no meu diário ou escrevendo para grandes editoras, passo a encher o ar ou as páginas com as descrições da beleza inigualável de minha amada e com as declarações hiperbólicas de meu sentimento.

Claro, minha prosa ou poesia poderão, quem sabe, conquistar meu objeto de amor, mas esse é um efeito colateral. O efeito mais importante (e esperado) de minhas palavras de amor não é tanto o de seduzir o objeto de meus sonhos, mas o de eu me apaixonar cada vez mais. Pois a intensidade do meu amor será diretamente proporcional à insistência e virulência de minhas declarações.

Em linguística, chamamos performativas aquelas expressões que, ao serem proferidas, constituem o fato do qual elas falam. Exemplo clássico: um chefe de Estado dizendo "Declaro a guerra" --essa frase é a própria declaração de guerra.

Dizer que sou apaixonado, que odeio ou que me desespero no luto talvez não sejam propriamente performativos. Mas se trata, no mínimo, de semiperformativos, ou seja, talvez os sentimentos existam antes de serem declarados, mas eles só crescem e tomam conta da gente na hora de serem ditos, descritos e contados --na hora de sua declaração, pública ou privada.

Há três razões pelas quais o amor é absolutamente indissociável da literatura amorosa. A primeira é que a gente aprende a amar e a declarar o amor pela literatura. A segunda é que o amor se tornou relevante em nossa vida à força de ser descrito e idealizado pela literatura. A terceira é que o amor, como sentimento, é um efeito das palavras que o expressam: a literatura nos instiga a amar tanto quanto nossas próprias declarações amorosas.

Acabo de terminar a prazerosa leitura de "Como os Franceses Inventaram o Amor" (editora Prumo). Nele, Marilyn Yalom percorre a literatura francesa e revela que ela é um repertório completo do amor.

A coisa começa com o triângulo amoroso, que não é um acidente ou um imprevisto do amor; ao contrário, o amor começa, mil anos atrás, com o triângulo amoroso. Tristão escolta Isolda, a futura esposa de seu tio, e se apaixona por ela. Lancelote venera seu rei Artur, mas se apaixona pela rainha. E, em geral, os poetas do amor cortês amam damas casadas (e frequentemente fiéis a seus senhores, aliás).

A França é, para Yalom, a pátria do amor. Não só pela riqueza de sua literatura, mas justamente porque, na cultura francesa, do amor cortês do século 12 até as conversas das preciosas nos salões parisienses do século 17 (que Molière ridicularizava, mas também admirava), amar é, antes de mais nada, uma arte de dizer, de ser efeito das próprias palavras que usamos ao declarar e descrever nosso sentimento.

Alguns acham que falta amor em sua vida. Como Emma Bovary ou Anna Kariênina (extraordinária a tradução de Rubens Figueiredo, pela Cosac Naify), temem que, sem amor, sua vida nunca chegue a ter a dignidade de um romance. A eles, recomendo paciência: os tempos mudam, e talvez se afirme hoje, aos poucos, uma retórica nova, menos sentimental, capaz de dar valor literário a uma vida sem amores e paixões.

Outros se queixam dos estragos que o excesso de amor faz em sua vida. Aqui a cura é simples: eles não vão acreditar, mas basta se calar um pouco, assim como é suficiente não se coçar para que as picadas de mosquito parem de incomodar.


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terça-feira, 6 de agosto de 2013

FERNANDA TORRES – Macumba

Um amigo de ascendência judaica me chamou a atenção para o fato: a macumba virou artigo raro nas encruzilhadas cariocas. Cresci acreditando que elas eram eternas, parte intrínseca da nossa cultura. Eu acordava cedo na Rua Frei Leandro, 29, caminhava até a Alexandre Ferreira, em direção ao Colégio Souza Leão, e na esquina com o canal havia sempre um prato de barro com arroz, pipoca e farinha, adornado com flores, cachaça e velas; as mais carregadas exibiam galinhas mortas. Eu desviava, respeitosa, e seguia em frente pedindo licença.

Meu conhecido é morador de Laranjeiras. Segundo ele, o costume ainda impera no acesso do Cosme Velho para o túnel. Um terreiro escondido na mata, entre o Largo do Boticário e o retorno do Rebouças, mantém viva a tradição.

A subida para Santa Teresa é outro foco de resistência.

Acredito que a razão do sumiço seja o avanço evangélico nas comunidades carentes. O monoteísmo radical dos brancos do norte condena o politeísmo africano. O culto trazido pelos navios negreiros foi confundido com a personificação do mal.

O pastor Marcos e muitos vídeos disponíveis na internet, com cenas explícitas de extorsão de fiéis, mostram que o diabo não privilegia credo.

A África, dada ao sincretismo, desconhece o maniqueísmo. As forças naturais manifestadas em seus deuses agem para além do bem e do mal e se reconhecem até nos ídolos alheios. O mesmo não acontece com a religião fundada pelos europeus do século XV, inconformados com a corrupção do catolicismo da Idade Média.

A Reforma não admite nuances, tanto que eliminou os santos de seu panteão. Mas fez grandes avanços ao permitir o casamento dos sacerdotes e se opor ao fausto romano. Séculos depois, a corrente religiosa que nasceu para dar fim à perdição acabou, ela mesma, caindo em tentação. No Novo Mundo, o puritanismo semeou o milagre da multiplicação dos dividendos e, humano, demasiado humano, repetiu os pecados que nasceu para exterminar.

No Brasil, as igrejas Universal, Batista, Adventista e Metodista souberam ocupar o vazio deixado pelo estado, criando alguma ordem social, moral, onde só existiam a má distribuição de renda, a miséria e a falta de saúde, transporte, educação e saneamento.

O encastelamento da Igreja Católica a afastou do dia a dia dos fiéis e contribuiu para a perda de território. As missas são impessoais e os padres têm um sotaque arcaico, um falar etéreo, indiferente ao drama terreno.

O candomblé sempre serviu de contraponto carnal para um espírito tão santo. Não mais. Os evangélicos não concordam com as regras da boa convivência religiosa que imperam no Brasil há 400 anos.

Admiro a eficiência das novas igrejas, reconheço seus resultados, mas lamento a intolerância. Eu me acostumei com a ideia de que o Brasil é um país multirracial, multicultural, multirreligioso. A terra da miscigenação. Que bom seria se, aqui, nascessem um adventismo, um calvinismo, um luteranismo, um ismo menos radical. Se os trópicos aliviassem o fundamentalismo cristão de seus praticantes.

E se os despachos voltassem a decorar as esquinas do Rio.




domingo, 4 de agosto de 2013

ARNALDO BLOCH - Quem é o líder?


Sucesso do Papa Francisco se deve a ausência de líderes mundiais

Sem querer desmerecer o talento do Papa Francisco e seu possível ânimo reformista, penso que o grande motivo de seu sucesso meteórico é a absoluta ausência de grandes líderes e estadistas no nosso mundo contemporâneo.

Dentro da máxima de que em terra de cego quem tem um olho é rei, Jorge Bergoglio, cheio de ideias e bem-falante, num ambiente político tão pobre de carisma e discurso, ganhou a cena rapidinho só no ato de elevar o nível da comunicação reflexiva sobre questões básicas de moral e ética.

Se não, vejamos: quem são, hoje, os grandes estadistas, os grandes oradores, os grandes líderes da Terra? Barak Obama chegou a dar esperança, mas, por melhor que sejam sua lábia, suas intenções e parte de sua prática, o presidente americano brilha mesmo é nas campanhas, nos discursos de posse e na execução de Osama Bin Laden. Raramente fala com o mundo. É um scholar refinado, homem de gabinete e burocrata centrado nas questões de interesse nacional.

Na Europa oriental Putin é uma estrela patética. Na França, François Hollande refugou e está quieto. Ninguém aguenta Angela Merkel. No Oriente Médio, bom, Netanyahu não é propriamente um prodígio de comunicação e popularidade intercontinental. Se pensarmos em Ben Gurion ou Golda Meir, dá até pena. Os líderes palestinos não têm a cancha de um Arafat. A Primavera Árabe foi um movimento e tanto. Mas, quem é a grande voz do Islã? Será Ahmadinejad, que nem árabe é, o Nasser do futuro?

No Brasil, Dilma Rousseff é uma grande trabalhadora mas, vamos convir, não é uma voz altiplana, uma estadista das multidões. Lula foi e é um vulto, um grande orador do povo, tem méritos e defeitos, mas, em que pese o prestígio político internacional, a liderança mundial efetiva não viria, como se previu: ficamos nas figuras do “mascote do mundo” e na tirada de Obama: “Este é o cara”. E a nova geração? Eduardo Campos (que chamou a atenção para a falta de novas e jovens ideias) afigura-se um estadista? Aécio Neves terá um pedacinho que seja da estatura de Tancredo Neves? Quem vem por aí? Garotinho? Feliciano?

Onde estão os líderes? Meus bisavós foram contemporâneos do tsar Nicolau II e Abraham Lincoln e viram Lenin ascender ao poder. Mahatma Gandhi pregava a não violência. Imigrados, assistiram a discursos de Getúlio Vargas. A segunda geração, dos meus avós, ouviu Franklin Roosevelt pregar o New Deal e, quando Winston Churchill prometeu sangue, suor e lágrimas, papai já ia ver o movimento na Conde de Lajes. No tempo em que o progenitor namorou minha mãe Lacerda fazia discursos na televisão e JK já tinha construído Brasília.

Nasci no primeiro ano do regime militar justamente num tempo em que o nível dos governantes (nível entendido como uma conjunção de saberes e ideias, o poder de comunicá-las e a firmeza para implantá-las com respeito a valores morais e éticos comprometidos com alguma dose de humanismo) começou a cair no mundo todo. Na transição da infância para a adolescência, minha principal referência de voz “política” era John Lennon. E, rumando para a idade adulta, quanto mais conhecia os líderes do passado, menos enxergava na turma da Guerra Fria qualquer tirada inspiradora.

No meio do caminho, um Gorbatchev aparece como figura “orgânica” realmente transformadora e comunicativa, e Ronald Reagan e Margaret Thatcher eram personagens sinistras de certo impacto. No Brasil, saído dos anos de chumbo, Brizola, que jamais viraria um estadista, era ao menos o último grande orador e ainda proporcionava o prazer da escuta. Da América só vinham vozes de guerra, só daria para relaxar um pouco com a cara de malandro de Bill Clinton.

Na Europa, morando na França, conheci, in loco, o charme e a consistência política de François Mitterrand (em que pese a inconsistência doutrinária) e, depois, ninguém mais. Sobre Jacques Chirac, cujo livro de cabeceira é do nosso Paulo Coelho!, só depreendi mediocridade e gosto por cerveja. De Sarkozy... bom, desse aí é melhor nem falar.

Onde estão os líderes? Hugo Chávez morreu. Este sabia falar e mobilizar. Mesmo assim, era desses líderes que fazem do confronto a palavra e esvaziam o discurso com chavões. Os chavões chavistas cansaram o mundo. Fidel, o comandante, tem hoje como porta-voz um irmão inexpressivo. A extrema direita, felizmente, apesar das aberrações que apresenta, especialmente na Europa, não há de encontrar um artífice com a oratória e a fúria de Adolf Hitler, e, espera-se, nem as condições ideais para a emersão de algo semelhante.
E, no lugar de Lennon, vejo Yoko Ono mostrar os óculos do marido e pedir paz, na tentativa de que uma refração mágica miraculosa substitua, por um átimo, sua silhueta pela do cara de Liverpool. Imagine...

Os motivos desta grande queda na mensagem e na qualidade dos governantes podem ser observados por vários ângulos, alguns dos quais até já soam como clichês, de tão institucionalizados que já estão no pensamento acadêmico: do crescimento do capital sobre o estado ao advento, na Aldeia Global, de um corpo esférico onde as ideias são mais fragmentadas e compartilhadas através de lideranças de tribos e subtribos.

As grandezas, os dizeres, os discursos, políticos em essência e não partidários, estão na corrente sanguínea da web. Cada um que escolha o seu líder e caminhe, se necessário sem sair de frente do monitor, na direção que deseja, dentro do mundo ou em realidades paralelas.

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sábado, 3 de agosto de 2013

MARCIA TIBURI - Me dá preguiça


Quem nunca teve preguiça que atire a primeira pedra. De onde vem a preguiça que só de pensar nela ela já aparece? Se uns dizem que são preguiçosos para estudar, ler ou trabalhar, outros dizem que preguiça é “o que dá” diante de certas pessoas ou programas, causas políticas e ecológicas cheias de discursos que se repetem ou que exigem esforço. Em nossos tempos já se falou até de preguiça do sexo. Se a preguiça é difícil de explicar, não é difícil de entender que ela é reação a algo que, na falta de expressão melhor, chateia. Pode ser causa, mas também efeito. Pode ser direito e pode ser desculpa. Em qualquer caso, ela é sempre um mal estar. Tal mal estar não é só ruim, pode também ser proteção contra o excesso de trabalho, contra a super produtividade de cuja exigência ninguém escapa na vida contemporânea. Mal compreendida a preguiça pode ser só uma forma de violência passiva diante das urgências da vida.

A preguiça é um vício

Há preguiça demais e pouca análise dos seus motivos. Até por preguiça. Até parece a grande vitoriosa diante das possibilidades da vida. A preguiça é redundante. Seu nome próprio é a vitória sobre qualquer esforço, até o do pensamento que parece não exigir força alguma. Mas por qual motivo?

Os filósofos antigos se ocupavam da preguiça como um dos sintomas da melancolia que compõe a pré-história da depressão atual. A preguiça era falta de vontade de tudo e qualquer coisa. Na Idade Média, São Tomás de Aquino tratou-a entre os vícios capitais que se opunham às virtudes. Virtude, para o filósofo santo, era tudo aquilo que dizia respeito à realização da natureza de algo. Por exemplo: a virtude da faca é cortar, a virtude do homem é raciocinar, a virtude do cão de guarda é guardar assim como a da estante é suster livros. Neste sentido, mesmo sendo cristão, ele pensava como os antigos gregos. Vício, por outro lado, era tudo o que não alcançava seu próprio objetivo interno, era como perder-se no meio do caminho: uma faca que não corta, um homem que não raciocina, um cão que não guarda, etc. Mas por que algo deixaria de fazer o que deve, ou deixaria de realizar o motivo pelo qual existe?

A definição tomista de preguiça é importante ainda hoje: ela se caracterizava como uma tristeza que impossibilitava a quem dela padecia de agir para fazer o bem. A preguiça era um torpor do espírito que impedia o indivíduo de agir. Não era a maldade, mas a inatividade.

Não é nenhum exagero a sua íntima relação com a cultura brasileira. Quando Mario de Andrade escreveu seu Macunaíma não errou nem por um segundo quanto ao sentido da preguiça que, como sério fator cultural, nos assola desde sempre.

A preguiça é a doença da ação

A preguiça tem alvo. Sua arma é o abandono. Quando temos preguiça tratamos nosso alvo como algo que simplesmente não nos interessa. Abandonamos ou ficamos abandonados a nós mesmos. Pode-se ter preguiça de conversar com amigos, mas também de educar os filhos, de ensinar alunos, de informar um funcionário sobre seus erros ou até acertos. A preguiça não vem do cansaço. É bom esclarecer que cansado é aquele que fez ou tentou fazer, que exauriu forças e não pode prosseguir por esgotamento. Esgotou uma força que havia. Preguiçoso é quem nem tentou fazer, mas está impedido por um outro motivo, o descaso. Em sua base está um desinteresse pelas coisas e pelas pessoas que, sem cuidado, pode se transformar em falta de respeito. O preguiçoso é aquele que esgota uma força que nunca existiu, ele se cansa antes de ter começado como se estivesse doente de uma curiosa incapacidade de agir.

Impotência

Se a violência é destrutiva do poder como um dia comentou a filósofa da política Hannah Arendt, podemos dizer que a preguiça também nega o poder, mas não por contradizê-lo e sim por localizar-se onde ele falta. A preguiça é o nome que se dá a uma forma de impotência, à potência que não se realiza. O preguiçoso não é simplesmente aquele que “não pode”, mas aquele que não tenta, não deseja e, no limite, não se permite sair da inatividade na qual está lançado. No fundo, o impotente é aquele que “poderia, mas não pode”. Porém, é preciso lembrar que “não poder” também está ao alcance de todo aquele que pode. Quem faz algo poderia sempre “não ter feito nada”. O que nos ensina que fazer ou não fazer tem relação direta com a possibilidade de escolha.

A preguiça neste sentido não é o ócio, mas o seu momento negativo, pejorativo. Assim como o negócio é a negação do ócio, mas num sentido positivo, a preguiça é a negação do ócio num sentido pejorativo. Por isso é possível dizer que a preguiça é autoritária, porque ela é fechada, não deixa espaço para as novidades da vida, para outros olhares, para a aceitação de novas potências. Se há segredo em conviver com a preguiça nossa de todo dia, ele está na possibilidade de saber sua diferença com o descanso necessário ou a falta de desejo pela vida e suas possibilidades. É muito bom não fazer nada quando isto é uma escolha, mas não é nada bom ser escravo da própria impotência.


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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

CORA RÓNAI - 60 anos: já?!

Não posso dizer que tenha sido uma surpresa, mas foi um susto: fiz, ontem(31 de julho de 2013), 60 anos. Não lido bem com datas redondas, e essa, então, me parece singularmente emblemática. Os amigos que já passaram por isso garantem que não é nada, que não dói e que tem até vantagens, como fila especial no banco, meia entrada no cinema e no teatro e passagem grátis no ônibus; mas só de saber delas sinto vontade de sair correndo de volta para os 59, que até a semana passada me pareciam muitos, mas hoje parecem tão poucos e bons. Mais um pouco e alguém vai me recomendar hidroginástica e dança de salão.

Conceição Giancoli, amiga do Facebook, foi a mais realista: “Como já fiz 72 lhe digo: não entre na fila de idosos nos bancos, é a mais lenta, não pague meia nos teatros, é humilhante, se entrar no metrô fique de pé, as crianças precisam descansar. Lembre-se, nada mudou.”

Um dos meus orgulhos é fazer anos junto com Harry Potter. Ele é do dia 31 de julho porque J. K. Rowlings também é. Engraçado como o personagem, nesse caso, é muito mais importante para mim do que sua autora — nunca me passaria pela cabeça comemorar o fato de que faço anos no mesmo dia que ela. Go figure.

Eu cantava “Não confie em ninguém com mais de 30 anos”, e Mamãe, que sempre soube das coisas, me advertia para o fato de que, se a sorte me sorrisse, eu passaria muito mais tempo com mais de 30 do que com os 15 que tinha até então. Eu sabia por saber, mas não acreditava. Mesmo aos 27, quando joguei tudo para o alto e comecei a Vida 2.0, os 30 ainda pareciam distantes, muito distantes. Não sou boa de matemática, mas 60 é duas vezes 30. Socorro!

As casas envelhecem junto com seus habitantes. A tinta desbota, os interruptores viram curiosidade arqueológica, a decoração lembra revistas de muitos anos atrás. E o banheiro? Quando dá infiltração é preciso caçar peças no cemitério dos azulejos: brrrrr!

Tento, na medida do possível, evitar que meu apartamento compartilhe a minha sorte. Não há muito que eu possa fazer em relação ao conteúdo: ele tem uma estrutura mental já definida, que é a configuração dos móveis e, sobretudo, das estantes, e tem as suas memórias, que são as minhas — os quadros, os móveis escolhidos ao longo do tempo, as coisinhas que eu fui trazendo dos lugares que visitei, o Ganesha enorme e colorido do escritório, o frágil pirarucu de Parintins que virou a obsessão das crianças, que cismam em brincar com aquele peixe que a vó não deixa pegar.

Tenho inveja de quem consegue viver em ambientes quase vazios, sem rastros, assim como tenho inveja de quem consegue se manter magra. Meu apartamento tem chances de conseguir, um dia, essa vida elegante, mas não estarei aqui para ver. Até lá, teremos que enfrentar os anos com a possível galhardia e os ajustes necessários.

Pensando nisso, chamei um eletricista, há três meses, para rever as instalações elétricas, trocar tomadas e interruptores, renovar o quadro de luz. Queria me dar de aniversário o presente de uma casa aggiornata.

Fiz orçamentos, um mais cabeludo do que o outro. O homem que começou a obra era simpático; todos os incompetentes que chegam recomendados são simpáticos. Todos os vigaristas também. Simpatia não é qualidade de currículo para eletricista, mas isso a gente só descobre quando descobre.

O moço simpático era mentiroso, enrolão, incompetente. Faltava mais do que vinha, chegava ao meio-dia, dava desculpas ridículas e infantis, mandava a mulher ligar em seu nome. Em vez de começar e terminar um ponto para seguir em frente, começava tudo mais ou menos ao mesmo tempo e não acabava nada. Um dia fiquei tão irritada com as suas patranhas que o toquei porta afora. De lá para cá, tomei juízo, pedi laudo a um engenheiro elétrico e, num futuro oxalá próximo, terei o eletricista da sua confiança refazendo as barbeiragens daquele sergiocabral da construção civil.

Resultado: nos meus 60 anos, minha pobre casinha está com cara de 80. Pintura arrebentada em vários lugares, interruptores sem espelho, lâmpadas penduradas onde antes existiam lustres, maçarocas de fios saindo dos cantos mais improváveis — um retrato perfeito da sua dona, que está precisando de tantos remendos que só vai chegar aos 61 aos 65.

O melhor presente que ganhei — um pouco adiantado — foi Frida Gahto, a gatinha maltratada que a Bia resgatou e que, depois de duas cirurgias e de muitos cuidados, está uma lindeza, gordinha, saudável, cheia de atitude. Frida ficou tão traumatizada, coitada, que tem medo de todo mundo — mas me conferiu o privilégio da sua confiança e do seu carinho. Sempre que ela vem para o meu colo me sinto uma pessoa poderosa, especial, digna da distinção única que é o amor de um bicho.

Isso, felizmente, não muda nunca.

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NOVA DESCOBERTA PODE LEVAR A CURA DO CÂNCER

Estudo feito com camundongos registrou 
taxa de sobrevivência de 50% a 75% nos animais.

Um dos grandes obstáculos no tratamento do câncer, principalmente em seus estágios terminais, quando as metástases já se espalharam pelo corpo, é matar os tumores sem, no entanto, matar o doente antes. As altas doses de radiação ou quimioterapia necessárias para eliminar as células tumorais também atacam as saudáveis, debilitando os pacientes a um ponto em que seu organismo não consegue mais funcionar. É algo como tentar regar um vaso com uma mangueira de incêndio: a água em excesso acaba por matar a planta. Agora, porém, cientistas da Universidade de Michigan descobriram um mecanismo biológico capaz de proteger o trato gastrointestinal dos danos das terapias e mantê-lo em funcionamento, aumentando exponencialmente as chances dos pacientes sobreviverem a quantidades normalmente letais de remédios ou radiação.

- Acreditamos que isso eventualmente vai permitir a cura do câncer mesmo em estágio terminal. Se nossas previsões estiverem corretas, as pessoas não vão mais morrer de câncer – afirma Jian-Guo Geng, professor da Universidade de Michigan cujo laboratório foi responsável pela descoberta, publicada em artigo na edição desta semana da revista “Nature”. - Todos os tumores em diferentes tecidos e órgãos podem ser eliminados por altas doses de quimioterapia ou radiação, mas o desafio atual no tratamento do câncer em estágio terminal é que na verdade matamos os pacientes antes de matarmos os tumores. Mas agora temos uma maneira de fazer com que os pacientes tolerem doses letais de quimioterapia ou radioterapia. Dessa forma, o câncer pode ser erradicado com crescentes doses de ambas.

Geng e sua equipe descobriram que certas proteínas se ligam a moléculas específicas nas células-tronco intestinais, responsáveis por naturalmente reparar danos nos órgãos e tecidos locais, fazendo com que elas se multipliquem rapidamente. Quantidades normais destas células não conseguem fazer frente ao estrago causado pelas doses maciças de remédios ou radiação capazes de eliminar o câncer metastático, mas com seu exército reforçado o trato gastrointestinal pode continuar em operação. Isso permite que o corpo dos pacientes continue a absorver nutrientes e a realizar outras funções ao mesmo tempo em que impede que as bactérias presentes no intestino invadam a corrente sanguínea, o que, diz Cheng, dá a eles maiores chances de sobreviverem a doses cada vez maiores dos tratamentos até que os tumores sejam erradicados.

No estudo, feito em camundongos, 50% a 75% dos animais que receberam as proteínas toleraram quantidades de quimioterápicos que de outra forma seriam letais, enquanto nenhum dos camundongos do grupo de controle, que ficaram sem as proteínas, morreram. Cheng destaca, porém, que o método ainda não foi testado em humanos, então não há como saber se o trato gastrointestinal das pessoas seria preservado como o dos animais. Além disso, diz, mesmo que no futuro o tratamento se prove eficiente em humanos, ainda seriam necessários pelo menos dez anos para ele ficar disponível para uso nos hospitais.

- Por enquanto, encontramos apenas uma maneira de proteger os intestinos de camundongos – reconhece. - Nosso próximo passo é atingir uma taxa de sobrevivência de 100% dos animais que tiveram as proteínas injetadas e receberam doses letais de quimioterapia e radioterapia.
CESAR BAIMA

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LUIS FERNANDO VERISSIMO - Compensações

Você prefere a paz que só produz o relógio cuco 
ou a confusão que produz dois, três, muitos Leonardo da Vinci?

Perguntaram ao escritor sulista americano William Faulkner como ele explicava o florescimento literário havido no Sul dos Estados Unidos depois da Guerra Civil e sua resposta foi sucinta: “Nós perdemos.” A humilhação da derrota e o fim de um tipo de vida explicavam a literatura, que misturava nostalgia, decadência, romantismo sombrio e um certo preciosismo “faisandé”. O estilo perdurou até autores modernos como Truman Capote, Carson McCullers, Flannery O´Connor, Tennesse Williams e o próprio Faulkner, e ganhou um nome: “gótico sulista”. O Sul perdeu a guerra, mas criou um gênero.

Quando Homero disse (se é que disse mesmo, nada que se sabe de Homero é cem por cento certo, nem a sua existência) que as guerras aconteciam para serem cantadas pelos poetas, não queria dizer que a arte compensava tudo. Ou queria? Contam que um grupo de oficiais nazistas foi visitar o atelier do Picasso durante a ocupação de Paris e, vendo uma reprodução do seu quadro “Guernica”, a dramática recriação da destruição daquela pequena cidade pelos alemães na Guerra Civil espanhola, um deles comentou: “Ah, foi você que fez isso, não foi?” Ao que Picasso teria respondido: “Não, foram VOCÊS que fizeram isso.” 

Por um tortuoso raciocínio homérico se poderia concluir que os alemães foram coautores da pintura. Pelo mesmo raciocínio, louve-se a perseguição fascista na Europa pelo exílio de tantas mentes superiores e tanto talento na América, louve-se a escravatura pela nossa rica cultura negra e louve-se as agruras do nosso agreste pelos bons escritores e artistas nordestinos.

Tudo isto foi sintetizado naquela celebre fala que deram para o Orson Welles (há quem diga que a fala foi escrita pelo próprio Welles) no filme “O terceiro homem”, adaptado de um romance do Graham Greene. Para justificar seu mau caráter, Welles compara a conturbada história da Itália antes da unificação com a milenar placidez da Suíça. Enquanto a Itália, junto com conspiradores, corruptos e canalhas tinha produzido alguns dos maiores gênio da humanidade, a bem comportada Suíça só produzira o relógio cuco.


Mas a ideia de que arte compensa qualquer barbaridade é perigosa. Melhor dizer que os eventuais benefícios de crimes históricos não os absolvem. São efeitos acidentais, como certos queijos que descendem do leite estragado. 

E você, prefere a paz que só produz o relógio cuco ou a confusão que produz dois, três, muitos Leonardo da Vinci?

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