terça-feira, 3 de setembro de 2013

AS 10 PRINCIPAIS RAZÕES PARA PROFISSIONAIS ODIAREM SEUS TRABALHOS

Funcionários desmotivados podem custar caro para uma empresa. 
Veja como empregadores deveriam resolver cada problema

Um estudo recente da Dale Carnegie Training mostrou que quase três quartos dos trabalhadores não estão totalmente engajados em seus trabalhos. A falta de envolvimento pode ser um sinal de insatisfação com o trabalho — e funcionários desmotivados podem custar muito caro para uma empresa. Ilya Pozin, fundador da Ciplex, uma companhia de web design e marketing de Los Angeles, listou, em artigo para o LinkedIn, as 10 principais razões, em ordem decrescente, para que profissionais odeiem seu trabalho (e como empregadores poderiam resolver os problemas). Confira:

10. Eles pensam que “a grama do vizinho é mais verde que a sua”. Se os amigos do profissional estão tendo uma experiência incrível em outra empresa, por que ele não teria inveja? A transparência de benefícios para os funcionários em outras empresas, por vezes, podem levar funcionários a sonhar em trabalhar em outro lugar. Empresários devem ficar de olho no que as outras empresas estão fazendo e tentar se igualar onde for possível. Claro, nem sempre vai dar pra ficar em pé de igualdade com o Google, mas por que não tentar dar aos funcionários algo digno de se vangloriar?

9. Os valores dos profissionais não se alinham com os da empresa. A insatisfação será certa se os funcionários não acreditam na mesma coisa que a empresa. Se a companhia valoriza a criatividade e a colaboração, é fundamental fazer uma triagem baseada nesses valores no processo de contratação. Dar feedback regularmente também pode ajudar empresa e funcionários a ficarem em sintonia no que diz respeito às necessidades e valores do negócio.

8. Os profissionais não se sentem valorizados. Se a empresa não investe em fazer um "afago" nos seus funcionários, a felicidade deles ficará, por certo, afetada. Reconhecimento dá origem a lealdade. O que você, empresário, está fazendo para mostrar para seus funcionários que eles são valorizados membros da companhia? Isso não significa dar recompensas monetárias para cada realização - em vez disso, vale elogiar o trabalho regularmente e ocasionalmente lançar mão de uma recompensa por um desempenho incrível.

7. Insegurança no emprego. É fácil não gostar de seu trabalho quando você está preocupado se ainda terá o emprego daqui a alguns meses. Se a empresa está passando por tempos difíceis, busque ser transparente e trabalhe para manter o alto astral e o envolvimento de suas equipes. Ou os funcionários podem acabar deixando você por medo do futuro.

6. Não há espaço para desenvolvimento na carreira. Qual é a política da sua empresa para as promoções? Muitos funcionários acabam se sentindo desmotivados quando não há chance de avançar dentro de sua empresa. Sua empresa pode ser pequena, mas é importante para criar um plano para os funcionários crescerem com ela.

5. Eles estão insatisfeitos com o salário. Nada apaga mais a paixão que a sensação de receber menos que merece. Aumentar os salários dos funcionários pode ser algo fora da realidade em determinados momentos, mas o empresário deveria considerar perguntar a eles o que acham que deveria ser feito — a honestidade dos profissionais pode surpreendê-lo.

4. Há burocracia demais. As regras podem arruinar sua equipe. Nada é mais frustrante do que não ser capaz de tomar suas próprias decisões. Aumentar a autonomia dos empregados, dando-lhes espaço para atingir objetivos, é fundamental. Isto estabelece um nível saudável de confiança, produtividade e benefícios para a empresa como um todo.

3. Os funcionários não estão sendo desafiados. Seus funcionários estão numa busca constante de aprimorar suas habilidades através de seu trabalho. A empresa deve investir em descobrir se seus funcionários sentem que estão adquirindo bons conhecimentos. Se eles não estão se tornando melhores, certamente buscarão um lugar onde sentem que podem melhorar.

2. A paixão se foi. Há uma enorme diferença entre viver para o trabalho e trabalhar para viver. Seus funcionários amam o que fazem? O mercado de trabalho tem levado muitas pessoas a assumirem empregos que não amam. Concentre-se na contratação de funcionários completamente apaixonados e dê-lhes condições de manter sua paixão durante todo o seu tempo na empresa.


1. O chefe é um péssimo chefe. Má gestão pode arruinar até mesmo os funcionários mais apaixonados e bem remunerados. A empresa não pode deixar que uma péssima gestão e a falta de habilidades de liderança arruínem a unidade da sua força de trabalho. Você é autoritário? Crítico demais? É um mau comunicador? Se você tem empregados infelizes, a primeira coisa que você deve olhar é para seus hábitos de gestão. A próxima coisa a fazer é conversar com seus funcionários para investigar o problema.

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DICAS PARA LIDAR COM OS PROBLEMAS PESSOAIS NO TRABALHO

Profissional deve contar ao chefe e a colegas mais próximos que está passando por uma crise, 
sem entrar em muitos detalhes

— Conte para o chefe — Qualquer que seja a crise, vai exigir tempo e energia até ser solucionada. Isso, certamente irá ter um impacto no trabalho. Sendo assim, é sempre bom chamar o chefe para uma conversa e explicar o problema pelo qual está passando, sem entrar em muitos detalhes, aconselha Marjie Terry, da consultoria Great on The Job.

— Não compartilhe demais ou de menos — Quando sentir necessidade de compartilhar seus problemas, conte apenas os detalhes mais básicos. Quanto mais falar sobre suas vulnerabilidades, mais fica exposto a que sua conduta seja mal interpretada, pois as pessoas lidam de maneiras diferentes com crises pessoais. Evite falar de problemas financeiros e legais com os colegas de trabalho, assim como falar das dificuldades de um familiar com relação a uso de drogas, pois são questões ainda estigmatizadas pelos empregadores, lembra a professora de psicologia Ann Kaiser.

— Conte apenas o necessário — Limite-se a contar seus problemas pessoais somente aos colegas de trabalho com quem mantém maior vínculo de amizade ou de confiança. Segundo a especialista Deborah Shane, contar com uma equipe de apoio no trabalho é conveniente em tempos de crise, para o caso de você precisar se ausentar por algum tempo e necessite que alguém o substitua em alguma função. Mas é sempre bom tomar cuidado. Quando aos clientes, no geral, não é necessário comentar sua crise pessoal, a não ser que tenham uma relação estreita com ele.

— Seja positivo e controle as emoções — Mantenha o foco, tenha uma atitude positiva, controle suas emoções e aja da melhor forma que puder diariamente, aconselha Deborah. Se possível, tente se acalmar antes de conversar com os outros, em especial com seu chefe, afirma a técnica de carreiras Nancy Collamer.

— Tire um tempo de folga — O trabalho pode ser uma distração dos seus problemas pessoais, mas muitas vezes a crise é tão grande que não é possível focar no trabalho. Neste caso, o melhor é dar um tempo e tentar negociar alguns dias de folga com a chefia, afirma a consultora profissional Maggie Mistal. Se precisar se afastar da empresa, volte com foco e mantenha sua produtividade, pois são atitudes valorizadas pela empresa, afirma Caroline Pfeiffer, da LHH|DBM.

— Procure ajuda profissional — Use os serviços de ajuda da sua empresa ou procure por apoio externo. Procure saber quais os serviços de assessoramento, tratamento ou atendimento disponíveis na empresa e que podem ser úteis. Um aconselhamento profissional pode ser determinante na solução do problema e na sua recuperação.

— Conheça seus limites — Procure ser discreto. Converse sobre assuntos pessoais a portas fechadas ou procure programar as conversas sobre o seu problema fora do trabalho, na sua hora de almoço ou depois do expediente, a menos que seja uma urgência, aconselha Deborah Shane.

— Faça o seu trabalho — Embora não seja possível cumprir com seus horários por conta da sua crise pessoal, tente sempre fazer o melhor possível para cumprir com suas tarefas, sem sobrecarregar ninguém da equipe.

— Seja respeitoso — Saiba respeitar o tempo e a atenção de chefes e colegas. Tente se concentrar no trabalho durante o expediente e tente ser sensível o suficiente para não ultrapassar os limites quanto ao apoio recebido. Lembre-se de que, por mais dura que seja sua situação, todos têm problemas e desafios pessoais.

— Demonstre gratidão — Passada a crise, não esqueça de agradecer o apoio que recebeu. Não precisa ser um gesto grande, um pequeno cartão de agradecimento pode ser algo muito significativo.



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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

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Todo mundo sabe que, dos que se viciam em drogas,
 poucos conseguem largar o vício

Falando francamente, o que você prefere, a segurança ou a insegurança, o previsível ou o imprevisível? Em suma, quer acordar de manhã certo de que as coisas vão caminhar normalmente ou prefere estremecer ao pensar no que fará, neste dia, o seu filho drogado?

Acho muito difícil que alguém prefira viver no desespero, temendo o que pode ocorrer nesse dia que começa. Estou certo de que todo mundo quer viver tranquilo, certo de que as coisas vão transcorrer dentro do previsível.

Mas quem se droga comporta-se, inevitavelmente, fora do previsível, ou não é? Já imaginou a apreensão em que vivem os pais de um filho drogado? Começa que ele já não vai à escola e, se vai, arma sempre alguma encrenca por lá. Se já trabalha, abandona o emprego e começa a roubar o dinheiro da família para comprar drogas.

Se isso se torna inviável, entra para o tráfico, passa a vender drogas ou torna-se assaltante, porque tem de conseguir dinheiro para comprá-las, seja de que modo for. Daí a pouco, não apenas assalta e rouba como também mata. Os pais já não reconhecem nele o filho que criaram com tanto carinho. Pelo contrário, o temem, porque, drogado, ele é capaz de tudo.

E mesmo assim há quem seja a favor da liberação das drogas. Conheço muito bem o argumento que usam para justificá-la: como a repressão não acabou com o tráfico e o consumo, a liberação pode ser a solução do problema. Um argumento simplista, que não se sustenta, pois é o mesmo que propor o fim da repressão à criminalidade em geral. O argumento seria o mesmo: por que insistir em combater o crime, se isso se faz há séculos e não se acabou com ele?

Fora isso, pergunto: se não é proibida a venda de cigarros e bebidas, por que há tráfico dessas mercadorias? E pedras preciosas, é proibido vendê-las? Não e, no entanto, existe tráfico de pedras preciosas. E ainda assim os defensores da liberação das drogas acham que com isso acabariam com o problema. Claro, Fernandinho Beira-Mar certamente passaria a pagar imposto de renda, ISS, ICMS e tudo o mais. Esse pessoal parece estar de gozação.

Todo mundo sabe que, dos que se viciam em drogas, poucos conseguem largar o vício. E, se largam, é por entender que estavam sendo destruídos por ele, uma vez que perdem toda e qualquer capacidade de refletir e escolher; são verdadeiros robôs que a droga monitora.

Qual a saída, então? No meu modo de ver, a saída é uma campanha educativa, em larga escala, em âmbito nacional e internacional, para mostrar às crianças e aos adolescentes que as drogas só destroem as pessoas.

E isso não é difícil de demonstrar porque os exemplos estão aí aos milhares e à vista de quem quiser ver. Os traficantes sabem muito bem disso, tanto que hoje têm agentes dentro das escolas para aliciar meninos de oito, dez anos de idade.

Confesso que tenho dificuldade de entender a tese da descriminalização das drogas. Todas as semanas, a polícia apreende, nas estradas, em casas de subúrbio, em armazéns clandestinos, toneladas de maconha e de cocaína. É preciso muitos drogados para consumir essa quantidade de drogas.

Junto às drogas, apreendem, muitas vezes, verdadeiros arsenais de armas modernas de grosso calibre. É preciso muito dinheiro e muita gente envolvida para que o tráfico tenha alcançado tal amplitude e tal nível de eficiência. Como acreditar que tudo isso desaparecerá, de repente, bastando tornar a venda de drogas comércio legal? Sem falar nos novos tipos sofisticados de cocaína e maconha, que estão diversificando o mercado.

A verdade é que o tráfico existe e cresce porque cresce o número de pessoas que consomem drogas. Como se sabe, não pode haver produção e venda de mercadoria que ninguém compra. Se se reduzir o número de consumidores, o tráfico se reduzirá inevitavelmente. E a maneira de fazer isso é esclarecer os jovens do desastre que elas significam.

O resultado maior não será junto aos viciados crônicos, que tampouco devem ser abandonados à sua má sorte. Virá certamente do esclarecimento dos mais jovens, dos que ainda não foram cooptados pelo vício. A eles devem ser mostrado que as drogas destroem inevitavelmente os que a elas se entregam.


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CLAUDIA PENTEADO - Prometa-me uma vida longa

"Toda vida é uma missão secreta"  
(Clarice Lispector)

Difícil fugir do único assunto que vem povoando minha mente há vários dias, depois da morte de duas centenas de jovens numa fatalidade estúpida que, sabe-se, poderia ter sido evitada. 

Algumas tragédias podem sim, ser evitadas.  O episódio que aniquilou várias famílias me lembrou uma senhora que conheci recentemente em uma viagem, acompanhada da filha, do genro e do neto de uns 2 anos. Em um papo despretensioso sobre a vida, ela me confessou, orgulhosa: quando minha filha era adolescente a fiz prometer que jamais faria três coisas na vida – tatuagem, andar de avião pequeno ou helicóptero e nunca subir em uma moto. 

Aquele pacto vitalício me impressionou bastante, e fiquei pensando até que ponto nós temos o direito de interferir dessa maneira na vida dos nossos filhos, tolindo-os em nome da nossa própria felicidade e para nos poupar de decepções e tristezas.  A suposta segurança que lhes impomos garantirá que, por mais que eles tenham uma vida longa, sejam felizes?

Eu que tenho uma filha de 10 anos fiquei pensando: que lista imensa de coisas eu seria capaz de pedir a ela que jamais fizesse,  em nome de me sentir mais segura de que sua vida será mais longa, uma vez eliminados uma boa parte dos perigos que a põe em risco? Andar de moto, de helicóptero, de avião pequeno, evitar boates que não tenham alvará de incêndio em dia, não usar drogas, não pular de para-quedas, não andar de asa delta, não praticar escalada, jamais entrar em um carro de corrida, não andar a cavalo, não andar de barco…a lista é interminável. 

Que espécie de pacto seria esse, para garantir que nada de mal lhe acontecerá – em nome da minha tranquilidade? Eliminando-se umas 20 coisas explicitamente perigosas, minhas chances de envelhecer e morrer antes dela, como deve ser, aumentam?

Conversei sobre esse assunto com minha pequena grande menina de 10 anos, na base da brincadeira, e ela achou pertinentes algumas das possíveis reivindicações da mãe protetora. De outras, ela riu, claro: ah, mãe, não andar de moto? Risos. Bom, de barco eu não gosto mesmo de andar. Andar de avião pequeno e de helicóptero não curto mesmo, acho que posso prometer.
Mas o fato é que nessa vida temos que ajudar nossos filhotes a aprender a voar e deixá-los ir, cruzando os dedos para que dê tudo certo. Como diz o poeta Lulu Santos, tolice é viver a vida sem aventura. Que se divirtam no caminho, que sejam felizes, que tenham liberdade para cumprir seus próprios destinos, enquanto seguimos com os nossos, nesse interminável “andar do bêbado”, onde o acaso domina a cena mais do que gostaríamos.

Por sinal, o livro com esse mesmo título (Andar do bêbado, de Leonard Mlodinow) aborda exatamente os fatores aleatórios que transformam nossas vidas e que não dependem, necessariamente, de grande habilidade ou competência, mas de “circunstâncias fortuitas”. Lidar com elas, infelizmente, não tem receita.


Não há mesmo consolo para a dor de uma perda. Mas sempre haverá algum alento se fizemos a nossa parte, dando amor e proteção sim, mas permitindo que a eles liberdade de escolha, dentro dos limites normais das relações entre pais e filhos. Esse amor é o que realmente funda uma base emocional e “protege”, dando melhor  preparo para tomar decisões acertadas e reagir diante do desconhecido, de eventos aleatórios, das causalidades. 

Mais do que as grandes decisões – uma profissão, um casamento -, são muitas vezes as aparentemente pequenas escolhas diárias que fazem toda a diferença, como não sair de casa num dia de muita chuva, não pegar carona com alguém que bebeu, não experimentar drogas, não entrar em diversas furadas. 

No mundo das redes sociais e das comunidades, dizer não tornou-se, afinal de contas, cada vez mais difícil. Alguém com segurança emocional é capaz de fazer escolhas melhores – embora naturalmente não esteja livre das roubadas, como todos nós.

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JOÃO UBALDO RIBEIRO - Formigas na rapadura

Acho que todo mundo lembra o que disse num discurso o presidente Kennedy: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país.” Eu estava lendo os jornais e aí me ocorreu, como já deve ter ocorrido a muitos de vocês, que nossa prática política se orienta por uma atitude oposta a essa exortação. Ou seja, queremos saber o que o Brasil pode fazer por nós, mas não alimentamos muita curiosidade sobre o que podemos fazer pelo Brasil. Isso se expressa no comportamento de nossos governantes, que não disputam nada pensando no país, mas em abocanhar ou manter o poder, aqui tão hipertrofiado, abarrotado de privilégios e odiosamente infenso ao controle dos governados.

Para que mais, a não ser desfrutar desses privilégios, não se sabe, porque não existe projeto, além da cantilena sobre justiça social, saúde para todos, educação de qualidade e outras generalidades com as quais todos concordam. Que modelo de estrutura socioeconômica queremos, que Estado queremos, que país queremos, como chegaremos lá? Que propostas concretas são oferecidas? Ninguém diz — e os programas partidários, como os próprios partidos, causam constrangimento, pela ausência de ideias e compromissos sérios. O negócio é se eleger e se abancar, depois se vê o que se pode fazer, conforme a necessidade e a serventia para a permanência no poder. Na pátria, como se falava antigamente, ninguém se mostra muito interessado.

Tudo o que se faz hoje é visando às eleições, ou seja, a continuação no poder ou ascensão a ele. Descobriram agora essa lambança das concorrências em São Paulo, que não é propriamente inédita na história nacional, e grande parte da reação parece do tipo “viu, viu? nós rouba, mas cês também rouba!” Todo mundo na vida pública rouba, o que pode não ser uma afirmação justa, mas já virou axioma na descrição de nossa realidade e um dado importante em qualquer equação política. Invoca-se o princípio da falcatrua consuetudinária. Ou seja, se é ilegal, mas costumeiro, prevalece o costume e é considerado sacanagem e falta de coleguismo fazer denúncias ou querer punições. Que outras novidades têm para nos segredar? Quem não aposta que nada vai dar em nada?

O Estado às vezes parece ter as pernas bambas. Recomeçou o dramalhão do julgamento do mensalão e muita gente não entende mais nada, a começar por esse singular minueto processual, através do qual o Supremo Tribunal Federal vira penúltima instância, dia sim, dia não. Todo mundo quer saber se as sentenças emanadas do Supremo eram à vera ou não eram, devia ser simples de responder. Essa novela vai por aí, se arrastando já há não se sabe quanto tempo, todo dia aparece uma notícia inesperada e creio que nenhum de nós se surpreenderá se, esta semana, for noticiado que a decisão final do Supremo estará condicionada à resposta a uma consulta feita pela Câmara de Deputados, ou coisa assim, o que, com a gripe que atacou um ministro, o impedimento de outro, e o atraso de outro, leva o caso, para que tenhamos certeza de uma decisão justa, para depois do recesso do Judiciário, no próximo ano.

Vimos também a cena envaidecedora em que nosso ministro das Relações Exteriores se manifestou, conforme ouvi num noticiário, “com dureza”, sobre a espionagem cibernética americana, numa fala dirigida em pessoa ao secretário de Estado John Kerry. Disse umas verdades na cara do gringo, que o escutou com atenção, cortesia e respeito, para logo após retrucar que nos devotava desmesurado amor e descomedida amizade, mas continuaria a espionar e, acreditássemos, era para o nosso próprio bem. Se não gostarmos, claro, temos todo o direito de nos queixar ao bispo, ele compreende.

Esse mesmo ministério, aliás, deve estar às voltas com o perdão de dívidas milionárias que alguns países africanos têm com o Brasil. Comenta-se que isso é por causa do esquerdismo do atual governo, notadamente em sua política externa. Comenta-se também que o perdão dessas dívidas possibilita que os governos beneficiados fechem novos contratos com empreiteiras brasileiras. É o que dá o envolvimento com setores notoriamente de esquerda, como nossas empreiteiras, essa linha avançada do socialismo. Há apenas um ligeiro embaraço na coisa, pois se sabe que as empreiteiras, com toda a certeza, vão receber o dela, mas os financiadores, ou seja, nós, vamos contribuir mais uma vez para os crimes e as contas bancárias de déspotas, genocidas e saqueadores de riquezas nacionais

No cada vez mais fugidio setor de grandes realizações, a complexa coreografia governamental se tem exibido em torno do trem-bala, que o pessoal lá do boteco deu para chamar “trem-bala perdida”. O trem-bala é um exemplo notável de aumento de custos recordista, talvez sem precedentes em todo o mundo, porque já perdemos a conta de quantas vezes esses custos foram revisados para cima. E agora li não sei onde, maravilhado com os nossos mecanismos de distribuição de renda, que, mesmo que se venha a desistir do trem-bala, o custo dele já terá sido mais ou menos um bilhão de reais. Não entendi direito, mas não se pode deixar de manifestar admiração.


Diante dessa sarabanda agitada e da luta para não largar o osso, lembro-me de quando eu era menino em Itaparica, punha um pedaço de rapadura no chão e ficava esperando formigas brotarem do nada, várias espécies que só tinham em comum gostar de açúcar. Umas ruças, grandalhonas, eram minhas favoritas, porque ficavam frenéticas e não paravam um segundo, para lá e para cá, em cima da rapadura, apesar de que, volta e meia, uma parecia se saciar e caía imóvel — dura para trás, dir-se-ia. Eu não sabia, mas estava vendo o Brasil, só que as formigas não se saciam e quem cai para trás somos nós.


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domingo, 1 de setembro de 2013

CONTARDO CALLIGARIS - A inveja dos outros

Na cultura do Facebook, o valor social de cada um 
se confunde com a inveja que ele suscita

Anos atrás, decidi que, salvo necessidade absoluta, em voo internacional, eu não viajaria mais de classe econômica. Quando não posso pagar pela executiva, é simples: não viajo.

A passagem de executiva dá direito ao uso de uma sala de espera confortável, que no Brasil é chamada de sala VIP (sigla de "very important person", pessoa muito importante). Há um quê de idiota na ideia de que alguém se torne importante por pagar uma passagem mais cara que os outros.

Mas o que me interessa agora é o fato de que os passageiros de classe executiva, confortavelmente instalados na sala VIP, poderiam esperar até o fim do embarque da classe econômica; aí eles iriam ao portão já esvaziado e subiriam no avião.

Não é o que acontece. Convidados a embarcar antes dos outros, eles entram no avião sob o olhar dos passageiros de classe econômica e ocupam seus assentos espaçosos, situados na parte da frente da aeronave, de forma que os passageiros de econômica, a caminho de suas poltronas-suplício, são obrigados a contemplar o privilégio dos que já estão instalados na executiva.

Por que essa irracionalidade? É que o passageiro de executiva não compra apenas um tratamento mais humano e um espaço compatível com as formas médias de um corpo: ele compra também a experiência (desejável, aparentemente) de ser objeto da inveja dos outros.

Numa recente viagem à Europa, eu já estava instalado na executiva, tomando suco e lendo um livro quando uma senhora chinesa, a caminho de seu lugar na econômica, passou do meu lado e espirrou molhada e barulhentamente em cima da minha cabeça. Por sorte, não era época de gripe aviária. Mas é isto: a inveja é uma mistura de idealização, amor e ódio.

Circulando de madrugada, passo pela entrada de uma balada. Há uma longa fila de espera, há seguranças imponentes e há uma "hostess" que escolhe quem pode entrar. Em Nova York, entram até desconhecidos, se forem bizarros, interessantes e decorativos. Em São Paulo, parece que a lista de clientes VIPs é soberana. Os outros esperam noite adentro, tentando ganhar a simpatia da "hostess". Vale a pena? O que acontecerá se eles forem admitidos? Pois é, será uma noite sensacional: eles tirarão fotos que postarão no Facebook e no Instagram.

Em geral, com as fotos, eles esperam receber a mesma inveja que eles destinam aos VIPs: por isso, exibirão poses parecidas com o que eles imaginam que os VIPs (os que entraram na balada há tempos) fazem quando se divertem (loucamente).

E o que fazem os VIPs? Pois é, essa é a parte mais estranha: os VIPs imitam as poses dos que os invejam e imitam, pois, eles constatam, essas são as poses que mais suscitam inveja.

De fato, na balada, muitos, VIPs e mortais comuns, apenas esperam a ressaca de amanhã. Mas, no círculo vicioso da inveja, a experiência efetiva é irrelevante; não é com tal ou tal outra vida e história concretas que se sonha: sonha-se ser o que os outros sonham.

A inveja é, por assim dizer, uma emoção abstrata: o privilégio não precisa dar acesso a uma fruição especial da vida (sensual ou espiritual, tanto faz), ele só precisa suscitar inveja. Ou seja, privilégio não é o que faço ou o que acontece de extraordinário em minha vida, mas o olhar invejoso dos outros.

Nesse mundo, em que a inveja é um regulador social, as aparências são decisivas porque elas comandam a inveja dos outros. Por exemplo, o que conta não é "ser feliz", mas parecer invejavelmente feliz.

Nesse mundo, o ter é mais importante do que o ser apenas porque, à diferença do ser, o ter pode ser mostrado facilmente. É simples mostrar o brilho de roupas e bugiganga aos olhos dos invejosos. Complicado seria lhes mostrar vestígios de vida interior e pedir que nos invejem por isso.

O Facebook é o instrumento perfeito para um mundo em que a inveja é um regulador social. Nele, quase todos mentem, mas circula uma verdade de nossa cultura: o valor social de cada um se confunde com a inveja que ele consegue suscitar.

Comecei a escrever essa coluna depois de assistir a "Bling Ring: A Gangue de Hollywood", de Sofia Coppola (uma tradução por "Bling Ring" seria "A Turma do Deslumbre"). A não ser que outro tema se imponha com força, voltarei a falar sobre o filme. Mas digo já: saí do cinema muito feliz por não ter levado nenhum adolescente comigo (respeitando a indicação para acima de 16 anos).

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