segunda-feira, 21 de maio de 2012

MARTHA MEDEIROS - Não canse quem te quer bem

Uns mais, outros menos, todos passam dos limites 
na arte de encher os tubos.

Foi durante o programa Saia Justa que a atriz Camila Morgado, discutindo sobre a chatice dos outros (e a nossa própria), lançou a frase: Não canse quem te quer bem. Diz ela que ouviu isso em algum lugar, mas enquanto não consegue lembrar a fonte, dou a ela a posse provisória desse achado.

Não canse quem te quer bem. Ah, se conseguíssemos manter sob controle nosso ímpeto de apoquentar. Mas não. Uns mais, outros menos, todos passam do limite na arte de encher os tubos. Ou contando uma história que não acaba nunca, ou pior: contando uma história que não acaba nunca cujos protagonistas ninguém ouviu falar. Deveria ser crime inafiançável ficar contando longos causos sobre gente que não conhecemos e por quem não temos o menor interesse. Se for história de doença, então, cadeira elétrica.

Não canse quem te quer bem. Evite repetir sempre a mesma queixa. Desabafar com amigos, ok. Pedir conselho, ok também, é uma demonstração de carinho e confiança. Agora, ficar anos alugando os ouvidos alheios com as mesmas reclamações, dá licença. Troque o disco. Seus amigos gostam tanto de você, merecem saber que você é capaz de diversificar suas lamúrias.

Não canse quem te quer bem. Garçons foram treinados para te querer bem. Então não peça para trocar todos os ingredientes do risoto que você solicitou – escolha uma pizza e fim.

Seu namorado te quer muito bem. Não o obrigue a esperar pelos 20 vestidos que você vai experimentar antes de sair – pense antes no que vai usar. E discutir a relação, só uma vez por ano, se não houver outra saída.

Sua namorada também te quer muito bem. Não a amole pedindo para ela posar para 297 fotos no fim de semana em Gramado. Todo mundo já sabe como é Gramado. Tirem duas, como lembrança, e aproveitem o resto do tempo.

Não canse quem te quer bem. Não peça dinheiro emprestado pra quem vai ficar constrangido em negar. Não exija uma dedicatória especial só porque você é parente do autor do livro. E não exagere ao mostrar fotografias. Se o local que você visitou é realmente incrível, mostre três, quatro no máximo. Na verdade, fotografia a gente só mostra pra mãe e para aqueles que também aparecem na foto.

Não canse quem te quer bem. Não faça seus filhos demonstrarem dotes artísticos (cantar, dançar, tocar violão) na frente das visitas. Por amor a eles e pelas visitas.

Implicâncias quase sempre são demonstrações de afeto. Você não implica com quem te esnoba, apenas com quem possui laços fraternos. Se um amigo é barrigudo, será sobre a barriga dele que faremos piada. Se temos uma amiga que sempre chega atrasada, o atraso dela será brindado com sarcasmo. Se nosso filho é cabeludo, “quando é que tu vai cortar esse cabelo, guri?” será a pergunta que faremos de segunda a domingo. Implicar é uma maneira de confirmar a intimidade. Mas os íntimos poderiam se elogiar, pra variar.

Não canse quem te quer bem. Se não consegue resistir a dar uma chateada, seja mala com pessoas que não te conhecem. Só esses poderão se afastar, cortar o assunto, te dar um chega pra lá. Quem te quer bem vai te ouvir até o fim e ainda vai fazer de conta que está se divertindo. Coitado. Prive-o desse infortúnio. Ele não tem culpa de gostar de você.


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DRAUZIO VARELLA - Sono, obesidade e diabetes

Inquéritos epidemiológicos avaliaram os efeitos deletérios que a privação crônica de sono exerce.

Vivemos numa cultura que tem orgulho de dormir pouco. Pessoas que dormem nove horas por dia são consideradas preguiçosas, enquanto admiramos as que em cinco ou seis já pularam da cama.

Nos 5 milhões de anos que nos precederam, nossa espécie viveu num mundo sem luz elétrica, em que a rotina de sono e vigília era organizada em conformidade com a alternância dos dias e das noites.

A claridade que chegava às células fotossensíveis da retina ao raiar do sol estimulava as áreas cerebrais responsáveis pelo controle da divisão celular, da produção dos hormônios e das proteínas envolvidas nas reações metabólicas necessárias para enfrentar a luta diária.

Ao contrário, a chegada da noite alterava o metabolismo de forma a sintetizar novas proteínas e hormônios, neurotransmissores, melatonina e outros mediadores para nos tornar mais contemplativos, com a musculatura mais relaxada e predispostos a achar um canto na caverna para entrarmos em modo de hibernação.

Na evolução, em respeito a essa ordem natural, o conjunto das reações bioquímicas responsáveis pelo metabolismo dos animais -e também das plantas, fungos e bactérias- organizou-se em ciclos diários com duração aproximada de 24 horas, característica que na década de 1950 recebeu o nome de ritmo circadiano (do latim: "circa diem", cerca de um dia).

Embora os ciclos circadianos sejam controlados por mecanismos endógenos autoajustáveis, independentes da consciência, fatores externos podem interferir na sua duração. Entre eles, o mais importante é a luz do sol ou de fontes artificiais, especialmente as que emitem a banda azul do espectro luminoso.
Seres humanos mantidos em penumbra silenciosa durante 28 horas não resistem em vigília. A interferência com a duração dos dias e das noites que subverte a alternância da exposição à claridade e à escuridão é a causa do fenômeno conhecido como jet lag.

Inquéritos epidemiológicos realizados nos últimos 20 anos avaliaram os efeitos deletérios que a privação crônica de sono exerce sobre a saúde humana. Alguns deles levantaram a suspeita de que dormir pouco encurtaria a longevidade.

Em 2010, um estudo realizado no Women's Hospital, em Boston, revelou que homens jovens mantidos em regime de privação de sono por apenas uma semana desenvolvem resistência à insulina, condição que leva ao aumento da concentração de glicose no sangue, característica do diabetes. Os autores desse estudo acabam de atualizá-lo em uma publicação na revista "Science Translational Medicine".

Durante seis semanas, mantiveram 21 participantes numa das suítes que o hospital transformou em laboratório de estudo do sono. Todos foram mantidos num regime que lhes permitia dormir apenas cinco, seis horas, a cada período de 24.

O horário de ir para cama mudava todos os dias. Para interferir com o ritmo circadiano, os quartos não tinham janelas, e os ciclos de luz e escuro foram programados para durar 28 horas, em vez das 24 habituais.
Com o objetivo de prevenir que o ritmo circadiano se reajustasse por conta própria, a iluminação era mantida em níveis equivalentes ao do entardecer. Não foi permitido acesso a TV, rádio ou internet.

Amostras de sangue colhidas em jejum acusaram concentrações mais baixas de insulina, associadas ao aumento das taxas de glicose, em todos os participantes. Em três deles, a glicemia atingiu a faixa que vai de cem a 120, rotulada de pré-diabetes.

A energia gasta em repouso (que quantifica quantas calorias consome o corpo parado) caiu em média 8%. Se esse nível de consumo energético mais econômico fosse mantido por um ano, causaria um aumento do peso corpóreo de quase seis quilos.

Depois de um período de dez dias de recuperação, em que os participantes permaneceram no laboratório, porém mantidos em ciclos de claro e escuro com duração de 24 horas, mas dormindo dez horas durante a noite, a secreção de insulina e os níveis de açúcar na circulação voltaram aos valores normais.
Para aqueles que o trabalho obriga a passar meses ou anos em ciclos de dia e noite irregulares, essas alterações seriam igualmente reversíveis?

Você consegue, leitor, dormir e acordar todos os dias na mesma hora? Eu, não.

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JOÃO UBALDO RIBEIRO - A mulher, a ciência e o coco

Sim, cativante leitora, gentil leitor, fiquei devendo algumas explicações, depois da deplorável barafunda de assuntos com que os tenho vitimado, nos últimos domingos. Mas, apesar de tudo, creio que acabei esclarecendo mais ou menos a questão da gordura do coco e discorrendo um pouco sobre a inconstância do que nos apresentam como perenes e irretorquíveis verdades científicas. Não cheguei, contudo, a dizer direito o que via nisso de relevante para as mulheres. Hoje essa grave lacuna, como é destino de todas as lacunas, será preenchida.

No domingo passado, escrevi que havia novidades científicas para as mulheres, relacionadas com o coco. Disse também que não sabia se era caso de as mulheres desconfiarem de mais esse achado científico. De minha parte, creio que sim - e não somente porque os achados vivem se contradizendo, mas porque minhas contemporâneas sofreram bastante, por causa da verdade científica. A maioria das queridas leitoras, todas na flor da idade, talvez não possa recordar o tempo em que a gente se referia às mulheres, a sério, como "o sexo frágil" ou "o belo sexo" e as considerava umas instintivas mais ou menos destituídas de real inteligência. Claro que essa maneira de ver se originava na ciência vigente. Sem achar que estavam ofendendo ninguém, os homens e muitas mulheres repetiam uma porção de besteiras sobre as mulheres, nenhuma delas abertamente desmentidas pela ciência e algumas até confirmadas.

As besteiras se estendiam sobre todas as áreas, inclusive aquela em que o óleo de coco está ganhando destaque, ou seja a tensão pré-menstrual. Pois é, a cada dia aparece uma matéria em algum jornal ou noticiário, anunciando essa maravilha. Desconheço a posologia e não estou receitando nada, mas li que, num porcentual altíssimo, as mulheres que sofrem de TPM ficam curadas ingerindo óleo de coco diariamente, do qual já existem não sei quantas marcas em circulação. Espero que as sofredoras fiquem boas mesmo, mas, como disse domingo passado, tenho algumas lembranças do progresso da ciência e do conhecimento comum sobre a questão, que talvez devam ser ponderadas.
No começo, não havia menstruação. Ou seja, não se falava nisso na presença de homem algum, a não ser o médico, a cujos consultórios as mulheres só iam acompanhadas. Geralmente eram os homens que tinham irmãs que começavam a revelar aos outros a existência desse estranho fenômeno, encarado por muitos com ceticismo. Os mais sofisticados pegavam anúncios de Modess na revista O Cruzeiro, em que apareciam misteriosas mensagens cifradas, dirigidas às mulheres e mencionando "as antiquadas toalhinhas". Mas não se mostrava nem a toalhinha, nem o secretíssimo produto anunciado. Havia grandes discussões masculinas sobre o que seriam as antiquadas toalhinhas e até hoje não faço delas uma ideia clara. Neném, um amigo de infância, certa vez abriu um pacote de Modess para ver como era e o descreveu como "um travesseiro de gato", o que não contribuiu muito para o entendimento. E a moça não ficava menstruada, ficava "incomodada", ou até "doente".

O conhecimento comum e o conhecimento científico sobre o assunto, tanto quanto eu saiba, diferiam apenas na terminologia. Em Itaparica, não se usava a expressão na presença de alguém do sexo oposto, mas a menstruação era designada como "boi", em falas como "acho que o boi dela chegou, você precisa ver como o feijão está salgado e mal catado", "ele disse que vai casar com ela e eu retruquei que não tinha nada contra, só fiz lembrar que a família dela tem os bois mais brabos da ilha e ele que se precate, porque vai tomar porrada todo mês". Quando eu era menino e ficava na quitanda de Bambano para ouvir as conversas dos adultos, a finada Lindaura, de finado Cartésio (nomes mudados por uma questão de discrição), às vezes passava batendo os tamancos e assoprando forte e Bambano comentava que "compadre Cartésio hoje vai se ver, espere só ela abrir a cancela e soltar esse boi". E de fato, quando sentia que o boi de Lindaura estava perto, Cartésio sempre arranjava uma viagenzinha de negócios a Salinas e ficava por lá até ele acalmar.

Era mais ou menos o que a ciência dizia, com outras palavras. Questão de personalidade da vítima de bois brabos, histeria. Quando a infeliz se queixava de cólicas que a deixavam rolando na cama, o médico, como eu vi acontecer, só faltava dar uma risadinha de condescendência para com o eterno feminino (sim, havia também o eterno feminino) e explicava que as cólicas eram psicológicas. "Está tudo em sua cabecinha", dizia o médico a uma paciente que evidentemente não tinha dor nenhuma na cabeça, mas na barriga mesmo.

Agora, ao que parece, as cólicas não são mais psicológicas e a ciência reconhece a existência da TPM. Segundo me contam, entidades científicas questionam essa existência, mas outras não só a aceitam, como ainda acharam algo pior, chamado Transtorno Disfórico Pré-Menstrual. Pela descrição, a mulher nas vascas do TDPM é capaz de metralhar a vizinhança ou jogar o gato no liquidificador. Óleo de coco nela, atual palavra de ordem. Como eu disse antes, espero que dê certo mesmo e, a julgar pelo material que me mandaram depois que falei nele, deveremos entrar em breve na Era do Coco. Aliás, lá na ilha já entramos, com resultados ainda duvidosos, o que dá pra rir dá pra chorar e até cheiro bom tem sua hora. Um toureiro (marido ou amancebado com mulher de boi brabo) lá do Bar de Espanha se ofereceu para um teste e, de fato, o boi da sua dele santa esposa amansou muito, depois que ela passou a tomar leite de coco várias vezes por dia.

- Mas eu suspendi o tratamento - disse ele. - Muito antes um boi brabo do que o sujeito ir deitar e achar que está dormindo com uma moqueca.


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A GENÉTICA DO VÍCIO - Universidade de Cambridge

Depois de investigar o comportamento e o cérebro de irmãos - um dependente químico e o outro não -, cientistas de Cambridge acham indícios de que tendência a abusar das drogas é hereditária.

Há tempos, os cientistas sabem que o cérebro de dependentes químicos tem características diferentes, comparando-o ao de indivíduos saudáveis. Até agora, porém, eles não conseguiam dizer se as alterações são causa ou consequência do problema. Um estudo publicado na edição de Maio/2012 da revista Science começa a matar a charada, melhorando o entendimento que se tem a respeito do vício e abrindo perspectivas para tratamentos mais eficazes.

"Estudos mostram que nem todo mundo que experimenta cocaína, por exemplo, torna-se dependente. Estima-se que menos de 20% daqueles que usaram a droga alguma vez na vida estarão viciados 10 anos depois", explica Karen D. Ersche, pesquisadora do Instituto de Neurociência e Comportamento da Universidade de Cambridge, uma das autoras do artigo. "Mas o índice de dependência aumenta nos casos de pessoas que têm histórico familiar. Em outras palavras, parece que existe um componente genético, mas sabemos muito pouco sobre isso, principalmente se o risco seria hereditário", comenta.

Por isso, na pesquisa, os cientistas resolveram comparar a estrutura cerebral e a habilidade de autocontrole entre irmãos. "Em cada um dos 50 pares de voluntários, havia um indivíduo saudável e outro dependente químico", conta Karen. Além de investigar o cérebro de filhos dos mesmos pais biológicos, os pesquisadores fizeram o paralelo com um grupo de pessoas que não usavam substâncias químicas (exceto tabaco) e não tinham histórico de vícios na família.

Os resultados cognitivos e de imagem revelaram que as alterações já identificadas previamente no cérebro de toxicômanos também são observadas nos irmãos, ainda que esses jamais tenham se aproximado de drogas nem se sintam tentados por bebidas. Para Edward T. Bullmore, pesquisador do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Cambridge, esse é um forte indício de que o risco de se tornar dependente químico está associado à hereditariedade. "A identificação de marcadores comportamentais e de padrões cerebrais demonstram que a predisposição de um indivíduo se viciar em drogas estimulantes pode estar ligada a anomalias no cérebro", afirma.

Ele, porém, diz que o resultado deve ser analisado com cautela, já que, embora os diferentes padrões cerebrais tenham sido detectados nos irmãos sem histórico de vício, esses fatores não devem ser tomados como únicos. "O próximo passo da pesquisa será investigar como esses irmãos que têm as anomalias associadas ao risco não desenvolvem o vício. Isso será muito útil para bolar estratégias que previnam as pessoas da dependência", observa.

Impulso Para entender o estudo, Karen Ersche esclarece que a literatura científica relata problemas de autocontrole em indivíduos com riscos de se tornarem dependentes. "Isso pode refletir uma habilidade menor na ativação das redes neurais pré-frontais que regulam o comportamento", diz. As drogas estimulantes reforçam esse padrão, pois afetam diretamente a região cerebral associada à motivação, como o gânglio basal e o sistema límbico, além de modular sistemas de controle localizados no córtex pré-frontal. "Um mal funcionamento nesses circuitos pode aumentar a suscetibilidade do indivíduo, facilitando a dependência de drogas", diz.

No estudo, os pesquisadores fizeram um teste no qual avaliaram o controle inibitório de comportamento dos participantes: eles mediam o tempo que cada um levava para deixar de executar determinada tarefa diante de um sinal preestabelecido. Por exemplo, na frente de um computador, eles deviam apertar o botão à esquerda se no monitor aparecesse uma seta virada à esquerda, ou o botão à direita, se a seta estivesse à direita. A um sinal sonoro, porém, tinham de parar com a brincadeira, mesmo que as imagens das setas continuassem a passar na tela.

"Esse é um teste bastante corriqueiro quando queremos avaliar como as pessoas lidam com seus impulsos", diz Karen. Enquanto os indivíduos do grupo de controle (sem histórico de vício na família) conseguiam parar de apertar os botões quando ouviam sinais, os dependentes químicos e seus irmãos tinham dificuldades para deixar de executar a tarefa. "Não houve diferenças no desempenho entre irmãos, entretanto. Mesmo em relação aos que nunca foram toxicômanos", conta a neurologista.

Os pesquisadores, então, passaram à fase de exames por imagem. "O cérebro é o melhor lugar para investigar o vício, já que sabemos que o órgão de pessoas que usam drogas pesadas tem uma estrutura diferente", justifica Edward T. Bullmore. O que a ressonância funcional magnética revelou é que não apenas um, mas vários circuitos cerebrais, são diferentes, comparando-se toxicômanos e seus irmãos com as duplas de voluntários não dependentes (veja infografia). "Em especial, a região do lobo frontal inferior é menos ativada nos primeiros. Isso está relacionado diretamente à baixa capacidade de autocontrole, o que tem importantes implicações clínicas", observa Karen D. Ersche.

Sutis Por causa das alterações cerebrais, além de mais vulneráveis à impulsividade, os voluntários têm risco maior de se comportar de maneira inflexível. Eles também secretam menos dopamina, substância relacionada ao bem-estar, e têm mais dificuldades de se adaptar a novas situações. Ao mesmo tempo em que as imagens revelaram que dependentes químicos e seus irmãos compartilham esses problemas, porém, elas também mostram que as alterações no cérebro do irmão não toxicômano são mais sutis.

Além de se concentrar nas pequenas diferenças anatômicas e fisiológicas nas duplas de irmãos, a cientista acredita que os pesquisadores precisam avaliar o que chama de "fatores protetivos": o que influenciou uma pessoa com histórico familiar de dependência química a não se viciar em drogas, mesmo que seu cérebro seja diferente. "Entre esses fatores, podemos citar uma atitude positiva em relação à vida e determinação para enfrentar e lidar com frustrações. Pode estar aí a resposta de por que, mesmo com forte componente genético e hereditário, algumas pessoas apelam para drogas e outras se mantêm sóbrias", afirma a neurocientista.
Paloma Oliveto

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LUIZ FERNANDO VERISSIMO - O que move a História

Os pais de Adolph Hitler teriam sido aconselhados a levar o menino para uma consulta com um médico que estava revolucionando o tratamento de distúrbios mentais, em Viena. Mas decidiram que o que o Adolphinho fazia com insetos era normal para a idade dele e não procuraram o Dr. Freud. O resultado foi o que se viu.

Karl Kraus escreveu que a Viena do começo do século 20 era o campo de provas da destruição do mundo. A derrocada do império Austro-Húngaro foi o fim de um certo mundo, mas acho que Kraus quis dizer mais do que isto. Para ele, as revoluções do pensamento postas em movimento na Viena da sua época trariam o fim do longo dia do humanismo europeu que durara desde a Renascença, e o novo século restauraria a idade das trevas.

O encontro que não houve entre o intelectual judeu que radicalizou o estudo da consciência e o homem que quis eliminar as duas coisas, o judeu e a consciência, da História simboliza este prenúncio, ou esta intuição de Kraus, sobre o século. Seria fatalmente o século do desencontro entre as duas formas de modernidade, a que liberava o pensamento pela investigação científica e a que o aprisionava pelo mito do estado científico.

A questão é até onde coisas vagas como o clima intelectual de uma cidade, ou clínicas como a maluquice de alguém, influenciam a História, ou até que ponto uma boa terapia pediátrica teria evitado o Holocausto. A História teria sido diferente sem Hitler, ou com um Hitler no poder mas tratado por Freud? A ideia do nazismo como uma anomalia patológica, como coisa de loucos, é uma ficção conveniente que absolve boa parte da direita cristã europeia da sua cumplicidade.

Mas a ideia de um determinismo neutro, independente de qualquer escolha moral, também é assustadora. Precisamos de vilões mais do que de heróis, de culpados muito mais do que de inocentes. Nem que seja só para preservar o autorrespeito da espécie.

O materialismo histórico rejeita a ideia de sujeitos regendo a História e marxistas ortodoxos reagem a qualquer sugestão de que as ideias justas venham de um discernimento moral inato. Assim a História como um relato de mocinhos providenciais em guerra com bandidos doentes sobra para a literatura, ou essa categoria de ficção sentimental que é a História convencional.

Pois gostamos de pensar que é a iniciativa humana que move a História, e que o seu objetivo, mesmo que tarde, seja moral e justo, e que ela tenha uma cara e uma biografia.
 
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MARINA COLASANTI - O estojo de um segredo

Ela chega à cidade estranha. Hotel, ficha, a chave que continua chamando chave mas é cartão, o quarto, diferente e ainda assim igual a tantos outros quartos de tantos outros hotéis. Não liga a televisão, é amiga do silêncio. Senta-se na cama, confere o relógio. Dispõe ainda de algum tempo. Deita-se. Sente nojo daquela colcha coletiva. Levanta-se, vai à janela.

Prédios altos, prédios baixos, sobrados. Abaixo, nas ruas, fervilha um comércio sem luxo. O peitoril da janela ainda está morno de sol, o olhar dela busca entre janelas e telhados uma razão para olhar, desliza lento, e para em um terraço.

Nem bem terraço. Topo de um prédio de seis andares, maltratado, de muitos pequenos apartamentos. Ela pensa “terraço” porque tem muretas altas e piso em lajes de cimento. Vê um tanque de lavar roupa a um canto, debaixo de um telhadinho, e uma porta, certamente acesso à escada. Tudo cinza.

Súbito, oculto que estava ao olhar pela mureta, emerge daquele cinza um longo pescoço branco, emplumado e ondulante. Um cisne! exclama o pensamento dela. Mas a cabeça que encima aquele pescoço se volta e ela vê, não é cisne, é ganso. Um ganso sozinho no alto de um terraço, no topo de um prédio no meio da cidade.

Como uma mancha de leite, a presença do ganso clareia o terraço. Aquilo que era sujo, escuro e abandonado, que não era senão um inútil espaço urbano, tornou-se o estojo de um segredo. Nenhuma das pessoas lá embaixo sabe que no topo de um prédio um quase cisne move o pescoço com elegância e, em curva, traz a cabeça para afofar as penas com o bico. Ninguém desconfia que no alto, para onde não se volta o olhar, uma bela ave branca abre as asas como um leque.

Ela está distante, o ganso não a ouviria se chamasse, e não sabe como se chamam gansos quando não se tem comida a oferecer, só afeto. Tão belo e só, largado ali ou ali posto como um prisioneiro. Na certa, alguém vem todo dia trazer-lhe ração, encher cuia com água, alguém que ele conhece, morador de um dos tantos apartamentos, dono do ganso e de uma das janelas, alguém que depois nem pensa mais na branca ave solitária.

E eis que uma ponta branca surge num canto, saindo de trás da mureta. Uma ponta, e logo outra a seu lado, mais baixa. Movem-se aquelas manchas claras que ainda não dizem o que são. Param, tornam a se mover, e avançando juntas para o centro do terraço. Revelam-se, orelhas primeiro, corpo depois. É um coelho. O ganso não está só.

Pula o coelho sobre o cimento escuro. O que parecia melancólico tornou-se alegre, dois companheiros desemparelhados transformam o topo do prédio em uma fazendola.

Agora ela sorri, contente por ter sido ludibriada, como se tivesse feito parte de um jogo. Pensa que à noite, debaixo do telhadinho, ganso e coelho se embolam para dormir, partilhando o calor de pelo e pena como se fossem de uma mesma ninhada. Diferentes, ainda assim se querem. De que modo se falam?, pergunta-se ela. No cimento cinzento, o coelho avança com seus discretos saltos em direção ao ganso. O outro certamente ouve o ruído das pequenas unhas sobre o piso. E o cheiro do coelho lhe chega.

Ela ficaria ali, olhando, mas seu tempo acabou. Sai do quarto. Duas personagens brancas a acompanham na lembrança enquanto caminha pelo corredor escuro rumo ao elevador.

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FRANCISCO DAUDT - Hipocrisia

O que dirá um marido diante da pergunta da mulher:
"Você acha que eu estou gorda?"

NAS FILMAGENS de "Marathon man", Sir Laurence Olivier observou que seu colega Dustin Hoffman se preparava para uma tomada. Todo suado, o semblante contraído, a cabeça baixa, Hoffman parecia presa de grande sofrimento. Sir Laurence perguntou, intrigado:
"- O que você está fazendo?"
"- Estou entrando no personagem (Dustin era adepto do "Método" do Actor's Studio)".
"- Why don't you try just acting?" (Por que você não tenta representar, apenas?), disse Olivier.

Lembrei-me disto ao dar boas risadas quando vi o significado original de hipocrisia: "resposta de um oráculo; desempenho teatral; encenação (em + cena + ação)".

Lembrei-me também do clichê de Fernando Pessoa ("O poeta é um fingidor/ finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente").

Por que sei que a hipocrisia é nosso lubrificante social de todos os dias? O que dirá um marido diante da pergunta "Você acha que eu estou gorda?" Ou uma mulher, solicitada a comentar sobre o bebê pavoroso da vizinha?

Soubemos da morte de Getúlio quando nos vieram dizer que as aulas estavam canceladas. Exultei pelo feriado extemporâneo. Mas tive minha primeira lição de hipocrisia, quando minha prima veio me exortar para uma prece pela alma do suicida. "Mas, por que, se a gente não gostava dele? (a família era lacerdista)". "Ah, mas quando a pessoa morre, devemos sentir pena dela", disse a prima. Foi a primeira, mas não a última.

Curiosa coisa é a mentira, que não se confunde com o verbo mentir. Pois pode-se dizer uma mentira sem mentir, se você acredita nela (era o que Dustin tentava fazer). E pode-se mentir dizendo a verdade.
Tancredo encontra Alckmin na estação de Juiz de Fora.
"- Para onde vais, Zé?"
"- Para Barbacena, Tancredo."
Nosso quase presidente pensa: "Mentiroso sem-vergonha, ele diz isso para que eu ache que ele vai para Belo Horizonte, mas o danado vai para Barbacena mesmo".
Coisas de mineiro, dizia meu pai.

Mas então, por que do barulho por um hipócrita desmascarado? Porque há a hipocrisia danosa, nada a ver com a do nosso dia a dia. Como a propaganda enganosa, dissemina o descrédito e o cinismo, "não se pode acreditar em ninguém". O comércio pela internet, por exemplo, depende de maneira crucial que se acredite nele.

O "conto do vigário" pode ter saído de moda no varejo, mas prospera no atacado. Foi até promovido! Hoje se chama "o conto do bispo". Era assim porque o vigário, ou o bispo, supunha-se confiável. O dano maior vem de concordar com o dito e se horrorizar com os feitos de quem disse. Ficamos com cara de patetas. Por isso Floriano Peixoto aconselhava: "Confiar, mas desconfiando".

A inteligência se desenvolveu na espécie através da desconfiança. Nossos ancestrais pensavam, "Ele está fazendo as mesmas coisas que eu faço quando minto, logo...", e este raciocínio lhes salvava a vida, muitas vezes. Alguém bate no peito a dizer "Sou honesto!" e o falso moralismo mostra o rabo.
Millôr disse de um prefeito probo que levou o Rio à falência: "Saturnino, o homem que desmoralizou a honradez".

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