quinta-feira, 29 de agosto de 2013

MANOEL CARLOS - A verdade de cada um

É sabido que tudo o que é oculto desperta curiosidade e interesse. Nestas crônicas quinzenais, sempre que conto um episódio esotérico, chamemos assim os acontecimentos que ocorrem sem comprovação, recebo dos leitores mensagens de crença e descrença, provando que não se passa por esse tema com indiferença.

Em maio, numa crônica neste espaço, levantei a questão do “assim é se lhe parece”, e foram muitas as manifestações, ora apoiando, ora negando a existência de fenômenos inexplicáveis.

Por essa razão, eu e alguns amigos do Café Severino criamos uma espécie de jogo em que todos contam fatos vividos ou sabidos em que a veracidade não pode ser provada. Você acredita ou não. Fizemos isso na última semana. Nossa querida Carla cuidou de gravar o que cada um contou, transcrevendo para o papel o que foi dito. Devido ao espaço de que disponho aqui, passo a vocês, hoje, as duas que considerei mais intrigantes, mas prometo que no decorrer do ano irei inserindo nas minhas crônicas uma ou outra das muitas histórias que ouvi naquela tarde. A pedido deles, não direi quem contou isso ou aquilo. Querem o anonimato. Que seja assim.

Na véspera de casar-se, uma jovem recebeu uma dúzia de rosas brancas, acompanhadas de um cartão no qual se lia apenas: “Seja muito feliz”. Sem saber o autor ou autora do presente, mas admirada com a beleza e o frescor das flores, deixou-as num vaso na mesinha que tinha no quarto. Surpreendentemente, a jovem não acordou na manhã seguinte. Estava morta quando foram chamá-la para o café. E as rosas brancas amanheceram rosas vermelhas, rubras como sangue, o que ninguém conseguiu explicar.

Um homem sonhou com um número de cinco algarismos: 47296. Acordou do sonho, anotou o número num papel e voltou a dormir. Na manhã seguinte, antes que ele contasse à mulher, ela lhe disse que sonhara com o mesmo número e que também o havia anotado. Ficarampasmos com a coincidência, na certeza de que era um aceno da fortuna e do fim dos problemas financeiros que viviam. Era a sorte batendo finalmente à porta. Correram à rua e entraram na primeira casa lotérica que encontraram. Só havia um bilhete à venda. Precisamente o de número 47296. Ah, pensaram com mais certeza, a fortuna estava garantida. Na hora do sorteio, que era transmitido pelo rádio, aguardaram — muito seguros, mas ansiosos — as bolinhas numeradas revelarem o 5º, 4º, 3º e 2º prêmios, até finalmente chegarem ao 1º. E o bilhete sorteado foi 69274. Portanto, o número sonhado, porém invertido. Podem imaginar a decepção de marido e mulher. Consideraram o acontecimento uma gozação do destino. Alguns dias depois, falando sobre o assunto, lembraram que,por causa de uma goteira na cabeceira da cama, os dois estavam dormindo havia mais de um mês com a cabeça virada para os pés. Invertidos, portanto.

Há quem jure que essas histórias são verdadeiras. Há quem as negue e até ria de quem as conta e de quem as ouve. Não me surpreendo com nenhuma das duas reações. É a verdade de cada um.

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ADÉLIA PRADO - Amor Feinho


Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.

Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.

Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.

Amor feinho é bom porque não fica velho.

Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.

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BRUNA LOMBARDI - Alta Tensão

Eu gosto dos venenos mais lentos
dos cafés mais amargos
das bebidas mais fortes
e tenho
apetites vorazes
uns rapazes
que vejo
passar
eu sonho
os delírios mais soltos
e os gestos mais loucos
que há
e sinto
uns desejos vulgares
navegar por uns mares
de lá
você pode me empurrar pro precipício
não me importo com isso
eu adoro voar.


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MURILO MENDES – Reflexão Número 1

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.

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ELISA LUCINDA - Amanhecimento


De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
Para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada…
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.


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CRISTIANE SEGATTO - Parente é pior que chefe

Os relacionamentos estressam mais que o 
trabalho e o trânsito, revela uma pesquisa inédita no Brasil.
Quatro estratégias para lidar com ele.

A psicóloga Marilda Lipp é uma das principais pesquisadoras das causas, consequências e tratamento do estresse no país. Pós-doutora pelo National Institutes of Health, dos Estados Unidos, ela é autora de 22 livros e dirige a clínica privada Centro Psicológico de Controle do Stress (CPCS). Em seu mais recente projeto, Marilda decidiu aplicar no Brasil uma pesquisa on-line, de acordo com o método usado nos EUA pela Associação Americana de Psicologia.

Pela internet, Marilda conseguiu em abril e maio deste ano uma amostra inédita em pesquisas do gênero: 2.195 participantes, de várias regiões e de todos os níveis de renda e escolaridade -- de faxineiras a pós-doutores. O resultado, divulgado com exclusividade por esta coluna, foi surpreendente.

Os fatores que atualmente mais estressam os brasileiros:
1) Relacionamentos (18%)
2) Problemas financeiros (17%)
3) Sobrecarga de trabalho (16%)
4) Trabalho em si (13%)
5) A maneira de pensar do entrevistado (8%)

E o trânsito? A violência? A péssima qualidade de vida nas grandes cidades?
Sim, esses ladrões de saúde apareceram entre as respostas espontâneas, mas foram muito menos citados que as dificuldades de relacionamento. A esfera privada, segundo os entrevistados, estressa mais que os fatores relacionados à coletividade.

De todos os tipos de relacionamento que provocam estresse, os mais frequentes foram os familiares (7,85%), os amorosos (7,01%), a convivência com colegas de trabalho (2,12%) e com o chefe (1,58%).

“Os brasileiros estão confusos em relação ao papel de cada um na família. Os valores mudaram e faltam limites. Os adolescentes não sabem mais o que é normal e o que não é. Isso tudo complica os relacionamentos e faz sofrer”, diz Marilda.
Dificuldades de relacionamento em casa afetam mais a autoestima e a segurança que os problemas no âmbito profissional. “Quando o foco do problema é o trabalho, a pessoa pode tentar deixá-lo lá quando vai embora Se o que vai mal é a família, tudo fica mais difícil.”

Difícil não quer dizer impossível. Sempre há como melhorar as habilidades de comunicação dentro de casa, discutir e rever valores e criar normas de acordo com a visão da família – e não por pressão social. É fundamental empreender um esforço para priorizar uma área da vida que é de suma importância para a saúde emocional e física.

Não por acaso, os participantes disseram sofrer de doenças que têm forte relação com o estresse, como hipertensão, asma, gastrite, depressão, ansiedade e doença do pânico.

Outros dados interessantes:
- 34% sentiam que o nível de estresse estava extremo no momento da pesquisa
- 37% relataram que o nível de estresse era maior em abril que no ano anterior
- 63% fazem atividade física para aliviar o estresse – o que é ótimo!
- 53% comem para aliviar o estresse – o que é péssimo!
- 75% conversam com amigos ou familiares para aliviar o estresse

“Se conversar com familiares e amigos é a primeira estratégia e as relações interpessoais estão conturbadas, a pessoa fica sem apoio”, diz a pesquisadora.
 
Outras estratégias podem ser cultivadas. Marilda sugere quatro pilares de combate ao estresse. Os três primeiros aliviam sintomas e dão sensação de bem-estar. O quarto pode debelar a pressão excessiva, aquela que compromete a saúde.

1) Mexer o corpo
Descubra a atividade física que você gosta. Se não pode pagar uma academia, encontre outra forma de praticar exercícios. Caminhar, correr, pular corda, jogar futebol não custa nada – ou muito pouco.

2) Relaxar
Cada pessoa relaxa a sua maneira. Se você relaxa depois de praticar ioga, ótimo. Se relaxa assistindo à TV, ótimo também. Não há uma receita única. O importante é reservar 20 minutos diários para descontrair e esvaziar a cabeça. Praticar respiração profunda várias vezes ao dia é uma boa estratégia. Não custa nada, é rápido e oxigena o cérebro. Marilda ensina como fazer isso no livro Relaxamento para todos.

3) Comer bem
Habitue-se a comer de forma equilibrada. Adote uma alimentação rica em frutas, legumes e verduras. Em momentos de muita tensão, usamos os nutrientes para lidar com tudo o que nos ameaça.

4) Fazer terapia
Se não puder pagar um psicólogo, reflita sobre o que é prioritário e vida de acordo com essas prioridades. Respeite seus limites e aprenda a dizer “não”. Procure ter uma visão positiva da vida. Nem sempre o que nos faz sofrer são os acontecimentos em si, mas a leitura que fazemos deles.

Tudo isso parece autoajuda e, de fato, é. Ninguém melhor do que você para ajudá-lo a se relacionar e viver melhor.





IVAN MARTINS - Bonitas, cheirosas & sozinhas

Por que sobram tantas mulheres no fim da festa?

Estou me acostumando a ver mulheres sozinhas ao meu redor. Não apenas mulheres sentadas no cinema ou lendo num café, em paz com elas mesmas. Penso em mulheres sem companhia masculina, em situações em que elas gostariam de ser cortejadas, mas não são.

Outro dia fui a um casamento. Havia na festa muita gente avulsa. As mulheres dançavam e olhavam ao redor, procurando companhia. Eram mulheres bonitas, cheirosas e bem arrumadas, a maioria delas com menos de 30 anos. Sozinhas. Onde estavam os homens? Acompanhados, muitos. Bêbados e desinteressados, outros. Ou superados em números pela quantidade de mulheres disponíveis.

Eu me pergunto o que isso significa.

Festas de casamento eram bons lugares para arrumar namoro, ou pelo menos um rolo que valesse a pena. As pessoas costumam estar embriagadas e felizes. Mulher adulta não vai sem depilação a esse tipo de evento. Os homens já saem de casa mal intencionados. Mesmo que a família esteja olhando, pode rolar um romance gostosinho. Por que, então, tanta mulher atraente dando sopa inutilmente?

Às vezes eu tenho a impressão que o mecanismo que regula a oferta de sexo e afeto na nossa sociedade emperrou.

Obviamente há muito sexo e muito romance por aí, mas a quantidade de gente sobrando é alta – e não são apenas mulheres. Conheço homens bacanas que não transam há meses. Eles saem, frequentam, xavecam, mas não rola. Podem ser casos isolados, mas eu duvido. Da festa de casamento deve ter saído mais de um sujeito macambúzio e rejeitado. As mulheres, afinal, estão disponíveis, mas não para qualquer um.

Quando todos se tornam superficiais e exigentes, acho que as mulheres sofrem mais.

Elas estão em desvantagem nesse tipo de disputa. São mais tolerantes com a aparência e a idade dos homens. Sãos mais flexíveis em seus critérios sociais. Enquanto elas se deixam seduzir por caras interessantes, mesmo que não se encaixam nos padrões de aparência e sucesso, boa parte dos homens continua apegada a dois critérios de escolha rígidos: beleza e gostosura. As mulheres que melhor preenchem esses requisitos escolhem os homens que desejam, inclusive fora do padrão. As outras, se não tiverem muita personalidade, correm o risco de dançar sozinhas.

Não há uma solução óbvia para esse tipo de desencaixe.

Com sorte, seremos capazes de perceber, em algum momento da existência, que correr atrás de padrões que todo mundo quer é uma tolice. Cada um de nós é tão específico, tão diferente dos demais. É impossível que um único modelo de beleza, personalidade ou sensualidade sirva a todos. Uma pessoa que nos preencha é mil vezes mais difícil de encontrar que um bom sapato. Tem de encaixar temperamento, química corporal, ideias, grupo social, desejos para o futuro, neuroses.

Como pode aquela menina boba e bonita da televisão ser a mulher da vida de 50 milhões de homens? Como o sedutor da faculdade pode ser o cara certo para todas as mulheres ao redor dele? Isso, obviamente, não existe. Quem andar pela vida de olhos abertos vai notar: os encaixes são pessoais. Às vezes, tremendamente exóticos.

Coletivamente também se aprende.

Uma sociedade não produz desencaixes indefinidamente. Se muita gente começa a sobrar, alguma coisa está errada, com os valores ou com as relações sociais. O mundo já foi organizado de forma que servia, sobretudo, ao propósito dos homens. Hoje não é mais assim. Se as mulheres sentirem que a sociedade as está prejudicando, vão parar de cooperar. Isso não pode. Nós sabemos que nada neste mundo funciona sem as mulheres – sobretudo boas festas de casamento.