quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

DESEJOS FEITOS DE PALAVRAS - Erane Paladino

Poeta tetraplégico constrói relação de 
desejo e afeto com sua terapeuta sexual

Paralisado desde os 6 anos pela poliomielite, o escritor, poeta e jornalista Mark O´Brien só podia mexer a cabeça e passava a maior parte do dia dentro de um tubo de ferro para estimular seus pulmões. Com esses dados, parece fácil deduzir que o filme As sessões, inspirado em uma história real, apresente toques de melodrama. Mas é justamente ao afastar-se desse caminho óbvio que o diretor australiano Ben Lewin – que, aliás, assim como o personagem principal, é também um sobrevivente da pólio – promove a discussão sobre as infinitas possibilidades humanas e lembra que a sexualidade ultrapassa os limites do corpo.

A despeito das dificuldades que enfrenta, aos 38 anos O´Brien é um homem bem-humorado e criativo, embora perseguido pela curiosidade na experiência sexual. Sua formação católica – diz ser religioso “por achar intolerável não acusar alguém por tudo isso” – o leva a longas conversas com o padre da paróquia, na busca de uma autorização espiritual que o livre da culpa pelo desejo. Numa relação afetuosa e despojada, o sacerdote o apoia na árdua tarefa de perder a virgindade.

Estamos, então, no início da década de 80, uma época em que terapêuticas sexuais corporais ganham espaço. É importante lembrar que os anos 60 e 70, marcados pelo pós-guerra e pelas revoluções culturais, foram cenários de verdadeiras explosões sociais, ideológicas e artísticas. Proliferavam estudos voltados ao prazer e à liberação sexual. Autores como Masters e Johnson contribuíram significativamente para aliviar a repressão de alguns tabus arraigados e trouxeram melhora na qualidade de vida das pessoas. Na Califórnia não faltavam cursos e dinâmicas de grupo voltados à autoliberação. Nesse contexto, o atendimento com a terapeuta sexual Cheryl Cohen Greene, especializada em pessoas com sérias deficiências físicas, interpretada no filme por Helen Hunt, é indicado a O´Brien por uma professora universitária que estuda o tema.

Na vida real, Cheryl de fato fazia esse tipo de trabalho. Didaticamente, a personagem do filme esclarece não se tratar de prostituição, mas de processo terapêutico com objetivos específicos, argumentando, por exemplo, que “a prostituta busca manter um vínculo de dependência e nossos encontros têm número de sessões previamente estabelecido”. Mais que essa diferenciação, bastante questionável, chamam a atenção a atitude profissional, a busca da objetividade, o estabelecimento do contrato e os registros feitos após cada sessão. Surpreende o encontro singular e generoso entre o paciente e a terapeuta, sem espaço para a vitimização. Um laço emocional necessário se faz presente durante as sessões de sexo. À medida que olhares e toques se estendem além da fisiologia e dos fluidos do corpo, a ansiedade e a insegurança do iniciante são, aos poucos, aliviadas pela experiência. E a despeito de limitações tão explícitas, os dois constroem uma relação peculiar. “Tudo é ao mesmo tempo inesperado e natural”, descreve O’Brien.

Há mais de um século Freud preocupava-se em descrever as pulsões como forças ligadas às relações de objeto, o que faz inevitavelmente do homem um ser em relação. O que nos torna sujeitos depende da qualidade e da dinâmica dos vínculos estabelecidos desde os primeiros momentos de vida. A ideia do outro está presente mesmo na fantasia. Onde há relação, está inevitavelmente presente algum tipo de afeto. Podemos deduzir, então, que O’Brien soube encontrar em Cheryl aspectos sutis que favoreceram a vivência de empatia e intimidade.

O mundo contemporâneo tem valorizado as imagens num processo que o escritor francês Guy Debord (1931-1994) chamou de “sociedade do espetáculo”. Corpos expostos e apelos sexuais parecem banalizar o contato com o outro, num incentivo ao hedonismo vaidoso. Apesar do acesso à informação e dos apelos do sexo, as questões relativas à sexualidade e subjetividades são menos lembradas. Não é à toa que tantos autores reconhecem e destacam os contornos narcisistas e depressivos da contemporaneidade.

Em As sessões os objetivos tecnicamente previsíveis não mascaram inevitáveis ansiedades e expectativas que acompanham desejos intensos. Apesar do corpo paralisado, a vontade de experimentar permanece viva. O artigo “Encontros com uma substituta sexual”, que inspirou o filme, e as histórias de amor vividas – ou fantasiadas – por O’Brien brotam na sensibilidade de sua poesia: “Deixa-me tocar-te com minhas palavras, pois minhas mãos jazem caídas como luvas vazias, deixa minhas palavras acariciarem teus cabelos, pois minhas mãos leves, mas inertes como tijolos, ignoram minhas vontades e se recusam a realizar meus desejos mais silenciosos”.

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O amor, o medo e a felicidade

Entrevista/Documentário

DE QUEM É A VIDA, AFINAL? - Christian Ingo Lenz Dunker

Gonçalo Viana

Ser “proprietário” da própria existência presume a possibilidade de escolher o que contar sobre si e também a aceitação de que os outros tenham esse mesmo direito

A recente discussão sobre os limites e direitos envolvendo a publicação de biografias opõe argumentos razoáveis das duas partes. Os biografados defendem uma espécie de direito autoral primário sobre sua própria vida, que se traduz tanto pela ingerência e aprovação do processo de redação da biografia, quanto pelo recebimento de valores relativos a seu uso e comercialização. Os escritores postulam que seu trabalho deve se realizar segundo a cláusula maior do uso livre da palavra, que sua tarefa tem custos e que esta não pode depender de manipulações comerciais que ao final sempre podem resultar em veto e favorecimento da “versão oficial” da pessoa a respeito de quem se escreve.

A questão parece variar substancialmente quando se trata de um artista ou um político, que incitam regimes distintos de relação entre vida e “obra”. O quadro muda rapidamente de figura quando se trata do próprio interessado ou de seus herdeiros. E altera-se outra vez quando pensamos na vida íntima de pessoas comuns, expostas em sua privacidade, ou quando consideramos a existência de representantes legais, como no caso de uma criança. Imagine você o caso de um criminoso, que vai amealhar riqueza contando seu crime, ou empreitando que alguém o faça.

Este impasse é formado pelo exagero dos biografados e pela ignorância dos escritores, de uma verdade tácita com a qual ambos operam, sem se dar conta: cada um é dono de sua própria vida... enquanto ela dure; mas cada vida é feita de outras. Ser proprietário ou usuário de uma vida pode implicar também que a vida dos outros faz parte da sua, e que este entremeado de existências pertence a todos nós.

Com essas considerações em mente fui visitar o museu a céu aberto de Inhotim, na cercanias de Belo Horizonte. E lá estava a incrível instalação de Cildo Meireles, com seus quase 100 metros quadrados, composta por cercas, balaustradas, cortinas, barreiras e demais obstáculos que temos de atravessar, pisando sobre vidro quebradiço, para chegar ao núcleo gigante composto por uma massa plástica, vazia e artificial. A cada passo lembrava-me de T. S. Eliot e sua terra devastada. A cultura feita de escombros e ruínas, que nos leva ao centro de uma vida sem centro, à essência de uma vida sem essência. E concluía que se a vida fosse uma obra, deveria ser coletiva. E que se minha vida é composta dos outros que dela fazem parte e nela pisam, os autores das biografias têm razão em exercer sua arte ou sua ciência sobre vidas alheias com a liberdade que lhes é própria, descrevendo com cuidado os labirintos de uma experiência da qual eles não serão exatamente os donos, pois outras biografias virão.

Foi então que encontrei outra instalação, talvez mais majestosa ainda, posto que egressa do Louvre. Tunga dispunha um esqueleto gigante desprovido de crânio, em uma rede que atravessa a sala, assim como o rio Averno, pelo qual as almas eram transpostas pelo barqueiro Aqueronte, em troca de duas moedas. De um lado agrupavam-se os crânios, lembrança de nosso fim comum, de nossa pretensão de superar a morte, essa mestra absoluta. De outro, as cabeças enredadas dos deuses gregos e latinos, absorvidas antropofagicamente de sua passagem pelo museu francês. E concluía então que os biografados têm razão. É preciso pagar para morrer como pessoa, para tornar-se um personagem da própria vida, que teria então deixado uma obra, que justificaria a biografia. Mas não nessa moeda, já que a arte não é indiferente à matéria que ela arruína.


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VÍDEO - CISNES NEGROS SURFANDO NA AUSTRÁLIA




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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

PAULO LEMINSKI - Sem Budismo


Poema que é bom
acaba zero a zero.
Acaba com.
Não como eu quero.
Começa sem.
Com, digamos, certo verso,
veneno de letra,
bolero. Ou menos.
Tira daqui, bota dali,
um lugar, não caminho.
Prossegue de si.
Seguro morreu de velho,
e sozinho.


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RENATA NEDER – Como mediremos este ano?

Essa semana, passei pela Lagoa e vi que já estão montando a árvore de Natal. E aí me dei conta que o ano já está acabando. O ano passou, mas ainda me lembro da virada do ano vendo os fogos do Morro dos Macacos como se fosse ontem. Daqui a pouquinho chega outro Reveillon e eu nem digeri tudo que aconteceu neste ano ainda...

Enquanto caminhava pela Lagoa pensando sobre o ano que passou, me lembrei de uma música que pergunta “como se mede um ano?”. Ouvi pela primeira vez “Seasons of love”, do musical Rent, há pouco tempo durante a apresentação de um coral com cerca de 70 adolescentes do ensino médio.

A canção pergunta como se mede um ano. São 525.600 minutos, mas é assim que você mede um ano para viver, um ano na vida de um homem ou uma mulher? Melhor seria medir em copos de café, em risos, discussões?

Como iremos medir o ano de 2013?

Poderíamos medir pelo número de pessoas que foram às ruas, em quantidade de manifestações, na quantidade de cidades onde houve protestos. Poderíamos medir pela criatividade dos cartazes expressando uma diversidade de causas, mas muita indignação.

Poderíamos medir pelo número de pessoas detidas arbitrariamente, pelo número de dias que os manifestantes estiveram em Bangu. Pelo numero de pedidos de Habeas Corpus feitos por advogados voluntários para os manifestantes duramente criminalizados pelo governo.

Poderíamos medir pelo número de bombas de gás lacrimogêneo usadas para reprimir os protestos, pelas balas de borracha disparadas pela polícia, pelas balas de verdade também. Pela arma sônica testada durante o despejo violento da Aldeia Maracanã.

Poderíamos medir pelo número de dias que se passaram desde que os filhos de Amarildo viram seu pai pela última vez, quando ele foi levado por policiais na Rocinha e nunca mais voltou. Ou talvez pelo número de pessoas desaparecidas, milhares, anônimas e esquecidas, não procuradas pela polícia.
Poderíamos medir pela violência policial, pelo número de registros de “auto de resistência”, pelo número de policiais denunciados por envolvimento com grupos de extermínio e milícias, pelo número de agentes do sistema socioeducativo respondendo processos por tortura.

Poderíamos medir pelas remoções causadas por grandes obras, pelo valor ridículo das indenizações oferecidas para os moradores do Largo do Tanque removidos para abrir espaço para a Transcarioca. Ou talvez pelo número de casas que receberam a marcação “SMH” nas suas portas, sinalizando a chegada da Secretaria de Habitação que irá removê-los.
Poderíamos medir pelos hectares de terras griladas por fazendeiros, pelos indígenas e quilombolas ameaçados pelos mesmos fazendeiros. Pelo número de pessoas mortas em conflito por terra no campo, assim como Cícero no norte fluminense.

Poderíamos medir pelo número de pessoas que pediram para entrar no Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos porque sua luta por um mundo mais justo as coloca em risco. Pelo número de ameaças e atentados que sofreram, pelo tempo eu tiveram que passar fora de casa devido a essas mesmas ameaças, como os pescadores artesanais de Magé.

A maneira como escolhemos medir um ano reflete com que olhos olhamos a realidade e de que forma queremos contar essa história. A “métrica” que você usa para fazer o seu balanço anual não é neutra nem imparcial. Ela diz de que lado você está.

Antes de embarcar nas compras de Natal ou na euforia dos fogos da virada de Ano Novo, vale a pena pensar como você mediria este ano de 2013.


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CLAUDIA PENTEADO - Nós e o tempo

Alice: - Quanto tempo dura o eterno?

Coelho: - Às vezes apenas um segundo.

(Lewis Carroll / Alice no País das Maravilhas)

Administrar o tempo é o grande paradoxo da nossa “modernidade líquida”, onde tudo é fluido e a vida parece escorrer pelos nossos dedos distraídos. Neste cenário levariam vantagem as mulheres, que costumam ser chamadas de “mulheres-polvo”, capazes de realizar várias tarefas de uma só vez. Mentira. Ou melhor, talvez uma meia-verdade. Tenho que admitir que somos mesmo capazes de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Mas o fato é que sofremos um bocado no processo. Fazemos coisas pela metade, às vezes mal-feitas, perdemos o foco do que realmente é importante e essencial, ficamos na superfície de muitas coisas, transformamos nossa rotina num verdadeiro caos – e consequentemente, nos tornamos caóticas nos nossos desejos, relacionamentos, no trabalho. Fazemos uma coisa já pensando na que vem a seguir ou na que ainda não deu tempo de fazer. Meditação? Quem tem “tempo” para isso?

Abracei a missão de fazer uma agenda semanal para mim mesma, como um exercício organizacional. A sugestão foi de uma amiga, com quem tive um longo papo sobre organização e prioridades. Achei graça na missão aparentemente simples: agenda semanal é algo que costumo fazer para a minha filha. Fazer isso pra mim – e por mim – não pareceu tão difícil, mas o fato é que já parto para a missão meio derrotada, achando que não vou conseguir cumprir tudo o que estará escrito. Chega a dar um certo friozinho na barriga a ideia de ter uma ROTINA. O que parecia simples torna-se, de repente, o maior desafio da minha vida.

Rascunhei algo que virá a ser o meu Planejamento de tempo semanal e fico animada com a ideia me tornar uma pessoa disciplinada e organizada. Volta e meia me pego pensando no que vou escrever e, claro, incorporar à minha “rotina” diária. Não posso correr o risco de pôr ali algo que não possa cumprir. Será que não deveria também definir o cardápio da semana? Lembrar de comer certos alimentos, tomar algumas vitaminas essenciais, minha geléia real pela manhã, o óleo de coco, o suco verde, em horários definidos e eternizados numa agenda de compromissos com a minha longevidade?

O resultado disso tudo é que me sinto realmente disposta a fazer o exercício de eleger o que é essencial e principalmente o que me é possível realizar com qualidade. Tomo a liberdade de alterar uma frase de Bismarck e afirmo, categoricamente, que a vida é a arte do possível. 

Reconhecer isso já ajuda as “mulheres-polvo” – como eu, claro – a perceberem que não se pode, mesmo, desejar realizar tantas coisas sem de fato ter os muitos braços do tal do polvo.

E humana que sou, mesmo diante do reconhecimento da inalcançável onipotência, sei que vez por outra terei, claro, recaídas. Como a que me fez, certa noite, ler Dostoievski para a minha filha de nove anos, pois precisava concluir a leitura de um livro para a minha pós-graduação, e desejava, também, botá-la para dormir. Resumo da ópera: ela adormeceu profundamente ouvindo frases como “um rancor terrível contra ela ferveu de chofre em meu coração; era capaz de matá-la ali mesmo, parecia-me. Para me vingar dela, jurei mentalmente não lhe dizer mais nenhuma palavra enquanto estivesse ali.” 

Não foi O Pequeno Nicolau, conforme combinado, mas isso pouco importou: minha presença a acalentou e a mulher-polvo foi dormir feliz, com a sensação de dever cumprido e a certeza de uma atuação brilhante. De vez em quando, a gente consegue.


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MÔNICA EL BAYEH - Vida, me empurre quando eu travar

Quando passou pelo portão, as ideias passaram todas juntas também. Numa revoada barulhenta. Ideias querendo dar sua opinião.

Lembrou de quando recebeu a notícia de que ia ter que se transferir. Perdeu o chão. Como assim? Tinha direitos, não tinha? Não. Na verdade, alguns direitos só existem quando são de interesse de quem está no poder. Aprendeu essa também.

A vida toda estruturada. Estava ali porque era mais cômodo, mais perto. Feliz? Com certeza não. Jamais seria feliz ali. Mas o desconhecido assusta. E mudar às vezes dói tanto… E se fosse pior? E se fosse mais longe? E se não gostasse tanto?

Foi tratada como lixo, um traste jogado fora. Um enfeite que, agora, mudado o estilo da decoração, não agradava mais. Depois de tantos anos e toda dedicação. Se sentia desrespeitada. Sentiu não. Foi mesmo – e muito. Na impossibilidade do momento, decidiu: não lutaria contra. Ia se deixar levar. Iria ao sabor do vento, como folha solta no ar. Alguém, em algum lugar, com algum nome, haveria de protegê-la. Confiou.

Lembrou da Alice no País das Maravilhas perguntando:
- Gato, onde é a saída?
- A saída depende de onde você quer ir.

Para onde ela queria ir? Para onde fosse bem tratada, só isso. Só desejava ser bem tratada. Ali, nunca havia sido. E, vamos combinar, ser bem tratada é o mínimo de dignidade que se pode esperar de qualquer tipo de relação, seja ela qual for.

Mudou. Como forma de complementar o horário, foi parar em dois lugares diferentes. Ambos muito bons. Adorou. Tem sido sim, muito bem tratada e está feliz. Reestruturou a vida. Se livrou de um peso, quase um encosto. Sua vida não se arrasta mais. Agora sua vida voa.

Eis que, por ironia da vida, ela teve que voltar lá para uma reunião. Naquele instante, parada em frente ao antigo portão, reviu toda situação. A vida é assim mesmo, irônica, debochada, um prato cheio de sarcasmo. Apronta cenas mais escrachadas do que novela mexicana. Situações que a gente olharia com reservas e acharia forçação de barra. A vida faz dessas com a gente. E, provavelmente, se diverte assistindo a cada capítulo. Somos sua novela mexicana. Há que se ter bom humor com ela também. Não há outra saída possível para manter um nível razoável de saúde mental.

Naquele retorno, encontrou amigos antigos, queridos. Ouviu as mesmas queixas de antes. Queixas que haviam sido suas também. A oportunidade se abriu para todos, muitos foram. Mesmo assustados, meio perdidos, desamparados, aceitaram o desafio e se lançaram no vácuo, sem garantias. Muitos não foram. Cada um com seus motivos. Não estava ali para julgar. Ela tinha ido. Esse era seu alívio.

Pensou em como estaria, se não tivesse mudado. Se, por medo do desconhecido, tivesse permanecido estagnada, como antes.

A vida é um tipo de trem. Chega na pressa, desembarca uns e embarca outros. Não anuncia o destino abertamente. Você entra sabendo que é por sua conta e risco. A outra opção é ficar na plataforma vendo a vida passar, na triste postura de dar adeus aos que vão. E depois voltar para casa. Retornando para o mais do mesmo.

Talvez a vida abra uns portais, eventualmente. E convide – vem? – desafiando, instigando, pagando para ver a capacidade de cada um. Então aguarda por certo tempo para que se tenha coragem de pular, se jogar. Se a gente resolver investir e embarcar, ela cobre a aposta e vai junto ao infinito – e além.

Se a gente fica na retranca, empaca, desiste, o portal se esfumaça e se desfaz. Aquela saída se fecha. Até uma próxima oportunidade… Ou não. Quem sabe?

A vida é jogo de aposta. Não se sabe o fim. Nem onde vai dar, nem os resultados de cada rodada. Viver é pular no escuro. Planejamentos, contas, mapas, tabelas, roteiros, tudo pode ajudar e até dar certo. Apenas pode. Então, a gente para, pensa, programa. Mas, na hora do vamos ver, é ir ou ficar, sabendo do risco.

De qualquer forma, sempre é preciso apostar em alguma coisa. Ficar de fora já é uma opção de aposta. Não esboçar atitude já é uma atitude. Quando você se omite e não faz a escolha já está fazendo sua escolha. À deriva, mal feito, mas está. Quando chega a sua vez da rodada, é a sua vez de agir. Vai jogar ou passar?

A vida se diverte assim e dá preferência às boas parcerias. Joga bem com quem aposta nela. Gosta de quem acredita que pode, e tenta ir em frente. Esses são, em geral, os melhores jogadores. Não que eles sejam privilegiados pela vida, que dela recebam mais vantagens ou coisa que o valha. Ao contrário, esses são os que, verdadeiramente, tratam a vida como prioridade. Essa é toda diferença.

Andei de tirolesa uma única vez. Nem preciso mais. Meus filhos adoram, vão repetidas vezes. Acho ótimo. Medrosa que sou, para mim uma vez está de bom tamanho.

Fui sem pressão externa, queria experimentar. Mas, depois de toda paramentada com os equipamentos de segurança, travei. Olhava para baixo e pensava: por quê? Porque me meti nisso? Avisei ao recreador que tinha desistido, não ia mais. Ele me olhou meio de saco cheio. Apontou para uma fila enorme atrás de mim. E me informou que agora, não havia essa alternativa. Pular dali eu não ia mesmo. Ainda travada, pedi então, que ele me empurrasse. Ele me empurrou de bom grado. Acho que até com certo prazer. Naquela altura do campeonato, faria qualquer coisa para se livrar de mim. Lá fui eu, pendurada, voando até o outro lado. Posso dizer que, se não fosse o medo tanto, aquilo poderia ter sido ótimo.

Assim passa a vida por nós. Provocando, desequilibrando, instigando, sugerindo e rindo. E nós seguimos como equilibristas amadores que somos. Ela empurra, a gente faz que cai, mas não cai. Às vezes, faz que cai e cai mesmo, se estabacando no chão. Levanta meio doído, começa de novo. Faz parte. Tem que ser assim. Triste é ficar só na arquibancada, espectador da própria vida.
Um ano novo começa. Planos, sonhos, estamos cheios de bons propósitos. Como nova partida do jogo. Novas apostas! A esperança de que agora vai! Ano novo, todas as fichas na mesa.

Tempo de recomeçar? Sim, mas temos que saber que o tempo de recomeçar, na verdade, é cada instante. Porque vida é susto, é perder o prumo, perder o norte e sempre, a cada minuto. E recomeçar.

A vida é a minha tirolesa. Esse é meu pedido para ela nesse ano que inicia: vida, me empurre! Não desista de mim, nem me feche a porta! Você me conhece, sabe que sou de medos. Então, por favor, vida, me empurre quando eu travar!


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