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sábado, 9 de agosto de 2014

PAI DE FIM DE SEMANA - Edmir Silveira

Quem disse que é fácil ser Pai de Fim de Semana? 
Só, que às vezes, é o que resta...

Abro a porta, e o silêncio da casa me invade. Teus vestígios ainda estão por todos os lados. As almofadas reviradas na sala tem o seu jeitinho. A boneca e os papéis de chiclete no tapete, são pura arte. Arte de ser feliz. Entro na casa, e tua ausência me recebe em todos os cômodos. Dói.

A bagunça que nossa alegria deixou eu não vou arrumar, ela é marca da tua presença. Tua dança, ainda dança, num balé cheio de graça, alegria e, agora, saudade. Tua voz, teus gritinhos, tua inocência e teus risos ecoam como a mais doce música, e preenchem o silêncio do resto de domingo sem solução. No banheiro, a toalha e a marca dos teus pezinhos no chão ainda úmido. E, por toda a casa, as cores dos teus brinquedos e da tua voz. Teu perfume de anjo está por todos os cantos da casa e da minha alma. Tua presença é tão forte que ainda posso sentir teus bracinhos em volta do meu pescoço, apertando, e, essa sensação é que não me deixa sufocar de saudade. Dói.

Senti vontade de chorar, mas tomei água e passou, você não é tristeza, é alegria. Tua chupeta em cima do telefone. O copo em que bebeste água. A jujuba embaixo do sofá. O desenho na parede, os papéis picados. Nossas brincadeiras, tuas mãozinhas fazendo carinho na minha cabeça de uma forma única no universo, que só você sabe, e a batata frita no chão da cozinha.

Trocar tua roupinha, calçar teus sapatos, pentear teus cabelos, assoar teu nariz. Ouvir tua voz me chamando de papai. Teus olhinhos puxados, teu sorriso sapeca. Tuas perguntas me ensinando a aprender cada vez mais a beleza e a força da vida.

Não sou teu pai só no fim de semana, o sou a cada segundo de todos os minutos, de todos os dias de minha vida. Cada sorriso meu, traz a presença da tua alegria. Sou um poço sem fundo, que só será preenchido com a tua felicidade. Te quero livre, forte e segura. Quero ser teu porto seguro, teu amigo, teu pai. O que mais desejo é que sintas a mesma felicidade que me proporcionas. Sou feliz a cada sorriso teu. E teu sorriso é tão poderoso que irá me fazer feliz o resto da semana sem você.

No dia seguinte, a casa já estará toda arrumada, mas tua presença permanecerá intacta, eterna e inesquecível. 

E esperaremos, eu e nossa casa, por toda a semana, ansiosos por tua bagunça, tuas cores e tua alegria.

Mais de vinte anos depois de ter escrito essas linhas, posso dizer com o maior orgulho que um pai pode ter: minha filha é, hoje, uma pessoa do bem, independente, uma profissional e artista altamente competente e, principalmente, minha melhor e grande amiga. 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

AMANTES - Edmir Silveira

                                                             Pintura de Dhiego Rocha


E o toque acendeu um sol, dois sóis
Quentes, atraentes, penetrantes,
Somando-se num calor ardente, pendente, arfante

Tua pele linda, arrepiada, sussurrante
Atraindo, exalando teu perfume provocante
Fêmea nua, natureza dominante

Eu sinto a carne, quente, úmida e envolvente
Que vai sugando, atraindo, me desejando urgente,
Despertando o desejo de te completar inteira, 
em cada poro, em cada arfar, em cada instante.

Teu ar, meu ar, arfante, dentro, fora, enebriante
Somos insanos, alucinados, delirantes,
Cabendo  todo em teu espaço, latejantes
Somos a vida, somos amor, somos amantes.




domingo, 13 de abril de 2014

À PRINCESA DAS BORBOLETAS - S.S. Butterfly


Existem dias que nos são especiais. Por muitos motivos. E, dedicar um dia à alguém, torna-o ainda mais especial. Somos nós que resolvemos quais serão esses dias. Hoje, será especial, dedicado à uma mulher que encheu meu coração e minha vida de música e poesia. 

Para que esse dia seja ainda mais especial, ainda preciso fazer duas coisas, que farei agora:

A primeira é encorajar a borboleta renascida, da qual tratei as delicadas asas com muito muito carinho, à alçar novos voos e a ter coragem para mudar seu rumo quantas vezes seu coração mandar;

A segunda é deixar de presente, para ela, uma das coisas que mais nos uniu: 
a beleza e a emoção que só a música é capaz de nos fazer sentir. Tivemos muitas.

Essa, foi a última que cantamos juntos, abraçados:



Saber que você existe me faz feliz. 


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O AMOR SE ESCONDE – Edmir Silveira


Eu te conheço, antes mesmo de te conhecer, em meus desejos.
Você é sempre linda, mas eu nunca consigo ver seu rosto.

A cada sonho apareces diferente.
Mas seu olhar te revela e me hipnotiza de novo,
misturando carinho, tesão e amor,
em doses muito, muito precisas.

Sua pele sempre parece feita de tudo,
um pouco de carne, um pouco de veludo,
um raio de sol, um raio de lua,
É a felicidade sorrindo, a alegria nua

Você é o alimento dos meus sonhos.
Me faz sentir tudo que os sentidos podem alcançar.
O seu cheiro, o som da sua voz, o toque na sua pele, o gosto do seu desejo.

Te reconheço pelo olhar, seja com cabelos louros, castanhos ou escuros.
Te reconheço pelo cheiro do seu couro cabeludo.
Reconheço cada parte de você inteira, em cada novo corpo.
Te redescobrindo sempre. Te amando sempre.

Mas, de repente você some, desaparece sem avisar,
deixando no seu lugar, onde você existia,
uma pessoa que não conheço. A casca do amor.

Mas, sempre reapareces de novo, perfeita, e cada vez diferente.
Com outro nome, com outros corpos, outros cabelos e outros olhos.
E durante algum tempo você permanece ao meu lado.
É quando sou feliz. É quando amo. É quando vivo.

Amei todos os seus nomes, todos os seus corpos e todas as suas vozes.

Mas, agora, chegou a hora de nos conhecermos sem máscaras,
para nunca mais desaparecermos um do outro.
Estou cansado de te perder.


Clique abaixo e veja também:



quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O TRATO DO AMOR - Edmir Silveira

Uma tristeza súbita me aconteceu,
A noite de sábado se aproximava 
trazendo sua sedução urgente, quase doente,
e ninguém se esquecera de me ligar
Convites e sugestões, promessas e interjeições,
Porque hoje a noite é de rock, de balada, 
de mangueira ou de salgueiro,
Todos os ingredientes de uma noite de solteiro
E como essa palavra me machucou
no momento em eu que pensei na rima
A sensação foi do inevitável que se aproxima
Percebi que, pior do que ter um amor que te prenda
É ter um amor que te afaste,
É ter um amor que não queira alimentar
o princípio mais simples de amar
Porque não importa se longe ou perto,
O amor, às vezes, sobrevive no deserto quando é compartilhado
E o amor só existe quando é amado...
Porque o trato do amor é simples assim:
Eu penso em você,
E você pensa em mim.

sábado, 25 de maio de 2013

A BONDADE, A INTERNET E O FUTURO QUE DESEJAMOS CONSTRUIR - Edmir Silveira

Para mim, existe um sentimento que sintetiza 
a verdadeira evolução humana: a bondade.

Em qualquer de suas formas, sempre me emociona profundamente quando me deparo com ela.E são muitas suas formas. A bondade não escolhe ocasião, não precisa. Pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
Para os cientistas a cooperação foi a maior responsável pela evolução humana. E ser gregário, seria uma característica muito mais necessária do que opcional. Com certeza, por milhares de anos o foi.Mas, há poucos séculos, pelo menos, não é mais.

Hoje, ao contrário, ser gregário é que é difícil, já que a solidão é, sem sombra de dúvida, o maior fantasma do ser humano.

A necessidade do sucesso profissional e econômico impõe a todos um egoísmo exacerbado que passou a ser visto como normal e até admirado. Se olharmos em volta, ninguém mais tem vergonha de admitir que não pensa em mais em ninguém a não ser em si mesmo. Perdemos a vergonha. Qualquer um já ouviu, um sem número de vezes, a frase quase imoral:
 - Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu...e se tiver um quarto...

O conceito vigente é esse, até agora. Estamos andando sobre o fino fio que separa o egoísmo da indiferença cruel com que se olha o outro.
E o pior é que ele passeia impune no ambiente profissional, nas “amizades”, nos relacionamentos amorosos e até nas famílias. Ser esgoísta é quase normal.

O grande remédio para o egoísmo, que é o maior inimigo da felicidade, é essa bela característica humana: a bondade.

A bondade é mágica. Ao mesmo tempo em que é gerada por um ato de amor de quem dá, gera amor em quem recebe e volta para quem acabou de dar. A bondade é o amor que se multiplica. Como nossas células. Uma bondade gera duas que gera quatro...

E, existe um lugar, virtual, onde isso já pode ser visto e vivenciado e que é, desde a invenção da roda, a maior revolução da história da humanidade: a internet. 

Um veículo de comunicação sem limites e capaz unir toda a humanidade de uma maneira jamais imaginada. E o que acontece através das mídias sociais é ainda mais maravilhoso e promissor. 

Temos visto muitas coisas que jamais veríamos se não fosse essa ferramenta fantástica.  Reencontros entre amigos de infância que jamais se reencontrariam de outra forma, pais reencontrando filhos e filhos reencontrando pais.

E como é emocionante poder rever uma paixão de infância! Por alguns instantes, revivemos cada sentimento esquecido. É como passar a vida a limpo. É como viajar numa máquina do tempo. 
É como se cada um de nós pudesse ver aquela parte final do filme que conta a história da nossa própria vida e que, quando estão passando os créditos, entram cenas adicionais e um narrador conta como cada personagem da nossa história está hoje: 
- Fulano se tornou um músico de grande sucesso, Sicrano é um médico no interior do país, Beltrana casou e mudou e nunca mais foi vista, até ontem, quando todos se reencontraram na mídia social da moda...

Porque, mais do que nunca, quem procura, acha. Porque no mundo virtual podemos viajar para onde quisermos em nossas memórias.

É emocionante reencontrar pessoas que fizeram parte de nossas histórias e que jamais reencontraríamos se não fosse a internet. E através desses reencontros, reencontramos, também, a nós mesmos.

Hoje, em vez de imaginar como seria reencontrar aquela pessoa a quem você gostaria muito de revelar uma coisa que não falou quando tinha 14 anos, você pode procurá-la no mundo virtual, reencontrá-la no mundo real e passar a limpo qualquer coisa mal resovida. Ou tão bem resolvida que dá vontade de reencontrar de novo. Ou seja, o passado, hoje, pode ser revisitado através das pessoas que fizeram parte dele.

Mas, a revolução vai além dos círculos pessoais, denunciando a possibilidade de estarmos no limiar de um grande salto na evolução humana.

Temos visto pessoas se mobilizando por pessoas que jamais conheceram ou conhecerão pessoalmente. Temos visto animais sendo resgatados e protegidos como jamais o foram. Temos visto pessoas que jamais se viram, se ajudando. Sendo encontradas e se encontrando. Se confortando. Compartilhando música, poesia, sexo, filosofia e tudo mais que a criatividade humana puder imaginar.

E, também, compartilhando gentilezas e bons sentimentos. Pessoas compartilhando suas humanidades. Mobilizando-se por causas nobres, valorizando a vida e a dignidade de todos os seres e do próprio planeta.
Se são os primeiros sinais de que o mundo e o ser humano melhor que desejamos ser já começou a se manifestar ou se é apenas mais uma utopia, só o tempo dirá.

Mas, se a bondade continuar a contagiar a humanidade como está parecendo e continuar a se alastrar, através da internet e de suas inimagináveis evoluções e desdobramentos, o futuro da humanidade será lindo.

Podemos estar presenciando um momento crucial na evolução humana. E fazer o bem e se preocupar com o outro é o principal sinal.

Se nada interromper essa tendência, no futuro, cada ser humano se tornará o guardião que cuidará e protegerá todos os outros seres. Semelhantes ou não.



domingo, 14 de abril de 2013

SEMPRE VAI SER AGORA - Edmir Silveira


"Não percebemos a importância do agora porque não sabemos ser eternos. 
Se soubéssemos ser eternos saberíamos a importância de cada segundo.
A eternidade está na consciência de que  sempre vai ser agora."
            Edmir Silveira

UM SOM - Leblon - Um passeio pela praia no Por do Sol

UM SOM - ao vivo - Mito



sábado, 13 de abril de 2013

COMO TER UM ANJO - Edmir Silveira

Todos gostaríamos de ter um anjo próprio., ali do lado, protegendo-nos o tempo todo. Não importa se acreditamos ou não, mas com certeza gostaríamos que ele estivesse ali do lado, protegendo, apoiando e invisível.


Com este guia prático você vai chegar a conclusão que isto é totalmente possível, se você conseguir vencer a barreira do absurdo. Pra começar faça o oposto, identifique seu demônio próprio. É bem mais fácil.Primeiro, você tem que perceber que seu principal opositor é você mesmo. Somos nossos piores e mais implacáveis críticos. Se a gente pudesse quebrar a própria cara de vez em quando, não seríamos assim. Por isso, se não podemos vencê-lo, juntemo-nos a ele.

A primeira providência é, numa ocasião propícia, de preferência sozinho para não o chamarem de louco, convidar seu autocrítico para conversar. Ofereça-lhe um cházinho, todo crítico gosta muito de cházinho. Durante a conversa faça-o ver que ele o está criticando muito severamente e revele a grande verdade, ele é você. No começo ele pode relutar um pouco, mas depois vai concordar. Ou então se interne que é caso perdido. E, não adianta partir para a agressão com ele, eu garanto que você vai apanhar. Passada esta fase vamos para a segunda etapa. 

Esta prática, que não deixa de ser espiritual, tem suas vantagens. Você pode praticá-la em casa, sozinho, não paga dízimo e não tem que assistir sermão de ninguém. Nem precisa ver programa de pastor em canal de televisão. 
O incenso é opcional, não é necessário. Mantras não são recomendáveis para quem tem faringite, além disso, decorar aquelas palavras que ninguém sabe o que significam dão muito trabalho. Agora vamos lá, na sua sala ou quarto, fique o mais relaxado que puder, na posição que desejar; Lótus, Ferrari ou Mclaren. Pra dizer a verdade, a Lótus já nem sei se existe mais. As posições importadas geralmente são mais confortáveis. Mas, tem gente que se arranja bem até com posição Fusca. Tem que ter bem mais flexibilidade, é claro. Ah, antes coloque um som instrumental que você goste muito, porque se deixar pra colocar depois de fazer a posição escolhida vai dar o dobro do trabalho.

Comece a pensar em você e em quantos vocês existem dentro de um só. Pense na sua criança, chame-a para brincar, pergunte-lhe o que ela sonha. Chame seu autocrítico e mostre-lhe a ele mesmo. Entenda que você é os dois, os três ou quantos mais houverem. Entenda-se pluralmente. Desculpe seus erros, divida seus planos com você mesmo. Faça um pacto de união e amizade eternas. Aconteça o que acontecer os três, ou quantos mais eus houverem vão sempre estar no mesmo lugar, sentindo as mesmas coisas. Felicidades, tristezas, dores, prazeres, vida e morte. Quando amar, que todos mergulhem juntos de cabeça. A cabeça é uma só e as possibilidades de felicidade milhares. Faça a paz entre todos os seus eus. Que todos pensem juntos quando tiverem que pensar, e que todos não pensem quando for hora de amar. É inevitável, estamos no mesmo barco para sempre, enquanto sempre durar.
Ser nosso melhor amigo, incondicionalmente, é fundamental para sermos amigo de outros. Pessoas escondem sentimentos de si mesmas. Ou seja, nem amigos confidenciais de si mesmos são. Nos aceitarmos, mesmo quando não compreendermos porque fizemos aquela merda colossal, é fundamental.

Depois de pensar nisso tudo, pense mais profundamente. Você vai sentir que existe alguém que compreende suas piores mazelas e continua te dando força e acreditando em você; que sabe de tudo; daqueles jornais roubados, mentiras, enganações, chatices, traições, pensamentos maldosos, ciúmes, enfim das mesquinharias que todo ser humano tem, inclusive você. Mas, ainda assim está lá, sempre presente, com você, dentro de você.

segunda-feira, 11 de março de 2013

SUA RELAÇÃO É DO TIPO TÊNIS OU FRESCOBOL? - Edmir Silveira

Outro dia  um casal jogando frescobol, na praia, me chamou a atenção. Eram veteranos, tanto ele quanto ela. E jogavam muito bem. Era hipnotizante ver a sincronia e o esforço de um e de outro para fazer com que a bola chegasse o melhor possível para que o outro acertasse. 

Como é lindo o princípio desse jogo. Aquele casal vibrava como criança com o acerto do outro a cada bola mais forte. E como jogavam bem. Uma velocidade, uma força e uma precisão impecáveis para um casal que já devia ter os seus 60 anos. Mas, o que me emocionou foi ver, ao fim das energias, os dois caminhando e sorrindo um para o outro , conversando alegremente, de mãos dadas, até caírem num mergulho deliciosos naquele mar de fim de tarde no Leblon.

A analogia na hora me pareceu inevitável. Existem dois tipos de relações entre casais: as do tipo frescobol e as do tipo tênis.

As relações do tipo tênis são as competitivas. Onde existe uma constante competição, nem sempre tão velada. Quem é melhor, quem fez mais coisas certas ou erradas, quem é mais apreciado, quem é mais isso, quem é mais aquilo. São fontes de ressentimentos, mágoas e pouco acrescentam ou deixam de bom quando terminam. Ao contrário, muitas vezes deixam as pessoas incapazes de se relacionar por algum tempo. Traumatizadas, machucadas.

As relações do tipo frescobol, ao contrário, são fonte de constante aperfeiçoamento mútuo. Os dois tendem, sempre, a ir "melhorando” e o jogo se tornando cada vez mais interessante, empolgante e gratificante. É fonte de alegria e se realimenta da felicidade e da alegria do outro. Do Parceiro(a).

O prazer da relação tipo Tênis, competitiva, tem como objetivo "derrotar” o que pressupõe se tratar de um adversário, e que no final acaba se tornando é inimigo. O prazer de um é colocar o outro pra fora do jogo, humilhá-lo, fazê-lo sentir-se derrotado. O prazer e a vitória de um é a frustração e a derrota do outro.

E o frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola.

Só que no frescobol, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio torta, a gente faz o maior esforço do mundo para devolvê-la perfeita, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Existe parceria. 
Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E não tem consequência quando um erra, não existe placar. O que interessa é bola pra frente e continuar a se divertir.

Se alguém erra, não tem importância: começa-se de novo este jogo delicioso onde não existe marcar pontos. Onde um induz o outro ao acerto, não ao erro.

A bola são nossas particularidades, nossos segredos, nossas intimidades, nossos sonhos. Ficar batendo bola pra lá e pra cá, é ficar deixando o que há de mais profundo fluir, é ter confiança e interesse no outro e em si mesmo, é ver que a felicidade é uma conquista a dois. É ajudar o outro a conquistar suas vitórias e se sentir vitorioso por isso. Isso é gostoso. Isso torna a relação gostosa, saborosa e bem humorada.

Fazer quem a gente ama feliz é a melhor forma de ser feliz.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

AMAR, A GRANDE VOCAÇÃO HUMANA - Edmir Silveira

Uma das vocações humanas, que a evolução da espécie vem acentuando, parece se relacionar com as emoções e sentimentos que a vida e o mundo provocam, e não só sobreviver e se defender dos predadores e das condições climáticas, como já o foi no passado.

Os sentimentos diversos que somos capazes de sentir e de desenvolver é o que nos proporciona o combustível que a razão precisa para se interessar por algo e, consequentemente, estudá-la, e assim evoluir.

Até agora, e isso pode mudar a qualquer momento, parece que somos a espécie onde a sofisticação do sentir determinou os rumos de sua história, sua evolução e a qualidade de vida do indivíduo.

Freud enunciou e parece bem lógico que, mesmo o mais frio dos indivíduos, tem como objetivo maior amar e ser amado, desde que não seja portador de nenhum distúrbio psíquico.

O amor é o extinto mais bonito e, ao mesmo tempo, a maior loucura humana.

É dele que nasce toda a magia dessa grande aventura chamada vida.

Sentimentos de todas as cores, sem raça, de todos os credos, sem razão. Que desafia qualquer lógica, qualquer fórmula, qualquer coisa.

Existem infinitas nuances do amor, mas todas são amor. Várias formas para o mesmo conteúdo: querer profundamente o bem do outro e agir para isso.

Temos os amores que formam a nossa base, o amor da família. Temos o amor que nos faz maiores e mais fortes, que são os amigos. E temos o amor que nos faz transcender e até gerar outra vida.

O amor da pessoa amada é mágico. Transforma, transtorna, transborda. Transcende.

Olhares, cheiros, cabelos, rostos, corpos; meu, seu, nossos. Qual é o meu ou o seu? O que te dei ou o que você me entregou?

Louco, ridículo, alucinado. Louco, acredita em tudo. Louco, não acredita em nada. Ridículo, capaz das mais lindas atitudes. Alucinado, capaz do mais doce gesto.

Magicamente forte, capaz de brotar do nada, surpreendente, capaz de renascer das cinzas. Gozo da vida. A mais consciente das loucuras, a loucura dos mais conscientes.

O que nos faz acordar todas as manhãs é a possibilidade da continuação do amor antigo, da confirmação do amor presente ou do nascer de um novo amor.
Porque a maior vocação humana é amar. Amar a tudo, porque amar é tudo.

Ilógico, como tem que ser. Improvável, necessário, confuso, muito confuso, profundo, gostoso. Humano.

E a vida segue. Buscando, tentando, querendo, desejando, amando, encontrando, perdendo e de novo buscando, tentando, encontrando, querendo…

E, dentro desse aparente caos, o planeta humano vai se desenvolvendo. 

As várias culturas, mesmo as mais diferentes entre si, possuem algo em comum: o amor que torna um indivíduo especial para outro. 
Seja o amor por um filho, um amigo, ou seja por uma pessoa estranha por quem outra se apaixona do nada. 

E, por esse sentimento, se muda o curso da história. Às vezes só a do indivíduo, outras vezes, muda o rumo da história do mundo e da evolução humana.

Ser humano significa fazer parte de uma espécie que só se realiza quando ama. 
 

domingo, 16 de dezembro de 2012

NATAL FELIZ É COISA DE CRIANÇA – Edmir Silveira

O espírito do Natal chegava no dia de armar a árvore. Não me lembro direito se era a mesma árvore ou se a cada ano era uma diferente. Mas, todas eram a árvore de Natal da minha casa. Que eu, meus irmãos e minha mãe tínhamos montado juntos. Às vezes, meu pai estava também, outras ele vinha para a parte final que era ligar o pisca-pisca "do jeito certo”. Minha mãe sempre colocava algodão em cada "galho”da árvore, para parecer neve. A cada ano surgiam enfeites novos que se juntavam aos que tinham sobrevivido dos anos anteriores. Lembro claramente de alguns. Era excitante, alegre e divertido.

Tinha o dia de escrever a cartinha para o Papai Noel. Hoje, penso como minha mãe era hábil. Sempre escolhíamos os presentes que eles poderiam nos dar. Não porque pensássemos neste aspceto econômico, mas porque ela ia,aos poucos, nos induzindo. Incrível, quanta habilidade. Eles não tinham dinheiro para nos dar o que quiséssemos ou o que as propagandas sugeriam. Mas, sempre davam o que pedíamos. O que mostra a capacidade de influência que minha mãe tinha sobre nós.

Eram Natais felizes, plenos. Fazíamos listinha com nomes de alguns amiguinhos que gostaríamos de dar presente. Cada uma tinha direito de escolher uns tantos. Eram só lembrancinhas, como dizia minha mãe.

Um dos Natais que mais me marcou foi quando ganhei minha primeira bicicleta. Era o meu maior sonho, aquela bicicleta. Sonhei com ela desde que havia passado de ano por média no colégio e minha mãe e meu pai me sugeriram que pedisse uma bicicleta pro Papai Noel, porque eles achavam que eu merecia e que Papai Noel sabia disso. 

Fiquei confiante e escrevi a carta com a certeza de que meus pais tinham algum conhecimento lá com Papai Noel. Quando eu perguntava para minha mãe o que ela achava, se Papai Noel ia me dar ou não, ela piscava o olho e não dizia nada. Mas dizia tudo. Aquele piscar de olhos, para mim, era como se ela falasse claramente que tinha lá sua influência com o Bom Velhinho. E quando a gente é criança, acredita mesmo que mãe seja o ser que chega mais perto dos "seres encantados”.

Foram dias de ansiedade. Quando a gente é criança, o tempo demora demais a passar. Perto de aniversário ou natal então chega a ser torturante. Não chega nunca.

Na noite de Natal, chegaram meus tios e primos, a ceia posta. E nada de dar meia-noite. Meu pai, minha mãe, meus tios, meus primos, meus irmãos e eu. Eles conversando com a porta do apartamento aberta, por onde entravam e saiam vizinhos, que também deixavam suas portas abertas e nos recebiam em algum momento da noite.

No Leblon, nas noites de Natal da minha infância, as portas dos apartamentos ficavam abertas e os vizinhos faziam, aos mais amigos, sempre uma visitinha rápida só pra dar Feliz Natal.

Criança não liga para as comidas deliciosas que se faz no Natal. E pior, ainda são obrigadas a comê-las... Estava tão ansioso que não cabia nem uma ervilha no meu estômago. Minha mãe entendeu e me dispensou daquele martírio.

De repente, algum adulto dá um alarme de que está vendo Papai Noel na janela do quarto, lá dentro.

As crianças correm que nem loucas mas, não chegamos a tempo de ver, ele tinha acabado de passar na direção da janela da sala. De onde ouvimos um barulho.

Corre todo mundo de novo de volta pra sala, e lá estava a minha primeira bicicleta: uma Monark verde, aro 12, freio contrapedal. 

A emoção foi tão forte, a felicidade foi tão grande, que a sentirei para sempre, em todos os Natais que vieram e vierem. 

Hoje, acredito ainda mais em Papai Noel. Ele é tão importante, que cada um tem o seu. Eu tive, em todos os Natais da minha vida, um Papai Noel que, de longe ou perto, era sempre presente. 
A bicicleta passou, mas o meu Papai Noel viverá para sempre.


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RUBEM ALVES - Natal