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terça-feira, 22 de maio de 2012

HÉLIO SCHWARTSMAN - Toda forma de amor vale a pena

Aceito a provocação de meu colega João Pereira Coutinho e, já que Obama não vai fazê-lo, defendo hoje a poligamia e outras variações mais extravagantes do amor.

Tenho uma proposta que resolve de vez toda a novela em torno do casamento gay e questões correlatas: basta o Estado pular fora do ramo das núpcias e reconhecer apenas uniões civis, sejam elas entre homem e mulher, pares do mesmo sexo e as múltiplas possibilidades combinatórias.

O problema de fundo é que o casamento hoje reúne duas funções totalmente distintas: uma contratual, com consequências jurídicas, e outra de reconhecimento social, com implicações para o status das pessoas. Do ponto de vista do Estado, apenas a primeira, que envolve assuntos como sucessão, guarda de filhos e direitos previdenciários, tem relevância, mas é a segunda que responde pela maior parte das desavenças.

A dupla função tem razões históricas. Antigamente, o casamento funcionava como uma espécie de licença para fazer sexo e ter filhos. Só que, com a ampliação dos direitos individuais, que teve início em fins do século 18, essa função social se tornou anacrônica. Ao menos no Ocidente, o sexo consensual entre adultos é um direito inquestionável que independe de licença prévia. Eliminar a ambiguidade, fazendo com que o poder público se atenha aos aspectos jurídicos das uniões e deixando o casamento para instituições de direito privado, resolveria o "imbróglio".

Todos estariam livres para praticá-lo da forma que quisessem. Os católicos, por exemplo, continuariam a oferecê-lo só a pares heterossexuais e em caráter indissolúvel, enquanto a ABGLT poderia criar os rituais que desejasse para contemplar os homossexuais. Quanto aos polígamos, que mantêm um(a) ou mais amantes (o que não é ilegal, frise-se), desde que inventemos uma fórmula jurídica para não onerar demais a Previdência, também eles poderiam finalmente gozar das delícias do casamento.

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terça-feira, 15 de maio de 2012

HÉLIO SCHWARTSMAN - A mágica da realidade

Alguém já disse que livros infantis tratam as crianças como idiotas. Como já faz décadas que perdi o hábito de lê-los, eu não saberia dizer. O que posso afirmar é que, se a assertiva é verdadeira, ela acaba de ser desmentida pelo biólogo britânico Richard Dawkins.
Lançado recentemente no mundo anglófono, "The Magic of Reality" (a mágica da realidade) é uma introdução à ciência que leva a sério tanto as crianças como a epistemologia. Partindo daquelas perguntas que pais nunca sabemos responder, do tipo "quem foi a primeira pessoa?", "do que as coisas são feitas?", "como tudo começou?", o autor cobre os aspectos mais fundamentais da biologia, da físico-química, da astronomia e da geologia.
De quebra, Dawkins propõe discussões que ficam no limite entre a ciência e a filosofia, especulando sobre as chances de haver vida em outros planetas ou tentando explicar por que "coisas ruins" acontecem.
Em termos de estrutura narrativa, os capítulos começam com mitos que buscam tornar inteligível o fenômeno analisado e, quando os limites dessas historietas ficam escancarados, entra a ciência.
Quase tão fascinante quanto o texto de Dawkins são as ilustrações de Dave McKean, que, na versão eletrônica para iPad, ganham movimento. Há também alguns joguinhos. Nada muito sofisticado, mas serviram para atrair a atenção de meus filhos de nove anos, que logo se puseram a ler o livro com avidez.
É claro que Dawkins não seria Dawkins se não aproveitasse a ocasião para fazer um pouco de propaganda do ateísmo. Mas, ao menos na comparação com "Deus, um Delírio", ele está bastante bem-comportado. Não reserva palavrões para o Criador nem afirma que a religião é um mal.
O que o autor tenta mostrar ao longo do livro é que a realidade, isto é, a ciência, revela-se muito mais mágica e excitante que todos os mitos e religiões. É uma tese bastante razoável.

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sábado, 5 de maio de 2012

HÉLIO SCHWARTSMAN - O poder do consumidor

Vou falar do consumidor e do marketing.

Trago em meu auxílio a psicologia evolutiva, mais especificamente o livro "Darwin Vai às Compras", de Geof-frey Miller, que acaba de ganhar uma edição brasileira.

A tese central da obra é que o ser humano consome não apenas para satisfazer suas necessidades básicas mas também para exibir suas qualidades para o grupo, em especial para possíveis parceiros sexuais. Se eu uso um Rolex estupidamente caro, é porque tenho dinheiro o bastante para desperdiçá-lo com supérfluos, donde se depreende que sou rico, um sinal de minhas aptidões físicas ou intelectuais.

Esse pendor humano pelo consumo conspícuo alimenta o marketing, que, de acordo com Miller, está promovendo uma das mais importantes revoluções na história. Até as primeiras décadas do século 20, empresas fabricavam seus produtos e procuravam vendê-los. Faziam uma propagandazinha, no máximo. Mas, desde que o marketing se tornou uma força, as firmas passaram a dedicar grande parte de suas energias a tentar descobrir quais são os desejos de seus clientes e satisfazê-los.

É claro que nem tudo são flores na vida do consumidor. O marketing também encerra perigos. Ele nos impinge ilusões e nos leva a tomar decisões que podem ir contra nossos interesses. É falsa, por exemplo, a ideia de que o Rolex sinaliza nossas qualidades de maneira mais eficiente do que alguns minutos de conversa.

Essa mudança de foco da produção para o marketing, sustenta Miller, deslocou de forma inédita o poder de instituições para indivíduos. O paralelo é com a democracia. Ela, sem dúvida, fortalece o cidadão. Isso não significa, como já apontava Platão, que ele fará as escolhas certas. O poder, de todo modo, é pulverizado. 

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