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segunda-feira, 14 de maio de 2012

MÔNICA WALDVOGEL - Talismãs antimelancolia

Na gaveta da minha mesa de cabeceira há dois filmes de Frank Capra, uma fotografia da lua de mel em Veneza, um desenho cheio de borrões de guache com a inscrição “Mãe, eu te amo”, um disco de Billy Paul e as “Memórias de Emília”, de Monteiro Lobato. Esse conjunto de objetos compõem minha pequena coleção de salvaguardas para os dias sombrios, aqueles em que a tristeza encontra seu caminho através de um coração poroso para se instalar na córnea como um filtro sépia de Photoshop.

Talvez seja o outono, esta estação de meios-tons em que a melancolia espreita o quarto por detrás das cortinas. Vasculho a gaveta.

A lua de mel já é uma foto desbotada e as peripécias de Emília não me divertem mais como antes. Os filmes de Capra, de tantas vezes vistos, perderam o condão de ensinar que a felicidade não se compra e que da vida nada se leva. O amor de um filho que saiu de casa, reparei, tinge a alma com tonalidades nostálgicas. Ver o desenho da criança que começava a ensaiar as sílabas abre uma comporta de lembranças de mochila e lancheira, porta de escola e algazarra de recreio. Aperta o coração.

Talvez tenha chegado a hora de remontar o velho acervo de talismãs antimelancolia como faziam os antigos.

Se você já foi a Florença, na Itália, e visitou a Galeria dos Ofícios, deve ter se maravilhado com duas obras-primas de Botticelli: o “Nascimento de Vênus” e “Primavera”. Contam que um dos Médici, senhores da cidade, viveu afundado em profunda tristeza até que alguém teve a ideia de encomendar as duas pinturas para que o jovem se distraísse em sua contemplação. Os neoplatonistas de então achavam que admirar as sublimes possibilidades da arte elevavam o espírito dos humanos até o Criador para, assim, alcançar a verdadeira alegria. Não tenho informações sobre a cura da depressão do pequeno príncipe. Mas olhar as belas figuras deve ter sido um poderoso antídoto para as aulas maquiavélicas sobre como manter e ampliar os negócios e o poder da família. Pelo menos é esta a fantasia que inventei sem ter a menor ideia se Maquiavel e o jovem fidalgo foram contemporâneos .

Tudo o que é bom e belo pode nos levantar a alturas maiores que a da mediocridade habitual dos dias, esse espaçotempo que é onde, afinal de contas, acontece a vida da gente. Mas Vênus, Afrodite ou as três Graças, por si só, não me dizem grande coisa. Quando fecho os olhos para evocar uma imagem boa e bonita, me vêm uma praia na Bahia, o Corcovado num final de tarde, o contorno da Serra do Mar visto de uma varanda no litoral paulista. O que faz grudar uma imagem no mural das lembranças deve ser o afeto vivido no instante de seu registro, de modo que o estoque se apresenta à mente mais como um slide show fotográfico do que como um catálogo de museu.

Li em algum lugar que Johann Sebastian Bach, muito preocupado com a depressão de sua mulher, dedicou a ela um caderno com músicas compostas para afastar a tristeza. Entre elas há um célebre minueto, desses que fazem a gente marcar o ritmo com a cabeça tão logo começa a ouvi-lo.

Que presente gentil. Naquele tempo estava em voga uma certa Teoria dos Afetos, em que estudiosos preconizavam determinados padrões tonais e harmônicos para que as composições musicais ganhassem o efeito de produzir bem-estar no ouvinte. Não se sabia bem, então, se melancolia era resultado do desconforto da alma ou do fígado, das inquietações filosóficas dos muito sensíveis ou do mau funcionamento dos fluidos internos. O que se descobriu é que a boa música acalmava os inquietos.

Anna Magdalena guardou o caderno cheio de preciosidades com a anotação do marido na capa: Antimelancolia. O fac-símile do volume se vê facilmente pela internet, o que é mesmo formidável. Não bastasse a música genial, Bach ainda ofereceu à humanidade a fórmula mais requintada de antidepressivo jamais inventada.

Os talismãs antimelancolia que se ganham de presente são os mais eficazes, acredito eu. Por isso este que restou, o CD Billy Paul, está sendo catalogado como item número um do acervo a ser inaugurado. Foi um presente do meu filho, em homenagem à lembrança de um acontecido delicioso, muitos anos atrás, quando ele entrou no meu quarto enrolado numa tolha, cheio de animação, e perguntando: “Conhece essa música?”. ( Ele tinha o costume de tomar banho com o som nas alturas para desespero dos vizinhos.)

Puxa vida, eu já dançava essa música quando tinha a sua idade, garoto! Ele duvidou, claro, e eu comecei a cantar.

Ele se empolgou e começou a dançar. E então fizemos uma pequena festa no corredor.

Tãranran-tã-tã-tã. / Tãranran-tã-tã-tã / It’s a little be funny, Lord/ this feeling inside...
Vou ouvir isso já.

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quinta-feira, 10 de maio de 2012

MÔNICA WALDVOGEL – Escrúpulos

Num sábado de manhã, quando eu tinha uns catorze anos, meus pais me chamaram para acompanhá-los ao centro. À cidade, como se falava naquela época. Um convite que não fazia o menor sentido. A troco de quê tomar ônibus e metrô com meus pais para visitar meia dúzia de lojas sem o menor interesse? Nem pensar! Mas eles me obrigaram a ir.

Eu fui uma adolescente bem chatinha. Sendo a mais velha de cinco filhos, cabia a mim enfrentar a linha-dura lá de casa. Como não havia muito espaço para grandes transgressões, usava todas as oportunidades para deixar bem claro aos meus pais que eu não era como eles, não pensava como eles nem teria a vida deles. Uma típica rebelde de classe média.

Naqueles dias meu comportamento variava das pequenas hostilidades às grandes contestações verbais cuidadosamente anotadas num diário mal escondido para que, se encontrado, minha mãe pudesse ler e se magoar à vontade. Coisa que aconteceu, claro, e fez rolar muitas lágrimas.

Voltando àquele sábado. Eu estava num desses estados insuportáveis que, entre mil e uma razões, diziam respeito à sanha com que tentava domar meu cabelo farto, grosso e ondulado. Como então só se admitia o liso absoluto, eu acalentava um sonho: o secador de cabelos Arno que todas, todas as minhas amigas tinham.

Era um trambolhão de baixa potência. Fazia um barulho danado e vinha com um capuz de plástico munido de um tubo que se adaptava ao bocal do aparelho. Esquentava como o diabo. Levava umas três horas para o cabelo ficar seco sob a touca — se a orelha suportasse o calor — mas, com uma pilha de fotonovelas ao lado e a promessa do liso maravilhoso, quem se importava?

Meu pai não era um homem sensível para futilidades e feminilidades, tinha lá seus princípios pétreos. Ele equilibrava o orçamento familiar fazendo infindáveis horas extras com que pagava mensalidades de cinco bons colégios, material escolar de primeira, aulas de línguas e de música para as meninas. Vestido novo para festinha de aniversário e mesada para o cabeleireiro estavam fora de qualquer cogitação.

O fato é que até hoje não entendi a insistência de meus pais naquele passeio de sábado. Tenho certeza de que não havia uma surpresa programada porque perdi a conta de quantas vezes interroguei minha mãe. Ela sempre negou. O que sei mesmo é que fiquei num terrível emburramento, de cara feia, para deixar bem claro que nunca mais eles deveriam ter ideias ridículas.

Chegando ao centro, flanamos pra lá e pra cá procurando vitaminas para as crianças, um longplay de ópera, livros para os meninos. Eu estava morrendo de tédio. Perto da Praça da República, meus pais pararam para tomar um café. Enquanto aguardavam no balcão, saí andando pela calçada atraída pela vitrine de uma loja de eletrodomésticos e lá fiquei admirando o estojo cor-de-rosa em que se abrigava meu objeto de desejo.

“Por que você não compra o secador para ela?”, ouvi minha mãe atrás de mim.

“Vamos ver quanto custa”, respondeu meu pai.

Olhei incrédula para a imagem dos dois refletida no vidro. Poucos minutos mais tarde saíamos da loja
com um pacote desajeitado em direção ao ponto de ônibus.

Desemburrei, claro. Mas, em vez de eufórica e agradecida, estava constrangida. Consternada é uma palavra melhor. “Que foi?”, perguntou meu pai, “não ficou contente?” Devo ter encolhido os ombros procurando o que dizer. Decidi ser sincera.

“Por que ganhei esse presente afinal? Eu estava chata, aborrecida, desagradável, não merecia. Fiz de tudo para estragar o passeio e, no final, ganhei o secador que eu tanto queria!”

Meu pai sorriu. “Sabe o que quer dizer a palavra ‘escrúpulo’?”. Era uma das manias que ele tinha que eu mais detestava: para toda palavra, uma origem histórica e um significado ancestral. Por que não ir diretamente ao ponto?

“Vem do latim. Quer dizer ‘pedrinha’. Escrúpulos são pedregulhos que a gente leva no sapato, no bolso, no coração e que atrapalham a caminhada e deixam a vida mais pesada. Jogue fora esses escrúpulos, não servem para nada. Se sua mãe achou que você deveria ganhar o secador, alguma razão ela tem.”

Entendi.

Cheguei em casa e joguei o último escrúpulo que eu tinha no lixo. Junto com meu diário.