Mostrando postagens com marcador Orelha não tem pálpebra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Orelha não tem pálpebra. Mostrar todas as postagens

sábado, 23 de fevereiro de 2013

FERNANDA TORRES - Orelha não tem pálpebra

 
Tenho horror a barulho. Só consigo raciocinar com a casa em silêncio. Até a música me incomoda, um traço de personalidade do qual não guardo o menor orgulho.

E não há nada que me enerve mais do que o volume abrupto do horário comercial e das chamadas da programação de TV. Os cling, cong, pãpãpãs e tátátátás. Sou o gatilho mais rápido do oeste para acionar o botão do mute. Sei de cor sua localização nos mais diversos controles remotos e gostaria de dar um prêmio ao gênio que inventou o atalho.

Assim como 80% da audiência nacional, acompanhei de boca aberta a saga de Carminha e cia., haja maldade humana, mas toda vez que o oi, oi, oi, oi… gane, anunciando o intervalo, minha espinha se eriça e o dedo corre para o botãozinho analgésico.

Conjecturei com meu esposo a respeito desse ataque-surpresa ao ouvinte desavisado e ele me explicou que a prática tem um nome: stopping power. Trata-se da capacidade que um reclame, ou inserção que seja, tem de prender a atenção do desatento. O objetivo é evitar que o ser humano vá até a cozinha, ao banheiro, brinque de boneca, leia, converse e se esqueça de olhar a TV.

Consultei o oráculo. A Wikipédia afirma que a origem do termo é bélica. Stopping power “representa o poder que um calibre de arma de fogo possui para pôr fora de combate um oponente atingido com um único disparo, preferencialmente sem necessidade de matá-lo”. Curioso que a expressão tenha sido adotada pelo entretenimento e pela propaganda e que a vítima dos cucunssss, quequéuns, plunct, plact e zooms seja o espectador.

O som é o mais invasivo dos sentidos, orelha não tem pálpebra.

O plim-plim da Globo é agudo e penetra nos tímpanos até as zonas mais primitivas do cerebelo, mas não deixa de soar gentil.
A onda de cinema apocalíptico da virada do milênio, com títulos como Armageddon, Vulcano e 2012, causou a surdez precoce em muita gente. Do meio dessas películas para o fim, as cenas se desdobram em explosões e cataclismos naturais, incêndios e colisões impulsionadas pelo vigor dos decibéis THX. O subwoofer embrulha o estômago, o chão treme, os estalos colam a gente na cadeira e, em vez de encontrar no cinema uma forma de elevação, o prazer vem da força desorientadora que chacoalha a razão.

A maioria dos filmes de hoje se compara mais a uma montanha-russa do que a um livro ou uma peça de teatro. Gosto de 007, Missão Impossível e Duro de Matar, mas desisti dos de guerra, de super-heróis e dos sobre o fim do mundo. Esses só me causam alívio quando terminam. Em alguns casos, apenas o Dramin dá fim à zonzeira. O THX tem muito a ver com isso.

O stopping power é um desafio para a internet. A publicidade estuda formas de impor sua presença na rede, o que é com­preen­sível, mas esbarra no caráter independente do usuário de computador. A solução mais agressiva é a das janelas que tomam a página desejada sem pedir licença. Enquanto o mouse não encontra o minúsculo xizinho para encerrar a tortura, o jingle se alastra pelo ambiente. Confesso que me recordo involuntariamente dos anúncios que me foram impostos dessa maneira; o que não sei é se a deselegância agrega uma boa imagem à marca que se vale de tão baixo artifício.

Os filmetes de internet dirigidos por Polanski e Scorsese para a Prada e para uma marca de espumante espanhol são dois grandes exemplos de como conquistar seguidores e não ser grosseiro. Clássicos, inteligentes, irônicos e bem filmados à beça, eles têm uma estratégia de lançamento requintada e silenciosa. Como uma mulher sedutora, os curtas exigem que a gente os procure, deseje, queira ver, e não o contrário. Não há nada pior do que mulher atirada, barulhenta e espaçosa.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

FERNANDA TORRES - Orelha não tem pálpebra

Tenho horror a barulho. Só consigo raciocinar com a casa em silêncio. 

Até a música me incomoda, um traço de personalidade do qual não guardo o menor orgulho.
E não há nada que me enerve mais do que o volume abrupto do horário comercial e das chamadas da programação de TV. Os cling, cong, pãpãpãs e tátátátás. Sou o gatilho mais rápido do oeste para acionar o botão do mute. Sei de cor sua localização nos mais diversos controles remotos e gostaria de dar um prêmio ao gênio que inventou o atalho.

Assim como 80% da audiência nacional, acompanhei de boca aberta a saga de Carminha e cia., haja maldade humana, mas toda vez que o oi, oi, oi, oi… gane, anunciando o intervalo, minha espinha se eriça e o dedo corre para o botãozinho analgésico.

Conjecturei com meu esposo a respeito desse ataque-surpresa ao ouvinte desavisado e ele me explicou que a prática tem um nome: stopping power. Trata-se da capacidade que um reclame, ou inserção que seja, tem de prender a atenção do desatento. O objetivo é evitar que o ser humano vá até a cozinha, ao banheiro, brinque de boneca, leia, converse e se esqueça de olhar a TV.

Consultei o oráculo. A Wikipédia afirma que a origem do termo é bélica. Stopping power “representa o poder que um calibre de arma de fogo possui para pôr fora de combate um oponente atingido com um único disparo, preferencialmente sem necessidade de matá-lo”. Curioso que a expressão tenha sido adotada pelo entretenimento e pela propaganda e que a vítima dos cucunssss, quequéuns, plunct, plact e zooms seja o espectador.

O som é o mais invasivo dos sentidos, orelha não tem pálpebra.

O plim-plim da Globo é agudo e penetra nos tímpanos até as zonas mais primitivas do cerebelo, mas não deixa de soar gentil.
A onda de cinema apocalíptico da virada do milênio, com títulos como Armageddon, Vulcano e 2012, causou a surdez precoce em muita gente. Do meio dessas películas para o fim, as cenas se desdobram em explosões e cataclismos naturais, incêndios e colisões impulsionadas pelo vigor dos decibéis THX. O subwoofer embrulha o estômago, o chão treme, os estalos colam a gente na cadeira e, em vez de encontrar no cinema uma forma de elevação, o prazer vem da força desorientadora que chacoalha a razão.

A maioria dos filmes de hoje se compara mais a uma montanha-russa do que a um livro ou uma peça de teatro. Gosto de 007, Missão Impossível e Duro de Matar, mas desisti dos de guerra, de super-heróis e dos sobre o fim do mundo. Esses só me causam alívio quando terminam. Em alguns casos, apenas o Dramin dá fim à zonzeira.

O THX tem muito a ver com isso.

O stopping power é um desafio para a internet. A publicidade estuda formas de impor sua presença na rede, o que é com­preen­sível, mas esbarra no caráter independente do usuário de computador. A solução mais agressiva é a das janelas que tomam a página desejada sem pedir licença. Enquanto o mouse não encontra o minúsculo xizinho para encerrar a tortura, o jingle se alastra pelo ambiente. Confesso que me recordo involuntariamente dos anúncios que me foram impostos dessa maneira; o que não sei é se a deselegância agrega uma boa imagem à marca que se vale de tão baixo artifício.

Os filmetes de internet dirigidos por Polanski e Scorsese para a Prada e para uma marca de espumante espanhol são dois grandes exemplos de como conquistar seguidores e não ser grosseiro. Clássicos, inteligentes, irônicos e bem filmados à beça, eles têm uma estratégia de lançamento requintada e silenciosa. Como uma mulher sedutora, os curtas exigem que a gente os procure, deseje, queira ver, e não o contrário. Não há nada pior do que mulher atirada, barulhenta e espaçosa.

 Subscribe in a reader