Mostrando postagens com marcador televisão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador televisão. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

CHICO ANYSIO - SILÊNCIO, HOSPITAL!

Nos primeiros tempos de casamento ele aparentava uma saúde de ferro mas, de uns anos pra cá, mostrava-se tão frágil, tão suscetível às doenças, que Dona Belinha, sua esposa, intranqüilizava-se cada vez mais.
— Qualquer coisinha o Pirilo hospitaliza-se — choramingava às amigas. — Tão frágil, tão doentinho...
E assim era. Por um simples sintoma de gripe ou resfriado, o Pirilo pegava um pijama, escova de dentes, pente e chinelos, metia-os numa maleta branca e hospitalizava-se.
— O que é que você tem, Pirilo? — perguntava a esposa preocupada, vendo o marido fazer a mala para mais uma ida à casa de saúde.
— Nada, minha velha.
— E se não tem nada, por que você vai para o hospital, Pirilo? — insistia Dona Belinha, mais preocupada do que nunca.
— Com saúde não se facilita. Não tenho nada agora, mas estou esperando uma gripe de uma hora para outra.
E se internava por quatro, cinco dias. Proibia as visitas e não aceitava flores ou maçãs. "Se eu morrer, não quero ninguém no velório. Na doença e na morte, longe os parentes", era a teoria que defendia e a que a família obedecia.
— Chama-se isso de hipocondria — explicou um médico a quem Dona Belinha secretamente visitou:
— Hipocondria?
— É uma ansiedade habitual relativa à própria saúde — decifrava o médico. — É muito comum, um caso assim. Há pessoas que não vivem sem tomar remédio. Seu marido é um caso desses. Só que em estado mais grave, porque ele chega a ir para o hospital. Mas não se preocupe. Os hipocondríacos são os que vivem mais.
— Isso pega, doutor? — inquiriu Dona Belinha, quase desejando que sim, para poder acompanhar o marido, de quem sentia muita falta, durante os dias de nosocômio.
— Pegar, não digo, mas quem convive com um hipocondríaco, sendo de espírito fraco, pode-se contagiar por esta mania.
E ela muito rezava e pedia que lhe fosse dado este contágio.
— Belinha, traz a mala.
— Pra onde você vai, Pirilo?
— Vou-me hospitalizar.
— O que é que você está sentindo?
— Hoje, fazendo as unhas, tirei sangue da cutícula. Isso pode infeccionar, dar tétano, gangrenar, sei lá. Com saúde não se brinca.
E, de mala branca na mão e infalível chapéu preto à cabeça, lá ia o Pirilo para o Hospital dos Estrangeiros, onde tinha conta corrente (pagava por semestre) e apartamento quase fixo.
— O apartamento de sempre, Sr. Pirilo? perguntava a enfermeira, como se aquilo fosse um hotel.
— Não. Desta vez quero um no terceiro andar, com vista para a encosta.
E por uma semana, muitas vezes, curtia o seu hospitalzinho, de camisola e tudo, com exames de pressão arterial, termômetros sob a axila, colheita de urina, sangue, fezes, escarro, etc. Uma semana depois, sentindo-se recuperado, voltava ao seio da família, dizendo-se outro homem.
Ao mesmo tempo em que os filhos cresciam, desenvolvia-se a hipocondria do Pirilo, que se internou pelos motivos mais burlescos, de tão banais: furúnculo, cisco no olho, mau jeito no braço, aerofagia, topada.
A conselho médico a mulher nem tocava mais no assunto, tentando meter na cabeça do marido que ele não sofria de coisa alguma ("Isso pode piorar, porque ele fica irritado e..."). Ao ver Pirilo chegar e entrar em casa sem tirar o chapéu preto, a mulher já sabia que era caso de hospital. E, por conta própria (disso o médico não teve culpa), já até colaborava com a hipocondria do marido.
— Não está passando bem, Pirilo?
— Ainda bem que você notou. Hoje arrotei duas vezes, depois de tomar uma Coca-Cola. Faz a mala.
E o pijama, com pente, chinelo e escova de dentes, era enfiado na mala branca que Pirilo conduzia ao Hospital dos Estrangeiros, onde era mais conhecido do que muitos dos médicos que lá operavam ou davam plantão.
— Terceiro andar, para a encosta?
— Segundo andar, de frente.
— 214 — informava a enfermeira, dando-lhe a chave.
Tantas foram as vezes que Pirilo se internou que, ultimamente, já ia sozinho da portaria para o quarto. Ir uma enfermeira com ele para quê, se ele conhecia os corredores e apartamentos mais do que a maioria delas? De hospital, ele dava aula. E era um custo para aceitar a alta do médico.
— Pode ir embora hoje, Sr. Pirilo.
— De jeito nenhum. Antes de quinta-feira ninguém me tira daqui.
— Mas o senhor já está bom. Os gases...
— Os gases acabaram, mas... e essa unhazinha?
— Que tem a unha? — perguntava o médico, segurando-lhe a falange do pé que Pirilo lhe exibia.
— Repare na unha, veja bem.
— Está bem.
— Ora, doutor, enganar ao Pirilinho? A unha está encrava, não encrava. Antes de quinta-feira eu não saio, a não ser que a unha se resolva.
De tanto Pirilo se ausentar para os hospitais, apareceu um arquiteto desquitado com ótimos planos e projetos para Dona Belinha com os quais ela concordou, de tanta distância que já sentia do marido hipocondríaco.
Saiu ganhando, pois amava agora um homem formado, enquanto Pirilo continuava amante de uma ajudante de enfermeira do Hospital dos Estrangeiros, que um dia dava plantão no terceiro andar, de frente para a encosta, no outro dia no segundo andar, de frente para a frente...
Os hipocondríacos merecem cuidados!
Chico Anysio

 Subscribe in a reader

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

CASA DO SABER - Exibição do documentário BUDRUS + DEBATE C/ DIRETORA JÚLIA BACHA - GRÁTIS


Budrus

Exibição do documentário e bate-papo com:

Julia Bacha, Bernardo Sorj e Murilo Soede.

Moderação: Michel Gherman




A CASA DO SABER RIO e a Copacabana Filmes convidam para a exibição do documentário Budrus, dirigido e produzido por Julia Bacha. Em seguida, a diretora conversa com o sociólogo Bernardo Sorj e o historiador Murilo Soede, num bate-papo moderado pelo historiador Michel Gherman. Com mais de 15 prêmios internacionais, o longa-metragem retrata a resistência pacífica do vilarejo palestino Budrus, situado na fronteira entre a Cisjordânia e Israel. Em 2003, Budrus ocupou as manchetes ao ser palco de um inusitado protesto não-violento. A causa foi o anúncio da construção de um muro pelos israelenses que destruiria oliveiras históricas e economicamente importantes para a comunidade. Ayed Morrar e sua filha Iltezam estavam à frente do movimento, que conseguiu unir facções palestinas rivais, como o Fatah e o Hamas, e judeus progressistas. Ouvindo os lados envolvidos, a cineasta Julia Bacha monta um amplo painel de uma situação explosiva no Oriente Médio que encontrou solução por via pacífica.

Dia 21 de outubro, sexta-feira, às 19h30
Evento gratuito – Vagas limitadas
Inscrições pelo telefone (21) 2227-2237
Av. Epitácio Pessoa 1.164 Lagoa

Julia Bacha
Brasileira radicada em Nova York, é produtora sênior e diretora de mídia na Just Vision. Estudou história e política do Oriente Médio na Universidade Columbia. Escreveu, dirigiu e editou filmes exibidos e premiados nos festivais de cinema de Sundance, Tribeca, Berlim, Jerusalém e Dubai, entre os quais os documentários Encounter Point e Control Room.

Michel Gherman
Historiador. Professor de história Judaica e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos judaicos da UFRJ

Bernardo Sorj
Sociólogo. Professor titular aposentado da UFRJ e diretor do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais e do Projeto Plataforma Democrática.
Murilo Soede
Historiador. Pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa.

 Subscribe in a reader