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quinta-feira, 14 de novembro de 2013
CAETANO VELOSO - AO VIVO - Sozinho
sábado, 26 de outubro de 2013
CAETANO VELOSO - ao vivo - Mimar você
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domingo, 14 de abril de 2013
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
CAETANO VELOSO - Nomes
Hoje ouvi um locutor da FM O Dia dizer que um ouvinte com quem dialogava iria dar um alozaço para todos os outros ouvintes que seguiam o programa. Esse alô ampliado ecoava o Abraçaço do título de meu disco novo aos meus ouvidos. Mas evidentemente não tinha vindo daí. Ao contrário, o locutor usou o sufixo com a espontaneidade do hábito e eu seria capaz de afirmar que, pelo ritmo da aparição da expressão em sua fala (e pela ausência total de autoconsciência depois de proferida a palavra), ele não tinha sequer conhecimento da existência do meu CD.
Para mim, era a glória: comprovava-se a abrangência do uso desse aumentativo. Como neguinho, que usei numa canção que fiz para o disco de Gal, gosto muito menos de ouvir ou ler abraçaço como se fosse invenção minha (ou uso que dá à expressão habitual um sentido especial) do que de reencontrar o fenômeno em estado puro. Ouço pessoas dizerem neguinho ao referir-se a um sujeito indeterminado, sem nem se lembrarem ou saberem que há aquela canção e fico feliz. Alozaço foi até mais longe do que eu esperaria. Golaço, jogaço e filmaço são as aparições mais frequentes. Mas ouço muito cansadaço e atrasadaço não tão raras vezes.
Em espanhol usa-se o azo com, no mínimo, igual liberalidade. Uma conhecida minha, uruguaia, me lembrou que muitas vezes esse sufixo indica fatos políticos pesados e nada alegres: no Chile, fala-se do golpe de 11 de setembro como o Pinochetazo etc. Na biografia de Marighella de Mário Magalhães encontrei o sufixo caracterizando um ato político dos anos 30 ou 40, não me lembro agora qual (há anos me prometo passar a fazer anotações nas páginas dos livros que leio, mas a ilusão de que minha memória é a mesma de quando eu tinha 19 ou 23 anos não me abandona quando me deparo com algo que quero guardar para citar embora já faça muito tempo que já não tenho 23 e muito menos 19 anos).
Falando de Marighella, na canção que fiz sobre ele chamo-o apenas de um mulato baiano, sem nunca mencionar-lhe o nome. Impressionou-me ler, no mesmo livro de Magalhães, que, ao ser perguntado por uma moça que se registrava no Partido Comunista quem era ele afinal (o narrador não diz o que levou a moça, aliás uma poeta, de nome Ana Montenegro, a fazer a pergunta), Marighella respondeu: Sou um mulato baiano. Ler isso foi como ouvir o alozaço do rádio hoje.
Claro que Marighella era baiano e era mulato (embora esse segundo atributo não fosse muito mencionado no fim dos anos 1960, quando me familiarizei com seu nome), mas que ele tivesse preferido identificar-se assim em vez de pelo nome é algo que só comparo à surpresa que foi ver o adjetivo clara surgir, por força da ideia e da rima, no final de um verso da mesma canção: logo depois de cantá-la (ainda preenchendo com palavras a repetitiva melodia) me dei conta de que a mulher dele se chamava Clara.
Achei tão bonito que o nome tivesse vindo assim, sem que eu planejasse, que logo precisei enumerar nomes femininos para frisar o sentido de nome próprio do adjetivo surgido (e a alegria de ter sido surpreendido por isso). E os nomes de mulher que precisei citar se mostraram logo referentes às grandes figuras femininas das religiões. Iemanjá, Maria, Iara, me pareceu abranger tudo o que precisava ser dito, as três raças (tristes?) representadas em boa rima e boa métrica inclusive com o final do nome de Maria ecoando no começo do de Iara.
Mas o verso me excitou tanto que mais ideias vieram à minha cabeça e eu quis incluir o Islã e o judaísmo. Iansã veio fazer par com Iemanjá (e dar superioridade numérica às deusas africanas) porque precisei invocar Cadija e Sara. O que me arrepiou foi que Isa Grinspun Ferraz, sobrinha de Clara Charf, que dirigiu o filme sobre o guerrilheiro, me disse que as duas irmãs de Clara se chamam Iara e Sara (esta última sendo a mãe da cineasta).
Canções nascem de muitos fatores. Um abraçaço talvez tenha nascido da palavra (embora tenha ido para longe dela, em seu tom melancólico). Um comunista nasceu do sonho de Jorge Amado de erguer um monumento a Marighella, da minha vontade de entender as posições que tomamos no leque político (para o que a crítica de Schwarz a meu Verdade tropical contribuiu), da necessidade de liberdade de tratar de assuntos que se nos impõem em formas que supúnhamos abandonadas. Meu desejo é que tudo isso possa contribuir para que aprendamos a manter a calma em momentos complexos, ricos e perigosos, como talvez sejam os dias que atravessamos. O Brasil tem podido não recair no populismo latino-americano antigo. Que possa driblar, com o charme que FH e Lula souberam demonstrar, solavancos sociais.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
CAETANO VELOSO – Auto-Tune
O poder de interferir digitalmente na imagem
(e no som) mudou o sentido do retoque.
Auto-Tune é um processador, um plug-in, que você usa para afinar uma voz ou um instrumento numa gravação. É um manipulador de pitch, altura (não no sentido popular de “volume” mas no propriamente musical de subida ou descida entre sons graves e agudos). Uma vez comparei o uso do Auto-Tune ao do Photoshop, e Fernando Salem não gostou da comparação. Eu estava tentando explicar o mal-estar que tendemos a sentir quando percebemos que uma voz afinadíssima num CD foi tratada com essa ferramenta e, além de notar falsidade na lisura da nota e mudança no timbre da voz, ficar triste por não poder mais estar seguro a respeito de um cantor novo quanto a sua capacidade musical. (Meu filho Zeca me mostrou no You- Tube uma cantora pop americana que soava afinadíssima no clipe da gravação de estúdio e muito desafinada numa apresentação ao vivo.)
O Photoshop não nos deixa seguros quanto à situação real da pele ou dos músculos de uma pessoa fotografada — para dizer o mínimo. Houve um caso em que a “Economist” retirou alguém de perto de Obama numa foto de capa (era uma dessas capas simbólicas que a “Time” popularizou, e não uma informação jornalística, mas deu discussão). Nos perguntamos que uso Stalin faria da manipulação de fotos com tamanha precisão e poder de convencimento.
Salem relembra os retoques e as adições de cor tão populares em retratos de família feitos para pôr na parede das casas. Eu completaria lembrando que as imagens das estrelas nas capas e páginas das revistas que líamos em nossa infância não estavam isentas de intervenções. Os retoques eram mais perceptíveis à primeira vista — esta é a única diferença entre os tratamentos de imagem de uma “Fatos e Fotos” e do perfeito sumiço das celulites em retratos de supermodels em revistas atuais. O poder de interferir digitalmente na imagem (e no som) mudou o sentido do retoque.
O Auto-Tune (como o Melodine e outros congêneres) também tem seus antepassados. A edição de trechos (mesmo sílabas) mais afinados, criando uma performance toda correta a partir de muitos pedaços de outras cheias de defeitos é apenas um exemplo. Mas quero ir mais longe aqui. A ideia é considerar o advento do Auto-Tune como algo semelhante ao advento do microfone elétrico. Não só Cher e T-Pain — mais Kanye West e tantos seguidores — mostram que pode haver um “cantar bem” que já conta com esse tipo de plug-in: ouvindo o jovem James Blake utilizar ferramentas de manipulação de pitch em números ao vivo (sim, mesmo entre cantores convencionais já faz tempo que se usa também ao vivo corretores de afinação, com resultados variados), percebemos que um uso artístico, propriamente musical, pode ser atingido nas relações entre o modo de cantar e o manuseio dos efeitos que essas ferramentas oferecem. Os critérios de julgamento da capacidade de cantar mudam com as novas tecnologias. Como mudaram quando microfones sensíveis deixaram para trás a necessidade de potência vocal. Quando eu era menino — e apesar da existência de Mário Reis — ainda era valor estético exigível que o cantor tivesse uma voz grande. Eu disse valor estético. Não era uma mera medição de potência vocal. Cantar bem significava poder e saber projetar intensamente a voz.
As gravações de Noel Rosa, de Cole Porter ou de Ary Barroso cantando eram acolhidas como documentos, não como performances que valessem por si mesmas. Mário Reis foi o primeiro a levar às últimas consequências o uso do microfone elétrico entre nós. Talvez seja um pioneiro mundial. Mesmo Chet Baker foi considerado um mau cantor por seus pares americanos. João Gilberto criou um estilo intrincado e tão rico a partir do uso mínimo da voz que praticamente encerrou o assunto. Mesmo assim, encontrou muita resistência entre críticos, colegas e, sobretudo, divulgadores de gravadoras.
Eu não conhecia James Blake. A bem dizer, ainda não conheço. Mas meu amigo Duda me mandou um link para uma apresentação dele no festival do Pitchfork, e eu fui olhar mais dois exemplos no YouTube. Ele usa manipuladores de altura em combinação com as intenções da emissão vocal de um modo tão sofisticado que parece ter dado um passo interessante nessa discussão.
É sabido que alguns cantores americanos fizeram questão de explicitar na contracapa de seus discos que não havia uso de nenhum artifício para afinar seus gorgeios. Outros o superexpõem. A sensação de que o uso pode ter resultados opostos ao pretendido, ou seja, fazer parecer que alguém canta bem, a gente pode ter ouvindo algumas gravações brasileiras em que o truque é usado mas o material inicial não é congenial a ele. Há uma canção que escrevi para Gal cantar que trata de modo oblíquo desse assunto, no novo disco. Passamos por todas as etapas sobre as quais falei acima durante a pós-produção da faixa. Resolvemos por deixar a voz dela sem o retoque, enquanto canta exatamente a respeito do assunto, e usamos o artifício — de modo ostensivo — apenas quando ela cantarola improvisadamente, sem palavras. E nesse uso, deixamos aparecer tanto a graça que pode advir de processos como esse quanto a relativa inadequação que pode haver entre certos estilos e sua utilização.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
CAETANO VELOSO - Descarrego
Quando cheguei ao Rio com Bethânia, no final de 1964, começo de 1965, eu vinha do Méier para a Siqueira Campos, onde ficava o Teatro de Arena, que passou a se chamar Opinião por causa do espetáculo do qual minha irmã tinha sido convidada para participar, e, depois da função, íamos ao Cervantes, ao Zicartola e à Estudantina. A Estudantina Musical, gafieira que deveria ser estudada em close reading pela Liv Sovik (para livrá-la de vez do preconceito racialista), existe desde os anos 1920, hoje na Praça Tiradentes. Toda vez que volto lá entro no mesmo estado de espírito que experimentei pela primeira vez naquela época. Uma alegria da festa (coisa essencial para mim) em situação peculiar. Era como os bailes do Apolo em Santo Amaro — ou os que periodicamente aconteciam na quadra de esporte do ginásio Theodoro Sampaio —, só que com a regularidade diária de um bar e com a cultura da dança ornamental de casal enlaçado desenvolvida ao nível do virtuosismo.
Não que não tentássemos algo disso no Apolo ou no ginásio, mas na Estudantina o desenvolvimento da tradição alimentada no tango (o samba e o tango da voz e da história de Carmen Miranda) é levado ao máximo. Os ornamentos feitos com o corpo que o tango cultivou, adaptados — via maxixe — ao ritmo do samba (e à informalidade brasileira), produzem no ambiente uma felicidade que as casas de tango de Buenos Aires — muito mais sérias e estáveis, respeitáveis e mundialmente reconhecidas — não conhecem. A Estudantina é, por essas e outras muitas razões, um elemento crucial na amarração da cultura carioca. Ela sustenta hábitos, estilos e gostos essenciais para a cultura da Cidade dos Brasileiros (como João Gilberto chama o Rio), em áreas geográficas do seu perímetro urbano (e em áreas mentais de seus habitantes) onde muitas vezes nem seu nome é conhecido.
Pois bem. Dizem-me que a Estudantina está para fechar. Dependendo de um tombamento que passa pela prefeitura. O prefeito Eduardo Paes poderia agir no sentido de, no fim do seu mandato (e no desejo de estendê-lo), ligar seu nome e sua energia a um núcleo da vida carioca. Essas coisas são mais fortes do que macumba ou sessão de descarrego de igreja evangélica: ter seu nome ligado à salvação de algo tão central ao significado do Rio pode dar superpoderes ao atual prefeito, dignificando sua passagem pelo posto, se não garantindo sua reeleição no segundo turno contra Freixo (sim, o Ex-Blog do Cesar Maia explica que isso está por acontecer, embora, é claro, ele não cite Freixo nominalmente).
__________
Em “À beira do caminho” a visão da geografia brasileira corresponde à profundidade do ator João Miguel. As estradas, as chapadas, as caatingas, os serrados, os rios, as pontes, as entradas das cidades (inclusive, talvez principalmente, a de São Paulo) dizem mais do que paisagens costumam dizer em filmes bem fotografados: vão no fundo da alma e revelam um país que ainda estamos aprendendo a ver. Dira Paes já é uma instituição nacional. E nós a amamos com a atenção exigida não só por seu talento mas também pela sua sensatez. Ludmila Rosa encanta e convence. Mas são as cenas em que João Miguel dialoga com Vinicius Nascimento que refletem a força das locações. Que tenha sido “A distância” a primeira canção de Roberto a ser ouvida no filme me emociona de um modo complexo e que serve para sustentar o sentido de todas as outras (tantas!) intervenções musicais que se dão ao longo da história. Porque para mim, em primeiro lugar, essa canção está fortemente ligada ao grande cinema, já que foi a mesma escolhida por Visconti para a cena crucial de “Violência e paixão”. São conversas internas do cinema consigo mesmo, segredos, que, quando caem em meus ouvidos, me fazem chorar mais do que os lances sentimentais de qualquer trama. As moças choravam quando esses lances surgiam. Mas eu já estava chorando desde bem antes — por essas razões estranhas — e na verdade tinha de parar de chorar para atentar ao drama.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
CAETANO VELOSO – Verdade
Como me ensinou meu pai:
pior do que um comunista é um anticomunista.
Tinha tido a impressão de que este jornal quis tirar onda com a minha cara. No domingo passado, ao anunciar, na primeira página, o que o leitor encontraria aqui na coluna, os editores disseram que eu teria “adoração” por Marcelo Freixo. Achei estranho. Sempre essas chamadas vêm com ideias expressas no meu texto. Por que dessa vez houve um distanciamento? Ali se dizia, literalmente, que eu estava entre a lucidez de Fernanda Torres e a adoração pelo pré-candidato. Será que dei mesmo lugar a que se escrevesse isso? — me perguntei. E pensei: há algo errado. Nada em meu texto permitia que se usasse a palavra “adoração”. E esta palavra desqualificava quaisquer observações objetivas que porventura eu tentasse desenvolver.
Minha adesão à ideia de uma candidatura de Freixo à Prefeitura do Rio é explicitada, inclusive com a afirmação de que sou “100% Freixo”. Todas as vezes em que, ao se avizinharem eleições, senti que um candidato representaria um movimento forte no sentido do encaminhamento político que vislumbro para o Brasil, declarei meu voto sem margem para dúvidas. Ao contrário do que querem fazer crer meus maus imitadores, não vivo dizendo “ou não”. Tal definição de posições tão específicas não podia ser tachada de “adoração” por essa ou aquela personalidade pública. Ao apoiar uma possível candidatura tão desamparada pelo dinheiro, pelos esquemas existentes, pelos donos do poder, não pude deixar de achar suspeita uma tirada como essa do GLOBO. Cheguei mesmo a formular que nenhum jornalista poderia fingir para si mesmo que o uso da palavra “adoração” não teria, no contexto, o papel destrutivo que detectei. Mas me esqueci de outra verdade sobre a vida diária dos jornais: a correria, que pode levar a mal-entendidos. Não é preciso ser um paranoico clássico para atribuir intencionalidade a coisas que chegam às rotativas por acidente ou falta de tempo. Relendo o que já tinha escrito, me vi (depois de alertado por amigos e por jornalistas em quem não tenho por que não confiar) como um articulista algo mimado e temperamental. Na verdade, a frase inicial me veio junto com a lembrança de Paulo Francis escrevendo na “Folha” em resposta ao então ombudsman daquele jornal. (Não reli tal texto na publicação de uma nova antologia de Francis: como disse, ainda não li nenhuma dessas coletâneas de coisas dele, prometo fazê-lo uma hora dessas. A frase — que era, mais ou menos, “Tenho a impressão de que Caio Tulio passou a mão na minha cabeça” — reveio de memória.) E, embora aquele jornalista tenha me influenciado desde a adolescência — e eu não deixe de perceber sua presença aqui em meus escritos —, eu acabei por considerá-lo um autor mimado e dado a chiliques, aspecto que não desejo emular.
Eu teria declarado essa intenção de voto com a mesma firmeza de qualquer maneira, mas meu artigo nasceu da leitura do texto de Fernanda Torres na “Folha de S. Paulo”. Sem este, talvez eu apenas informasse o leitor sobre minha decisão. Mas Nanda questionava a viabilidade de um candidato que supostamente despreza empresários. Como explicou o próprio Freixo no “Roda Viva”, não se trata de desprezar os empresários, mas sim de rechaçar o modo viciado como vêm se dando as relações entre políticos e o poder econômico. Ele crê que isso pode e deve mudar, enquanto não chega o financiamento público das campanhas. Dizem que ele crê em muitas coisas incríveis. Mas achavam incrível a criação de uma CPI das milícias e no entanto ela foi instaurada e puniu gente. Pergunta: alguém acha oportuno uma candidatura de oposição, quando o alinhamento entre prefeitura, estado e União funciona e quando a polícia entra em favelas para ficar em vez de invadir e abandonar? Resposta: Freixo é uma espécie de oposição que ajuda o que há de bom no governante a se livrar das arapucas em que se meteu. Além de ele não anunciar o desarme do que foi conseguido, a cidade capta o valor de um gesto que indica aumento de saúde social.
XXX
Contei no domingo passado que leio o Ex-Blog de Cesar Maia com proveito. Pois bem, esta semana li lá uma nota intitulada “Uma sugestão para a Comissão da Verdade: ver o filme ‘Cidadão Boilesen’”. Quero ver esse filme. A descrição que Maia oferece causa forte impressão. Quando estive preso, ouvi, no quartel da PE da Vila Militar, gritos de dor de torturados. O fato de me terem dito ali que provalvelmente se tratava de presos comuns, bandidos da Zona Norte, fez-me pensar na brutalidade da sociedade brasileira. Sempre penso que a Comissão da Verdade deveria desnudar o mundo da tortura, que tomou ares quase oficiais durante o governo militar, mas que é prática comum nas prisões e delegacias do país. Esse filme que Maia destaca conta como empresários e banqueiros financiaram a Oban (Operação Bandeirante, o centro de informações da ditadura, que torturava), sendo que Boilesen foi o mais entusiasmado deles: gostava de assistir pessoalmente às sessões de maus-tratos. Era um anticomunista. Como me ensinou meu pai: pior do que um comunista é um anticomunista.
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quinta-feira, 6 de setembro de 2012
CAETANO VELOSO - Frio no Rio
O arco-íris foi lindo, mas o desconforto que representa para mim ter que usar muitas camadas de roupa atrapalhou. Meu quarto fica de frente para o Oceano Atlântico, e as invisíveis frestas das janelas deixam entrar um incessante ar gelado. Sinto-me num cinema. Lugar onde vou para amar o que vejo e odiar a temperatura. Não sei se é por causa do aquecimento global, mas acho que os invernos cariocas têm começado cada vez mais tarde.
Fala-se muito do calor que se sofre no Rio (na verdade, por apenas um mês e meio ele se aproxima do insuportável, mas isso faz parte do período do ano que passo na Bahia). Meus amigos europeus ou argentinos, canadenses ou ameri- canos em geral dizem sofrer mais frio aqui do que em seus países de origem. Os que vão a Sampa ou Curitiba no nosso inverno então, nem se fala. É que, sendo um país oficialmente tropical, só recentemente começamos a fazer uso de algum tipo de aquecimento em recintos fechados. Na última vez que fui a Curitiba observei que o aeroporto de lá, novo, não tinha aquecimento. Ora, Curitiba tem temperaturas londrinas. Ninguém em Londres passa frio em táxis, shoppings ou aeroportos. De minha parte, passo frio aqui até no verão - às vezes principalmente no verão.
Por que cinemas e restaurantes têm de ser gelados? A gente vai a um lugar para ficar sentado por cerca de duas horas (hoje em dia, quase sempre por mais de duas horas, já que os filmes americanos são indefectivelmente mais longos do que precisam e do que merecem, exceção feita aos de Woody Allen, que continua escrevendo para a velha hora e meia dos filmes dos anos 1940), parado, calado - e a temperatura é sempre ridiculamente baixa. Há algo de muito brega nisso. É como milkshake grosso que não passa pelo canudo: se o cinema não estiver produzindo pneumonias em idosos (sou idoso) o freguês acha que não está sendo bem servido. Deveria haver um limite legal para isso.
Digamos: 24 graus. Para que ficar numa sala com 17 graus de temperatura? E que tristeza ter de levar, no calor, casacos grossos no braço e calçar meias de lã. O mesmo se dá (não com a mesma invariabilidade) em restaurantes. A gente carrega uma tralha de abrigos para aguentar ficar com uns amigos esperando um risoto de cogumelo. O risoto esquenta mais do que pipoca, mas ainda as- sim...
Cresci numa cidade quentíssima. Embora lá faça frio no inverno como não faz em Salvador, Santo Amaro, também diferentemente da capital, é um forno no verão. Mesmo assim, minha mãe dizia para eu não sair à noite sem um pulôver (ela usava a palavra) por causa do sereno - mesmo em janeiro. Aprendi a gostar de frio: em Sampa, Buenos Aires ou Porto Alegre, prefiro estar nas épocas frias. É que há charme na diferença. Mas prefiro o calor.
Quero dizer: nunca moraria em São Francisco, a cidade californiana onde nunca faz calor. Preciso ter o calor como base. Frio é curtição esporádica.
Mas com esses cinemas e restaurantes gélidos (hoje em dia também ônibus e táxis), dificilmente posso continuar de sandálias e camiseta se quiser sair de casa.
Nelson Rodrigues dizia ter certeza de que não se sentia calor quando ele era novo. Quando eu ainda era moderninho, as pessoas se queixavam bem menos de calor. Hoje, se não faz frio já começo a ouvir gente chiando das altas temperaturas. Já eu adoro poder levantar da cama e pôr o pé nu no chão nu. Quando não tenho tempo de curtir esse estado (e quase nunca tenho, já que saio quase todos os dias pouco depois de acordar), sinto falta. E vejo o frio cada vez mais se intrometendo na primavera. Mas estou na onda da primavera. Vou fazer esse show chamado "Primavera carioca" para o , qual convidei Chico Buarque. Até o ar-condicionado dos cinemas (me esqueci de falar nos teatros e casas de show, mas estes, em geral, não chegam à sibéria dos multiplexes) vai esquentar. Convenci Chico a fazer um número de violão. Será uma aparição única e especialíssima. O Trio Preto+1, de Pretinho da Serrinha e Companhia, expressará o calor em sua música. A maior parte do tempo estarei sozinho com meu violão, cantando coisas do Rio e outras. Tudo isso porque quero oferecer a renda desse espetáculo à campanha de Marcelo Freixo, que nunca aprovaria (desaprovou) a queima da bandeira de um país e cuja lei que reconhece o valor cultural dos bailes funk não desautoriza as leis de silêncio e outras.
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VÍDEO: DIANA KRALL - Show Completo - Live at Union Station
VÍDEO - NORAH JONES - Ao vivo - Don't Know Why
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sábado, 5 de maio de 2012
CAETANO VELOSO - Sobrevivendo no inferno
O que mais assombra nas euforias capitalistas é o irrealismo.
Por que a Nike lançou uma linha de tênis e camisetas com o nome de Mano Brown sem tomar a precaução de fazer um contrato com ele? Os produtos WFC Mano Brown estiveram, até faz pouco tempo, à venda em lojas da marca por todo o mundo e também na internet. A resposta é que a Nike não teme nenhumas consequências que possivelmente adviriam de um ato assim. Parece que, sobretudo num país como o Brasil, as grandes corporações agem como se não estivessem ligando muito para os direitos de indivíduos mais fracos do que elas. Digo sobretudo no Brasil porque me contam que aqui as indenizações são, por lei, calculadas a partir do poder aquisitivo de quem as recebe. Ou seja, a vítima de um uso abusivo de seu nome ou imagem será compensada de acordo com o lugar na pirâmide social que ela já ocupa: terá direito a muito se for rico; se for pobre ou remediado, terá direito a muito pouco ou a simplesmente pouco. Sendo assim, qual a empresa que fará cálculos levando em consideração a honra e a dignidade de quem quer que seja?
Mano Brown é uma referência para moradores de favelas por todo o Brasil; para músicos inteirados do que se passa na cultura popular contemporânea; para adolescentes de todas as classes sociais; para aspirantes a poetas. Chico Buarque já citou mais de uma vez o rap (ou o hip-hop em geral) como a verdadeira música de protesto do nosso tempo: não é feita por universitários bem nutridos que se comovem com o sofrimento dos excluídos, mas pelas próprias vítimas da exclusão. Os Racionais MCs, grupo de que Mano Brown é líder, representam o ápice da cultura hip-hop entre nós.
Nascido da importação de formas musicais jamaicanas por músicos do Bronx, em Nova York - não sem a referência da música eletrônica alemã do Kraftwerk, da disco music, da capoeira, dos discípulos de Marcel Marceau e dos filmes de Bruce Lee -, o hip-hop, disparado por Clive Campbell (Kool Herc) e Afrika Bambaataa, vem sendo, desde que se tornou amplamente conhecido, a partir do início dos anos 1980, a expressão mais acabada de uma mistura de nacionalismo negro com direito à visibilidade das camadas desfavorecidas. Como tal, nenhuma outra forma de arte popular ou de massas se lhe pode comparar em força internacional, superadora do modelo de distribuição que tem os Estados Unidos como centro gerador. Ainda é a vontade feladaputa de ser americano que (como, modéstia à parte, sinteticamente eu disse numa canção de homenagem a Raul Seixas) atrai jovens do mundo todo para o hip-hop, como já o fizera com o blues, o jazz, a canção da Broadway e o rock. Mas nenhum desses gêneros tinha no seu DNA (que quando eu era estudante ainda se chamava ADN) a impressão digital de criadores vindos de fora dos EUA. A Jamaica de onde veio, na memória de Campbell, a colagem de falas ao vivo com ritmos gravados, contribuiu no nascedouro, não com uma tradição primitiva a ser utilizada por americanos sofisticados, mas com uma nova formulação de elementos expressivos. Há um livro excelente sobre o assunto: "Infectious rhythm", de Barbara Browning. Assim, a ênfase no nacionalismo negro sobre o brasileiro - e a autodefinição de classe por sobre a de região ou nacionalidade - se dá de forma mais legitimada do que nunca. O álbum "Sobrevivendo no inferno", dos Racionais, é a obra-prima dessa experiência entre nós.
É por sua autenticidade e força poética que esse disco se coloca no centro do coração de tantos adolescentes desde que foi lançado, perto do final da década de 1990. De minha parte, como ponho, por programa, o sonho do Brasil acima de todos os outros elementos de todas as outras dialéticas, adivinho nesse apego das sucessivas gerações de garotada pelo rap uma vivência inconsciente da talvez principal missão do nosso país: salvar a África. Não apenas o maior dos continentes e o lugar de origem da raça humana, mas também todo o grande sentido da sofrida diáspora de seus primitivos habitantes na violência da maré montante do Ocidente e do Cristianismo. Então é com reverência que olho para Pedro Paulo Soares Pereira, Mano Brown e seus amigos que, como ele, tomaram apelidos tirados da língua inglesa: Edy Rock, Ice Blue e KL Jay.
Eles nos têm ensinado a sobreviver no inferno. Brown não pode ser submetido aos caprichos ditados pelo lucro de uma grande marca. Quem desce aos infernos está mais apto a ressurgir dos mortos e subir aos céus - e sentar-se à mão direita de Deus Pai.
A cultura hip-hop, como não podia deixar de ser, contaminou-se da ética das gangues, do mandonismo dos traficantes, da adoração à afirmação capitalista de automóveis, bebidas caras e roupas de grife: o gangsta rap americano (que não deixou de ser relevante esteticamente por isso) está cheio de exemplos. Mas isso são cores do complexo fenômeno. Em seu sentido mais abrangente e mais profundo, o hip-hop é a exibição de força dos que começam a construir a onda ascendente que há de mudar o mundo. Suas versões brasileiras são particularmente dignas. Mano Brown é o rei e o profeta. Não pode ser lançado ao desrespeito. Se ele não fez contrato com a Nike para dar seu nome a produtos dela - e não fez -, a Nike deve, cedo ou tarde, saber que tem que pagar caro pela desatenção. O que mais assombra nas euforias capitalistas é o irrealismo. O grupo de pessoas que decide passar a perna em alguém grande como Brown pensa que representa a esperteza. Na verdade, representa o delírio, o engano, a falha total.
O Globo
29/04/2012
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domingo, 29 de abril de 2012
CAETANO VELOSO & FLÁVIO VENTURINI - Céu de Santo Amaro - Só Áudio
CÉU DE SANTO AMARO
J. S. Bach / Flávio Venturini
J. S. Bach / Flávio Venturini
Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir
Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...
Meu amor..
Vou lhe dizer
Quero você
Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão
Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
E eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei
Na noite da paixão
Meu coração só quer bater por ti
E eu me coloco em tuas mãos
Pra sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei
Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor nos invadiu...
Então...
Veio a certeza de amar você...
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quarta-feira, 9 de novembro de 2011
CAETANO VELOSO - DEPOIMENTO EM DEFESA DO RIO - CANDELÁRIA - 10 DE NOVEMBRO - 15H
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