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terça-feira, 30 de julho de 2013

EDUARDO MASCARENHAS - Aflições da passagem de ano


AFLIÇÕES DA PASSAGEM DE ANO

- A passagem de ano é um balanço da vida

- Há uma mistura de esperança e apreensão

- O relacionamento com o mundo é posto em questão

Muitas pessoas suspiram aliviadas quando terminam as chamadas festas de fim de ano. Realmente, o fato de o Natal cair uma semana antes do dia 31 de Dezembro constitui uma OVERDOSE de emoções. Só mesmo nervos de aço e corações de pedra podem passar ilesos por dias tão densos, tão intensos e tão carregados de significação. É emoção demais para ser digerida em pouco tempo. E tome ressaca, empanturramento e indigestão. Com isso não estou me referindo aos excessos físicos. Refiro-me aos excessos psíquicos de que ninguém consegue escapar.

A mente humana é engraçada. É capaz de digerir quase tudo, mas requer uma condição: que lhe seja dado TEMPO para a digestão. É como aquele caipira a quem se perguntou se seria capaz de comer um boi. Sem pressa alguma, respondeu: "É claro que sou. É só me dar um ano. De churrasco em churrasco em chego lá."

Como a cada fim de ano somos quase obrigados a comer um "boi" em apenas uma semana, ficamos expostos às ressacas, às indigestões e aos empanturramentos psíquicos. Os sintomas decorrentes são vários: vulnerabilidade emocional, turbulências interiores, ansiedades, agonias e tristezas, tudo envolto em um clima de apreensão e irritabilidade. Nasce uma preguiça enorme, que vem a ser sinal de exaustão e desejo de recolhimento e repouso.

Não bastassem esses sintomas gerais, que ocorrem sempre que estamos vivendo sobrecargas, ainda existem os sintomas específicos, que correm por conta do significado de cada uma dessas festas.

O Natal é tempo de balanço da qualidade dos vínculos que estabelecemos com aqueles que nos são mais próximos. É tempo de avaliação do amor que damos e recebemos. Não do amor público, social, abstrato, universal, quase impessoal, mas do amor mais íntimo, concreto e personalizado que existe. Nesse sentido, o Natal é o oposto do Carnaval. As emoções carnavalescas não dizem respeito aos nossos amores permanentes e cotidianos. Dizem respeito aos encontros e desencontros dos pierrôs, arlequins e colombinas que cada um traz dentro de si. O Carnaval, portanto, conta nossas realizações e frustrações em relação aos sonhos secretos de amor que todos sonhamos - os encontros e desencontros enamorados, os namoros bem e malsucedidos. O Carnaval é, assim, tempo de balanço de nossa capacidade de despertar magia e sedução.

Já a Passagem de Ano é uma festa híbrida. Contém todos os elementos do Natal e do Carnaval. Não é a toa que tanta gente cumpre sempre um mesmo ritual. Até a meia-noite a pessoa fica com a família, para, em seguida, afogar as mágoas sambando pelas ruas e pelos salões, em cadência de folia.

No entanto, a Passagem de Ano é mais complexa ainda. Não só contém emoções natalinas e carnavalescas, como também contém emoções mais amplas ainda. Na realidade, trata-se de um tempo de balanço. Mas não só de balanço familiar e dos amores enamorados. Trata-se de um balanço geral, que engloba TODOS os aspectos de nossa vida. Tudo o que fomos e deixamos de ser. Tudo o que realizamos e não conseguimos realizar, desde o passado mais longínquo até o presente mais imediato. A tudo isso somam-se as esperanças e apreensões de um novo ano que se inaugura. Ocorre-nos então uma pergunta decisiva: nosso futuro será mais auspicioso que nosso passado? Pergunta que põe em questão toda nossa vida.

Sem dúvida, são muito intensaas as reflexões propiciadas por essa época do ano. Não é a toa que tanta gente vive com apreensão um momento tão denso de emoções, concentradas em um curto período de tempo.

Por fim, a Passagem de Ano é a época da confraternização universal. Devido a esse aspecto, evoca a qualidade de nosso relacionamento com o mundo. Trata-se de uma festa em que somos avaliados. E essa avaliação se dá tanto no plano privado quanto no plano público. Por isso, é possível dizer, sem cair no exagero, que dificilmente há comemoração comunitária mais complexa que a festa de Passagem de Ano. Complexidade que se traduz na soma de emoções, muitas vezes conflitantes, que acometem praticamente todas as pessoas.

Por Eduardo Marcarenhas, psicanalista.
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quarta-feira, 1 de maio de 2013

EDUARDO MASCARENHAS - Somos todos fofoqueiros

A fofoca é uma instituição universal da qual ninguém escapa. Até hoje ainda não conheci uma única pessoa que não fosse fofoqueira. Em qualquer grupinho social a fofoca rola solta. Até nas Sociedades Psicanalíticas é um tal de conversa no pé do ouvido que não acaba mais. Nos partidos políticos reina o disse-me-disse. As especulações de todo tipo ocupam grande parte das atividades: fulano rompeu com fulano, beltrano bandeou-se, cuidado com seu falso apoio...

E a Imprensa? Não fosse a fofoca, de que viveriam as colunas políticas e sociais? Acontece que a Imprensa resolveu tornar elegante essa coisa e mudou o nome de fofoca para "boato". Assim, o fofoqueiro profissional se exime de culpa, pois o "boato" é a fofoca passada adiante. O fofoqueiro fica apenas sendo aquele que deu a partida (as famosas fontes oficiosas).
Contra a fofoca não se pode fazer nada. É que a vida de todo mundo é dura, difícil, cheia de frustrações, de sonhos desfeitos, de ilusões derrubadas por amargas realidades. E quando uma pessoa está sofrendo, é terrível constatar que tem outra se dando bem, pois isso agrava o sofrimento. Portanto, para quem está sofrendo, é melhor achar que todo mundo também está na pior. Mal de muitos, consolo é, já dizia minha vó.

Por que a gente gosta tanto de ler jornal? É que quando nos mostra toda essa violência que está por aí, frente à tamanha truculência, o leitor, que leva uma vida duríssima, respira até aliviado: "Puxa, podia ser pior. Pelo menos eu estou vivo e não matei ninguém".

Portanto, a tentação da fofoca é humana, normal e compreensível. O problema é que essa tentação pode tomar proporções assustadoras, impedindo que a pessoa tenha um olhar generoso, uma emoção forte, uma compreensão oceânica, um desprendimento amazônico.

O ser humano só se renova quando troca sua seiva com alguém. É de nossa própria natureza a necessidade do compartilhamento. Sem isso, caímos numa imensa solidão ou nossa alma começa a ficar numa carência medonha, faminta de energias alheias. Nada é mais importante que o diálogo cotidiano, o bate-papo de cada dia. O ser humano precisa disso como o ar para respirar.

E, às vezes, pensando que está falando a gente pede pra passar a sopa, picha, malha, faz fofoca e não fala nada. Ou seja, pra falar sobre as nossas profundas emoções, ânsias e sentimentos, a gente se vê de rédea curta.

Vocês já repararam? Quantas vezes duas pessoas se encontram e se dispõem a falar sobre a verdade de seus sentimentos e descambam para críticas, conselhos que não têm nada a ver, ou simples fofoca?
Eduardo Mascarenhas - Psicanalista
(Rio de Janeiro, 06/07 1942 / 29/04/1997)


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

EDUARDO MASCARENHAS - Emoções e tristezas Natalinas

O Natal desperta emoções complexas. Evoca a infância perdida. 
Cria uma sensação de perda de vínculos com o mundo.

Sempre fiquei impressionado com a tristeza ou mesmo com a ameaça de tristeza que, pela época do Natal, se abatem sobre as pessoas. Caso eu quisesse exagerar e ser cruel, poderia até dizer que o Natal é uma época de crianças alegres cercadas por adultos tristes. Evidentemente, dizer isso é excessivo. Na verdade, as emoções despertadas pelo Natal são bastante complexas. Todavia, estou certo de que há pelo menos uma ponta de tristeza em quase todo mundo.

A alegria das crianças é motivada por razões óbvias. O Natal é época de presentes e acima de tudo de PRESENÇA de pais muito frequentemente ausentes.

Também é de fácil entendimento o lado alegre que desponta nos adultos. O Natal constitui uma oportunidade de reencontros, anistias e perdões. A esponja da solidariedade lava mágoas e rancores acumulados e encardidos. Trata-se, no mínimo, de uma trégua, de um cessar-fogo, de um armistício e de uma esperança de recomeço. Tudo isso enternece e comove corações.

Ora, se o Natal é exatamente tudo isso, de onde decorre a tristeza que ele acarreta? Aliás, não é só o Natal que provoca tristeza; ocasiões a princípio alegres como a Passagem de Ano e o Carnaval também trazem tristeza. No entanto, para um olhar mais fino e agudo, há matizes distintos nessas tristezas. Qual é então o matiz específico das tristezas natalinas?

Em primeiro lugar, salta aos olhos que, diferentemente da Passagem de Ano e Carnaval, o Natal é em essência uma festa da família. Se a Passagem de Ano ainda é uma festa híbrida, mistura de Natal com Carnaval, este, por sua vez, já é quase o oposto do Natal. No Natal se comemoram o amor e a família, ao passo que no Carnaval se festejam a disponibilidade e a sensualidade; ou melhor, festeja-se a sensualidade disponível. Estamos diante quase do oposto dos vínculos que soldam a família.

A primeira fonte do banzo natalino é o fato de o Natal evocar a lembrança daquela infância querida que os anos não trazem mais. Mas não é só isso. O Natal evoca também a infância que se quis ter e que não se teve, as dores de um passado familiar que nem sempre foi doce.

Como se não bastasse, o Natal evoca ainda a diferença entre o amor e a família que se tem e a que se gostaria de ter. Nosso casamento e nosso relacionamento com os filhos e amigos serão tão bons quanto gostariamos que fossem? Então ficamos tristes e saudosos de uma vida de afeição e de amor com que sonhamos e que não conseguimos realizar. Aquilo que se deixou de ser sem nunca ter sido... E haja fossa!

Podemos ainda detectar no Natal outro fator entristecedor, fator a que se presta pouca atenção, mas que é muito importante. Trata-se do seguinte: por acentuar poderosamente o vínculo familiar, o Natal produz na mente um duplo efeito.

Em primeiro lugar, produz uma sensação de perda dos vínculos mundanos. De uma hora para outra, passamos a ter a s ensação de que nossa vida ficou restrita à vida familiar. É como se o mundo tivesse morrido e ficassemos reduzidos à família. Isso representa uma perda para nossa parte adulta, além de provocar uma sensação de claustrofobia, de estarmos confinados em espaços pequenos.

Em segundo lugar, o Natal, também por reforçar o sentido da família, tende a desqualificar a sexualidade, pois esta, ao produzir permanentemente tentações, tende a desestabilizar os casais. Assim, o Natal é uma festa antiafrodisíaca, quase um breve contra a luxúria. Essa sensação de estar meio dessexualizado angustia o lado adulto, provocando uma verdadeira hipocondria sexual: "Será que perdi o sexo para sempre?"

A claustrofobia e a hipocondria natalinas também colaboram para a tristeza específica do Natal.

Todas essas emoções se dão com pessoas que tem família, que não perderam filhos e amores. Imagine-se a situação daquelas que já sofreram essas perdas!


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RUBEM ALVES - Natal