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quarta-feira, 31 de julho de 2013
DANIELA MERCURY - Ao Vivo - Pensar em Você
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ao vivo,
Daniela Mercury,
É SÓ PENSAR EM VOCÊ
MARTHA MEDEIROS - De cara lavada
Hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos
o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos
a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos
a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos
aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos.
terça-feira, 30 de julho de 2013
GERALDO CARNEIRO - Quem diria
Geraldo Carneiro
a Lúcia e Luís Fernando Verissimo
Ser cético era sonho de consumo
quando eu me consumia sendo jovem,
ser joyce, guimarães ou ser vinicius
no trânsito das musas musicais.
naquele tempo ainda não sabia
que a mim só me cabia ser eu mesmo,
entre as estrelas e as revoluções,
ao menos cá, no cais do coração.
hoje mudei, ulysses de mim mesmo,
procuro milha ilha em Tordesilhas,
uma sereia que me faça bem,
me faça mal, me faça quase tudo.
eu que só tinha o credo dos ateus
quero que a vida voe sempre assim
no piloto automático de Deus.
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LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - Musas
MUSAS
Desde que Homero pediu à Musa que iniciasse o relato da Odisséia por onde elaquisesse os escritores esperam das deusas da arte não apenas inspiração como instruçõesespecíficas: como e por onde começar, que estilo usar, o tom, o tamanho, tudo. Mesmoquem procura o assunto e como tratá-lo em sofridos mergulhos dentro do próprio cérebro oudedica-se a infindáveis rituais de preparação antes de escrever a primeira linha, confiandono poder da encantação para constranger o talento preguiçoso a aparecer, está, na verdade,atrás da musa. Não uma musa metafórica, apenas outros nomes para o mistério da criação.Uma musa mesmo. Uma mulher, com ou sem toga, que sente ao seu lado e lhe diga: escrevasobre isto, escreva deste jeito, comece assim ― e ainda lhe dê a primeira frase...― Escreva aí: desde que Homero pediu à Musa que iniciasse o relato da Odisséia por...― Mas... Quem é você?― Sua musa.― Finalmente!― Não se entusiasme demais. Você ainda terá que fazer o trabalho pesado. Nós nãoescrevemos nada. Ainda mais em computador.― Mas você é tudo que eu estava esperando. Alguém que me dê idéias sem eu precisar espremer o cérebro, ou ficar esperando a inspiração jogando paciência, que leva atudo menos à inspiração. Você está aqui. Ao meu lado. A inspiração em carne e osso! Vemcá!― Epa. Olha o assédio sexual no local de trabalho. Musa não é secretária!― Desculpe. Eu só queria abraçá-la, eu... Que musa é você?Calíope? Clio? Thalia?― Tá brincando? Essas são do primeiro time. Quem você acha que é, Homero? Eusou a musa da crônica em jornal.― Como é seu nome?
― Julinha.― Por que será que as musas são mulheres, Julinha? Por que a arte, para os gregos,no fundo era coisa de mulher?― E eu sei? Escreve aí: "Desde que Homero..."― Ou vocês são, na verdade, uma projeção das nossas mães? Como as nossas mãesnos alimentavam com seu leite, vocês alimentam o nosso cérebro com idéias. Como asnossas mães guiavam os nossos primeiros passos, vocês guiam a nossa mão no papel, ou noteclado. Todo artista é, no fundo, um exilado da mãe querendo voltar para o seu domínio.Será isso?― Nós estamos aqui para trabalhar ou...?― As escritoras mulheres, têm musos?― Escuta. Me mandaram aqui para ajudar você. Eu já lhe dei a idéia. Escrever sobre as musas. Sua importância na antiguidade, sua história no Olimpo, onde cantavamacompanhadas pela lira de Apolo, sua rivalidade com as Sereias, etc. Só aí você já temassunto para vários domingos. Mas essa especulação pseudopsicológica sobre o significadooculto das musas, nesta forma de diálogo, não foi idéia minha. Ou você pára ou...― Ou os gregos apenas representaram, nas Musas, o fascínio de todas as mulheressobre todos os homens, já que tudo que o homem faz é para impressionar ou escapar damulher? Tudo ― guerras, cidades, máquinas, civilizações e, claro, arte ― ou é paquera ou éterror, ou é conquista ou é fuga. A mulher domina a mente do homem, o cérebro de todohomem é um templo em que as mulheres são estátuas e sombras, mães e prostitutas, servas einvasoras. As musas são as sacerdotisas desse templo, instaladas pelos deuses para pôr ordem no caos, ou canalizar o caos para a arte.― Eu vou embora.― Espere! Tive outra idéia que não é sua. Por que as musas são mulheres, se hámais artistas homens que mulheres? Se homens fazem arte seria natural que homensinspirassem a arte. Mas o homem, ao criar a arte, está imitando a mulher que cria a vida. Aíestá a lógica dos deuses ao criarem as Musas. Eles estavam expressando a sua inveja doútero! Tudo se encaixa, tudo é simétrico e clássico, tudo se explica. Pois, se as mulherescriam a vida impregnadas pelo homem, é natural que os homens criem a arte impregnados pelas mulheres. As Musas não são inspiradoras, são reprodutoras. São garanhões etéreosespalhando sua semente penitente em nossos cérebros, para nos igualarem a elas na criaçãode vida.― Tchau.― Você já vai?!― Foram os garanhões etéreos.― Não vá ainda. Eu preciso de um fim para o meu raciocínio. Talvez as musasestejam, no fundo, zombando de nós. Talvez o ato de impregnação seja não uma penitência para nos dar o mesmo poder que têm as mulheres, mas uma reafirmação da suasuperioridade. Pois por mais que nos inspirem, nos semeiem com idéias e nos fertilizemcom frases, jamais daremos à luz vidas de verdade. Serão sempre ficções, vidas falsas,mundos postiços, épicos hipotéticos com heróis de mentira, ou crônicas indecisas commusas inventadas. O que você acha? Ei, onde está você? Eu preciso de um final. Você medeu um começo, agora me dê um fim. Musa! Julinha! Um final. Eu preciso de um final!
Volta!
MARTHA MEDEIROS - Mais uma de amor
Que algumas pessoas não acreditem que o homem esteve mesmo na lua, dá até pra entender, mas tem gente que não acredita em amor, e isso é imperdoável. Podemos não acreditar no que nossos olhos vêem, mas não podemos desacreditar no que sentimos. Você já ficou com a boca seca diante de uma pessoa? Já teve receio de ela estar ouvindo as batidas do seu coração? Bem, isso tudo não é prova de amor, apenas de ansiedade. Amor é outra coisa. Amor é quando você acha que a pessoa com quem você se relacionava era egoísta, possessiva e infantilóide e isso não reduz em nada a sua saudade, não impede que a coisa que você mais gostaria neste instante é de estar tocando os cabelos daquela egoísta, possessiva e infantilóide.
Amor é quando você não compreende direito algumas coisas, mesmo tendo o QI mais elevado da turma, mesmo dominando o pensamento de Sócrates, Plutão e Nietzche. Perguntas simples ficam sem resposta, como por exemplo: como é que eu, sendo tão boa gente, tão honesto e com um coração tão grande, não consigo fazê-la perceber que ela seria a pessoa mais feliz do mundo ao meu lado? Amor é quando você passa dias sem ver quem você ama, depois passam-se meses, e aí você conhece outra pessoa e passam-se décadas, e você já nem lembra mais do passado, e um dia qualquer de um ano qualquer você se olha no espelho e pensa: como é que eu consegui enganar a mim mesmo durante todo esse tempo? Amor é quando você sente que seria capaz de amarrar o cadarço de um tênis com uma única mão ou de fazer a chuva parar só com a força do pensamento caso a pessoa que você ama lhe mandasse um sim deste tamanho.
Amor é quando você sabe tintim por tintim as razões que impedem o seu relacionamento de dar certo, é quando você tem certeza de que seriam muito infelizes juntos, é quando você não tem a menor esperança de um milagre acontecer, e essa sensatez toda não impede de fazê-lo chorar escondido quando ouve uma música careta que lembra os seus 14 anos, quando você acreditava em milagres.
Tudo isso pode parecer uma grande dor, mas é uma grande dádiva, porque a existência do amor está toda hora sendo lembrada.
Dor é quando a gente está numa relação tão fácil, tão automática, tão prática e funcional que a gente até esquece que também é amor.
EDUARDO MASCARENHAS - Aflições da passagem de ano
AFLIÇÕES DA PASSAGEM DE ANO
- A passagem de ano é um balanço da vida
- Há uma mistura de esperança e apreensão
- O relacionamento com o mundo é posto em questão
Muitas pessoas suspiram aliviadas quando terminam as chamadas festas de fim de ano. Realmente, o fato de o Natal cair uma semana antes do dia 31 de Dezembro constitui uma OVERDOSE de emoções. Só mesmo nervos de aço e corações de pedra podem passar ilesos por dias tão densos, tão intensos e tão carregados de significação. É emoção demais para ser digerida em pouco tempo. E tome ressaca, empanturramento e indigestão. Com isso não estou me referindo aos excessos físicos. Refiro-me aos excessos psíquicos de que ninguém consegue escapar.
A mente humana é engraçada. É capaz de digerir quase tudo, mas requer uma condição: que lhe seja dado TEMPO para a digestão. É como aquele caipira a quem se perguntou se seria capaz de comer um boi. Sem pressa alguma, respondeu: "É claro que sou. É só me dar um ano. De churrasco em churrasco em chego lá."
Como a cada fim de ano somos quase obrigados a comer um "boi" em apenas uma semana, ficamos expostos às ressacas, às indigestões e aos empanturramentos psíquicos. Os sintomas decorrentes são vários: vulnerabilidade emocional, turbulências interiores, ansiedades, agonias e tristezas, tudo envolto em um clima de apreensão e irritabilidade. Nasce uma preguiça enorme, que vem a ser sinal de exaustão e desejo de recolhimento e repouso.
Não bastassem esses sintomas gerais, que ocorrem sempre que estamos vivendo sobrecargas, ainda existem os sintomas específicos, que correm por conta do significado de cada uma dessas festas.
O Natal é tempo de balanço da qualidade dos vínculos que estabelecemos com aqueles que nos são mais próximos. É tempo de avaliação do amor que damos e recebemos. Não do amor público, social, abstrato, universal, quase impessoal, mas do amor mais íntimo, concreto e personalizado que existe. Nesse sentido, o Natal é o oposto do Carnaval. As emoções carnavalescas não dizem respeito aos nossos amores permanentes e cotidianos. Dizem respeito aos encontros e desencontros dos pierrôs, arlequins e colombinas que cada um traz dentro de si. O Carnaval, portanto, conta nossas realizações e frustrações em relação aos sonhos secretos de amor que todos sonhamos - os encontros e desencontros enamorados, os namoros bem e malsucedidos. O Carnaval é, assim, tempo de balanço de nossa capacidade de despertar magia e sedução.
Já a Passagem de Ano é uma festa híbrida. Contém todos os elementos do Natal e do Carnaval. Não é a toa que tanta gente cumpre sempre um mesmo ritual. Até a meia-noite a pessoa fica com a família, para, em seguida, afogar as mágoas sambando pelas ruas e pelos salões, em cadência de folia.
No entanto, a Passagem de Ano é mais complexa ainda. Não só contém emoções natalinas e carnavalescas, como também contém emoções mais amplas ainda. Na realidade, trata-se de um tempo de balanço. Mas não só de balanço familiar e dos amores enamorados. Trata-se de um balanço geral, que engloba TODOS os aspectos de nossa vida. Tudo o que fomos e deixamos de ser. Tudo o que realizamos e não conseguimos realizar, desde o passado mais longínquo até o presente mais imediato. A tudo isso somam-se as esperanças e apreensões de um novo ano que se inaugura. Ocorre-nos então uma pergunta decisiva: nosso futuro será mais auspicioso que nosso passado? Pergunta que põe em questão toda nossa vida.
Sem dúvida, são muito intensaas as reflexões propiciadas por essa época do ano. Não é a toa que tanta gente vive com apreensão um momento tão denso de emoções, concentradas em um curto período de tempo.
Por fim, a Passagem de Ano é a época da confraternização universal. Devido a esse aspecto, evoca a qualidade de nosso relacionamento com o mundo. Trata-se de uma festa em que somos avaliados. E essa avaliação se dá tanto no plano privado quanto no plano público. Por isso, é possível dizer, sem cair no exagero, que dificilmente há comemoração comunitária mais complexa que a festa de Passagem de Ano. Complexidade que se traduz na soma de emoções, muitas vezes conflitantes, que acometem praticamente todas as pessoas.
Por Eduardo Marcarenhas, psicanalista.
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