quarta-feira, 25 de setembro de 2013

ADRIANA CALCANHOTTO - Conversa fiada

Estive em minha terra natal para participar da 
vigésima edição do Porto Alegre Em Cena

Estive em minha terra natal para participar da vigésima edição do Porto Alegre Em Cena, o festival de teatro da cidade, um dos melhores do mundo, capitaneado pelo muito guerreiro Luciano Alabarse, que faz com que o de mais contundente no teatro feito sobre o planeta passe uma vez por ano pelos palcos portoalegrenses. Passei o som no teatro no final da tarde, durante uma hora e meia, e à noite fiz os shows, nos dois dias. Dei algumas entrevistas por e-mail, como todos os dias. Vi minha família e meus amigos.

Na manhã seguinte ao show final, voei para São Paulo, onde um carro me aguardava no aeroporto para irmos à cidade de Monteiro Lobato. Estrada linda. Estava indo participar do quarto Festival Literário de Monteiro Lobato, a cidade, que antes chamava-se Buquira. Antes de Monteiro Lobato, o escritor, nascer e criar sua obra, num sítio que pertencia à família de seus avós, e que hoje chama-se Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Dizem na cidade que o menino José Bento Renato Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, mas que o escritor Monteiro Lobato nasceu em Monteiro Lobato, a antiga Buquira. Ninguém é de Monteiro Lobato porque não há maternidade, os partos são feitos nas cidades próximas e logo os “lobatenses” recém-nascidos estão em casa. Só quem nasceu em Monteiro Lobato foi o escritor Monteiro Lobato, achei lindo isso.

De manhã passei uma horinha cavalgando Passaporte, um Manga Larga gente boa com quem conversei durante toda a trilha. Céu transparente, montanhas soberbas, silêncio de cascos. Me comovi ao ver a linda foto da verdadeira Tia Anastáscia com um dos filhos do escritor Lobato no colo. Cantei com as crianças a plenos pulmões numa tarde mágica onde o mais bonito mesmo foi ouvi-las lendo os poemas para a plateia. Do evento, conduzida até o carro por Emília e Visconde em pessoa, peguei a estrada para o aeroporto, e meia-noite já estava em casa, no Rio.

Dois dias de folga hibernada a conselho médico e a quarta-feira hipnotizada pelo decano do Supremo Tribunal Federal solidamente argumentando, por duas horas, que cumprir a lei é melhor que não cumprir. Não consegui pensar em mais nada depois que não fosse o destino: o do direito, o do julgamento, o do juiz, o da democracia. Nas ironias do destino, afinal. Quinta-feira, estive envolvida com a rejeição de minha ficha de adesão à Rede Sustentabilidade, negada porque não há minha assinatura nos cadernos das últimas eleições. Claro que não há, não votei. Só com a identidade, sem saber minha zona e seção eleitorais, não me foi permitido justificar por estar em trânsito, e não insisti porque não queria dar meu voto a ninguém, apenas justificá-lo.

Voltei ao Rio, paguei a multa e obtive a certidão “Quite com a Justiça Eleitoral”. Certidão obtida exatamente porque não há minha assinatura no caderno da última eleição, não é isso? Somente obtendo a certidão posso viajar para o exterior, por exemplo, mas ela não serve para que eu apoie um projeto político. Posso sair do país e não posso assinar uma ficha de adesão a uma proposta política porque minha assinatura não consta dos cadernos? Como estamos atrasados. Peço encarecidamente à Justiça Eleitoral que nós, as 95 mil pessoas que estão nessa mesmíssima situação, tenhamos nossas rejeições revistas, em nome da democracia. Aos compadres peço desculpas pela elipse, mas somos 95 mil.

Fiz a mala para Roma. Na manhã da sexta-feira, gravei depoimento para a Rede Sustentabilidade por conta do imbróglio da ficha de adesão. Embarque para Roma. Chegada a Roma às 17h, para almoçar ou jantar, dependendo do ponto de vista. Cair desmaiada logo depois. De manhã algumas entrevistas, à tarde passar o som, agora sim, escutem, na incrível acústica de uma das melhores salas de música do mundo, enquanto Roma está lá fora. Comer uma maçã e fazer o show, finalmente.


A esta altura, os compadres mais atentos já entenderam que tudo o que não fiz durante a semana foi parar para escrever a coluna de hoje. Hoje, domingo, quando estou em Roma para cantar à noite. Não tenho como estar na contracapa do Segundo Caderno ao mesmo tempo, que eu sou só uma só. Por isso, compadres, desculpas sinceras, mas a crônica de hoje só na crônica que vem.

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