segunda-feira, 23 de setembro de 2013

CLÁUDIA PENTEADO - Chuva de realidade

“O Rio de Janeiro continua lindo”. 
(Gilberto Gil)

Mexendo nos meus escritos, encontrei um texto de 2010, que falava das chuvas que assolaram o Rio de Janeiro.  Nele, eu fazia um contraponto entre a tragédia e uma pesquisa com adolescentes, que denunciava o olhar romântico sobre a cidade, como se aqui não houvesse problemas graves. Como se, de alguma forma, simplesmente ser carioca compensasse tudo. Assuntando a respeito com amigos, de repente me vi no mesmo lugar – com a mesma atitude onírica em relação ao Rio. Hoje tenho a nítida sensação de que esta espécie de alienação é também a de boa parte dos cariocas. 

O Rio é tão lindo que perdoamos tudo. Perdoamos as praias poluídas, o lixo nas ruas, as enchentes, o asfalto esburacado, o medo de parar nos sinais, o medo de estacionar nas ruas, a falta de educação no trânsito, a deselegância natural dos cariocas, os camelôs, a precariedade dos serviços, a desatenção dos governantes, o metrô superlotado, a ladroagem dos taxistas, a cracolândia.

Aprendemos a conviver com as nossas mazelas  – tantas que, de um jeito meio carioca de encarar a vida, talvez nem tenham mesmo solução. Basta um esplendoroso amanhecer na Lagoa ou um pôr-do-sol no Arpoador para arrancar suspiros dos nossos corações e trazer de volta a sensação arrebatadora de como é bom viver aqui, apesar de tudo. 

E a certeza de que nossa cidade é incomparável e daqui não saio, daqui ninguém me tira. E assim, sucessivamente, vamos esquecendo de todo o resto, vivendo na superfície e seus desdobramentos, sem nunca mergulhar fundo. Quem sabe as coisas um dia se ajeitem? Afinal, Deus não é só brasileiro. Ele é carioca!

No entanto,  ciclicamente as chuvas retornam com seu choque violento de realidade. Abrem feridas físicas, visíveis, palpáveis, escancaradamente abertas. Mostram a cidade feia, enlameada, alagada, sem luz, salpicada de gente sofrida tentando sobreviver. O verão é o nosso fatídico “dia da marmota” que, ano após ano, nos toma de assalto, sem aviso. 

Vivemos tudo de novo, o primeiro dia do resto das nossas vidas: as ruas se enchem de água barrenta e morros deslizam abrindo rasgos de desgraça por todos os cantos. Ficamos ilhados novamente e, nessa hora, não há chope que ajude a esquecer, embora muitos de nós tentem.

 Um hiato sonoro se instala, como o da reportagem do Fantástico sobre as chuvas de 2010, quando não houve sequer narração em off, tamanha a intensidade das imagens exibidas. Nossa privilegiada topografia – montanha e mar – é, também, nossa maior tragédia. E a nossa alienação – ainda que seja uma alienação “do bem” -, mostra-se frágil, quase grotesca. Mostra-se fantasiosa e – porque não? - predatória.

Procuram-se culpados, questionam-se prefeitos, secretários de meio-ambiente, o Governador, culpa-se o povo que joga lixo nas ruas, que não abandonou suas casas nas encostas condenadas. No fundo, a culpa fica quicando por aí, sem cair no colo de ninguém, simbolizando a omissão de todos nós.  E fica a sensação de que vivemos anestesiados pela beleza de uma cidade mergulhada em problemas tão profundos, que parece não haver, de fato, solução possível. Depois da revolta, vem a onda de solidariedade para ajudar os desabrigados e tentar curar as feridas. Fazemos piada, bradamos “imagina na Copa?”, e vamos em frente.

Com o sol outonal brilhando e provocando uma luminosidade encantadora na cidade, a maioria dos cariocas se esquecerá novamente das imagens tristes repetidas mais uma vez em todas as telas possíveis. Seguiremos com nossas vidas. 

A cidade mais uma vez sacudirá a poeira e abrigará Olimpíadas, Copa do Mundo, Jornada Mundial de Juventude, Rio Open, e sabe-se mais quantos eventos no futuro – defendendo sua imagem mundial de pólo de belezas naturais, criatividade, música, cultura, arte. Porque seus dirigentes pensam grande, apesar da falta de garantias de que tudo vai funcionar e dar certo. Será esta uma grande vantagem – ou  nossa maior desgraça?


Clique abaixo para ler e ouvir também:









Nenhum comentário:

Postar um comentário