segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

MARTHA MEDEIROS - Aula de cinema

Covardia não é uma palavra que me defina, mas fujo de brigas. Se pressinto que vou me incomodar desapareço pela porta. De certa forma, isso explica por que, desde os primeiros comentário que li sobre o novo filme de Pedro Almodóvar, resolvi que não iria assistir, mesmo sendo sua fã assumida. Bizarro, grotesco, chocante, era o que eu ouvia a respeito de “A pela que habito”. Tudo indicava que era um filme soturno. Uma amiga chegou a sair antes de terminar. Pensei: nessa época do ano, quero investir em levezas, e não no que pode me atingir feito um chumbo. Não vou. Verei no DVD mais adiante, bem mais adiante.
Até que minha filha, no dia em que passou no vestibular par cinema, me convidou para assistir a nova obra do espanhol com ela. Poderia estar comemorando com os amigos em algum bar, mas quis saudar a nova etapa do seu jeito – e me senti honrada em ser sua convidada exclusiva.
Pois bem. “A pele que habito” é bizarro, grotesco, chocante, soturno e muito mais. E é este muito mais que o torna imprescindível para acordarmos do marasmo. A vida intelectual nos tem sido servida em bandeja de prata, parece proibido causar desconforto. A arte continua sendo vital, mas não tem sido viral. Não nos desacomoda da cadeira, não perturba, não assombra, não nos faz perguntar qual terá sido o truque. Os truques estão vindos todos explicados no rodapé.
Já Almodóvar perturba, assombra, provoca e fascina, sem nos dar um minuto para respirar. E essa quantidade de reações é que torna “A pela que habito” uma lição de cinema para todos, não só para os bichos da faculdade. Está tudo ali. Grandioso como a tela exige: o roteiro inventivo e insano, a direção magistral, a fotografia espetacular. O superlativo assumido, ainda que a estética kitsch que o caracterizou em outras obras esteja cada vez mais refinada – mas nunca refinada a ponto de se tornar palatável. O indigesto que Almodóvar oferece é uma iguaria da qual nós, famintos por magia, precisamos para nos alimentar – também.
Podem parecer disparatadas essas minhas argumentações, mas ficou evidente, ao sair do cinema, o quanto é necessário abandonarmos nossa zona de conforto para enfrentarmos o absurdo, para desmascarar tudo que existe de secreto e indizível que nos revoluciona por dentro, e dentro se mantém encarcerado. A arte serve para isso – dar voz ao incômodo. Há quem faça filmes de terror de maneira crua e explícita, sem sutilezas, sem mistério, sem psicologia, sem utilizar os recursos que o bom cinema oferece. Não é o caso de Almodóvar, que sempre faz uma empolgada declaração de amor ao seus ofício, ao mesmo tempo que dá um tremendo crédito ao seu espectador: ele realmente acredita na ausência de covardes na platéia.

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