quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

MIGUEL FALABELLA – Tantas vezes eu vi o Mar

Eu nasci com o mar aberto em frente, nasci com horizonte, mar por toda parte, a minha volta, nos meus ouvidos, mar de sereias e marolas e barcos pendurados no teto da casa de praia de meu avô, mar de rosas brancas, quando chegava o ano bom, mar de bolas de gude e pipas coloridas e uma solidão tão necessária para se inventar mundos e jogos. 

A casa da ilha ficava de frente para ele, encarando aquela vastidão bordada de navios lá longe, e a gente adivinhava futuros, trepados nos galhos da mangueira ou no pé de tamarindo. Sempre houve o mar e a certeza de que a travessia, mais cedo ou mais tarde, seria um caminho sem volta. Foi assim que o mar se apresentou, na infância – o mar de calmaria: as tias que traziam os pratos para os almoços de domingo, as primas que cursavam o normal e namoravam os rapazes que vinham jogar vôlei, a família reunida para uma fotografia na escada da varanda, os rostos corados, um universo com cada coisa em seu lugar e os destinos dos filhos previamente traçados. 


O mar da baía concordava com um murmúrio que não era mais do que um encrespar da superfície.

A segunda vez em que vi o mar, ele tinha se esquecido de nossa velha intimidade. Eu era pré-adolescente, vivia agoniado com a acne que teimava em marcar meu rosto, odiava os óculos que tinha de usar, não me sentia confortável com meu corpo, com meus pelos, com a vida que se estendia a minha frente. Fomos visitar minha tia que mudara-se para o Leblon. 

 O mar era outro, então, com ondas imensas que rugiam e engoliam o mundo num turbilhão de espumas. Tinha outra cor, também, de um azul esverdeado intenso e convidativo. Mas aquele não era o mar que eu conhecia, não havia a cumplicidade de então. Atirei-me de braços abertos, na alegria do reencontro, e ele me envolveu de uma vez só, com fúria e volúpia, traduzindo certamente o meu estado d’alma. 


Fui jogado de um lado para o outro, o calção de banho arrastado para algum lugar e acabei sendo resgatado, mais morto do que vivo, envergonhado, engolindo o choro na areia, enquanto as primas riam da minha ingenuidade. Demorei algum tempo para entender a geografia daquela rejeição e voltei para a enseada dos meus dias de menino.

A terceira vez em que vi o mar, eu já estava crescido, começava a fazer teatro e passei a freqüentar, como toda a minha geração, aquela faixa de praia que ficou conhecida como Sol Ipanema, o posto nove. Aquele foi o mar de toda uma vida, de todos os nossos sonhos, o mar inquieto das primeiras realizações teatrais, as primeiras personagens, as primeiras noites dormidas fora de casa. 

Aquele era um mar novo para mim, mas me seduziu de maneira irrecuperável. Foi uma paixão de cinema. Bastou um sorriso, uma lambida fria na areia, e meu coração se deixou levar num abandono de amor primeiro. Eu não imaginava, entretanto, que os mares poderiam entrar em choque, mas foi exatamente isto que aconteceu. 


O mar da ilha, com as tias e os empadões de domingo e a vida programada rebelou-se contra aquele outro que sussurrava uma cantiga bem mais sedutora e eu fiquei ali, no meio daquela discórdia, literalmente entre a cruz e a caldeirinha, como minha avó costumava dizer. Mas, no fundo, no fundo, eu já sabia o que queria, de modo que abandonei o noivado, a ilha, o apartamento que meu pai estava comprando e mergulhei naquelas águas que, desta vez eu sabia, iam me receber e encontrar um lugar para mim.

Eu olho para o mar de Fortaleza, neste sábado, e as imagens chegam, como num filme, as lembranças de todos os mares que banharam a minha vida. Faz um dia lindo, o céu é um espetáculo à parte e as imensidões de areia branca imitam nuvens na terra. A natureza hoje está revestida de uma grandeza comovente. 

Procuro algum sinal de que aquele é um mar novo, mas a cantiga é conhecida e meu coração está finalmente em paz, juntando todos os oceanos numa grande colcha de retalhos – o mar é o mesmo que me envolveu quando menino, nadando ao lado de meu pai ou batendo as pernas no colo de minha mãe, como naquela foto amarelada que está em algum lugar da gaveta dos guardados.

À noite, no belíssimo teatro José de Alencar, com sua estrutura metálica trazida da Escócia, no início do século, e conservado com dedicação e esmero, eu digo o texto da peça com uma alegria nova, descobrindo novos prazeres nas frases, nos olhares, nos gestos – foi o mar, eu tenho certeza, que lavou o cansaço desses dias. Já quase no final, eu me aproximo de Zezé Polessa e digo, na hora em que as personagens se despedem: “Acho que finalmente atravessamos a grande água”. 

A frase sai cheia de significados e Zezé sorri com os olhos, cúmplice no palco e na vida. Mais um pouco e terminamos a função da noite e os aplausos do público são generosos e cheios de afeto. Eu saio para as coxias e subitamente, como se tivesse encostado a concha dos meus anos no ouvido, escuto a voz do mar que canta uma nova canção, tranqüila, serena, como o sopro de mãe no machucado aberto, após aplicar o curativo. 


 Tantas vezes eu vi o mar e tantas vezes ele se apresentou como uma nova personagem, de modo que aqui, no alto do continente, eu deixo prá trás a memória das tempestades, das incertezas e bebo a benção desse dia, à espera do tempo maior de calmaria.


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