quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

MIGUEL FALABELLA – Três dias antes do amor

Tenho corrido tanto neste início de século, que mal tenho tido tempo de aproveitar a chegada do verão - mas ele chegou, finalmente, e trouxe as mudanças de espírito que estávamos aguardando desde o início de dezembro. Chegou meio inesperado, meio molhado, mas ainda assim merecia ter sido melhor recebido, reconheço. Mas a vida vai empurrando a gente pra lá e pra cá, um passo desajeitado aqui, um pisão no pé ali, e a gente sem se dar conta de que o céu já está se tingindo de outra cor.

Dia desses, entretanto, nem sei mais porquê, cheguei na varanda e me permiti ficar na contemplação da vida que estava passando ali, embaixo da minha janela, numa tarde de janeiro. E que tarde beijava a lagoa, que grande iluminador, esse! - eu pensei comigo mesmo. Uma luz perfeita, de um amarelo vibrante, uma vontade de ficar debruçado e admirado com aquilo tudo, sem nada que quebrasse o mágico daquele momento. Uma brisa que se podia sentir mergulhando no corpo e até ver no encrespado do espelho d’água. Fiquei lembrando de uma frase de Virginia Woolf, acho que está em Mrs Dalloway e ela se refere à beleza da manhã - como para crianças numa praia! - acho que é isso, e eu pensei que aquela tarde era o cenário ideal para crianças numa praia e todos os seus castelos de areia. E celebrei, ali, em silêncio, o meu festival do estio, acendendo o coração e enchendo as narinas com o cheiro que vinha pelo ar. O meu festival do estio. Cheio de entidades tropicais, eu ia pensando, sereias e índios, sacis e caiporas. Dias antes, com alguns amigos, eu tinha assistido a um vídeo de um balé irlandês e ficamos comentando sobre a antiga religião celta. De repente, Mary começou a contar a história de uma raça de fadas, as pixies, na verdade humanóides alados, que habitavam as florestas da Irlanda. Daí que, ali, pendurado na sacada, lembrei da história e fiquei inventado as minhas entidades, umas fadas brasileiras, cheias de gingado no bater de asas, despudoradas no vôo, que eu fui soltando pelo céu da minha imaginação.

O verão tira as pessoas de casa e coloca a cidade num movimento gracioso. A volta da Lagoa ia ondulando com o tanto de gente que passeava e corria e pedalava, celebrando a temporada. É bom olhar pra gente. Tem gente que gosta de observar os pássaros. Eu gosto de observar gente. Fico inventando histórias e acontecimentos, partindo de alguém que acabou de cruzar o meu campo de visão. As histórias vão se misturando e trazendo outras e, no final, a cidade é cheia de personagens, porque é isso que elas são, na verdade.

A brisa ganhou corpo e mexeu com tudo lá embaixo. Era só uma ameaça de vento, mas não ia se concretizar. Ela soprou a calçada e um bando de folhetos fez um vôo rasteiro, para aterrisar mais adiante. Devem ser folhetos de cartomantes e adivinhos, eu pensei, porque eles proliferam nesta época do ano.

Trago a pessoa amada em três dias.

Eu adoro isso. Trago a pessoa amada em três dias.

Cada vez que alguém me entrega um desses panfletos, eu me imagino sentado numa cadeira, na frente da clássica cigana da bola de cristal. Sempre reluto, antes de atirar o papel fora. Sabe Deus quando é que vai se precisar de uma força extra!, eu penso, tentando gravar o número do telefone. E tudo porque me fascina essa única frase: trago a pessoa amada em três dias.

O que faríamos, se soubéssemos, com certeza, que dali a três dias ia chegar o amor que se foi? Não é tão simples assim, se a gente pensar bem. Se o amor chegasse com hora marcada, na estação, como alguém querido que se ausentou por um tempo, esses três dias antes do amor iam ser inacreditáveis! Afinal, esta volta com hora marcada exige um encontro impecável.

Sarita chegou sem se anunciar, pousou o queixo no meu ombro, leu o início da crônica e disse que estava sem pé nem cabeça. Depois, concluiu que não esperaria os três dias estipulados para a volta da pessoa amada.

- Não esperaria nem um! Nem um minuto! Se não esbarrasse com o cachorro na porta da cartomante, dava a visita por perdida!

E concluiu, com uma careta de desprezo:
- Quer saber do que mais? Estou chegando à conclusão de que amor é coisa pra desocupado!

Saí do computador e abandonei a crônica. Arrastei Sarita pra varanda, achando que a visão da cidade maravilhosa à noite, acalmaria aquele coração, mas ela não me deu trégua. Praticamente exigiu que eu mudasse o rumo da crônica e eu concordei, tentando não alongar a conversação. De repente, ela parou de falar.

A noite estava linda. A lua, nos céus, era uma lua árabe. A tarde generosamente tinha ofertado sua perfeição à noite. Havia uns pássaros voando na lagoa. Volta e meia um planava sob a luz e era como se ele brotasse do nada, uma mancha de branco que estendia as asas, uma, duas vezes, até desaparecer de novo na escuridão.

O que é aquilo? – Sarita espichou o pescoço, abruptamente.

São pixies – eu disse, sem pensar.

Ela me olhou com um ar de interrogação e desenhou a palavra, puxando o queixo pra baixo: pi – xies?

Eu não respondi.


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